“Vamos distribuir cabazes de Natal e vamos retomar a realização da Ceia Solidária”

Entrevista: João Pina – Presidente da Fundação Nova Era Jean Pina

João Pina, Presidente da Fundação Nova Era Jean Pina, é natural de Trinta, no concelho da Guarda. Estudou na escola de Trinta e na Guarda, antigo “Bacalhau”.
Nos tempos lives, quando pode, gosta de passear e conhecer novas culturas, jogar snooker com os amigos com uma boa merenda portuguesa, da Beira, onde não pode faltar o queijo e a chouriça.

A GUARDA: A Fundação Nova Era Jean Pena assinou recentemente um protocolo com o objectivo de apoiar lusodescendentes residentes na Venezuela. Em que consiste esse apoio?
João Pina: No ano passado, fruto de um encontro na Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, na altura, era Secretária de Estado, a Dra. Berta Nunes, fui abordado com as dificuldades que o povo Luso na Venezuela estava e continua, lamentavelmente, a passar.
Pensámos na melhor forma de o ajudar e em articulação com a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e a Federação Iberoamericana de Luso Descendentes, na pessoa do Seu Presidente, Dr. Jany Ferreira, assinámos, no dia 10 de Novembro, um protocolo que resultou na distribuição de 200 cabazes de Natal a famílias portuguesas e lusodescendentes residentes na Venezuela. A Fundação custeou na sua totalidade a oferta dessas duas centenas de cabazes, que continham as tradições de Natal portuguesas: o bacalhau, o bolo rei, o azeite, farinha, etc.
Este ano, pela segunda vez, no dia 4 de Outubro, nas Instalações do Ministério dos Negócios Estrangeiros, renovámos a assinatura desse mesmo protocolo, com o actual Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Dr. Paulo Cafôfo – a Fundação irá oferecer na sua totalidade o valor pecuniário para a aquisição de uma centena de cabazes de Natal a serem distribuídos na época de Natal a famílias portuguesas e lusodescendentes a residir na Venezuela.
Trata-se de um protocolo muito especial para mim e para os que acompanham a Fundação, sabemos das imensas dificuldades, este ano acrescidas pelo forte temporal que deixou vítimas e maiores dificuldades financeiras.

A GUARDA: E em Portugal, como é que a Fundação pretende assinalar a época de Natal?

João Pina: Vamos distribuir cabazes de Natal e vamos retomar a realização da Ceia Solidária que devido à Covid 19 não foi realizada nestes dois últimos anos. Será um momento de união e fraternidade e de que já todos temos saudades.
O esforço financeiro este ano será maior, não só pelo número de participantes (estima-se a presença de mais de 1.000 pessoas), mas em especial pelo aumento de custo de vida. A Quinta de Santo António, situada em Maçainhas, está a colaborar ao praticar o preço mais moderado possível, mas obviamente, é bem superior face ao praticado em 2019. Os preços dos produtos para os cabazes também aumentaram substancialmente. Estamos cientes que será um imenso esforço financeiro, mas juntos e em solidariedade será possível partilharmos nesta Ceia, a mesma mesa.

A GUARDA: A quem se destina e onde vai decorrer a Ceia de Natal Solidária?
João Pina: A Ceia de Natal destina-se às IPSS (idosos e crianças), estudantes mais carenciados do Instituto Politécnico da Guarda, tal como em anos anteriores, a diferença no presente ano, é que a mesma reúna delegações e associações de cariz social de âmbito nacional Portuguesa e Associações de beneficência sediadas França, no fundo alargar a área de actuação de regional para nacional (Fafe e Santo Tirso).
A Ceia de Natal irá decorrer nas Instalações da Associação Empresarial da Guarda, no NERGA, a quem agradeço a colaboração. Este ano a Fundação não pagará qualquer custo de aluguer das instalações – uma ajuda substancial e que reitero, o meu bem haja, à Direcção desta Instituição.

A GUARDA: É importante promover momentos de alegria e esperança para os mais esquecidos e carenciados?
João Pina: Sim, claro. Chegam as agruras da vida para nos tirar os sorrisos. Iremos ter animação na Ceia de Natal. Num futuro, também ele próximo, queremos fazer sorrir as crianças institucionalizadas, os idosos que tanto tem sofrido com a pandemia e mais uma vez os que padecem no leito do hospital. A seu tempo serão divulgados esses momentos de partilha de alegria e esperança, tanto em Portugal, como em França.

A GUARDA: Ao longo do ano a Fundação também desenvolve muitas iniciativas solidárias. Quais as iniciativas que destaca?
João Pina: A Fundação não se lembra de quem mais precisa só no Natal, apesar de considerar que o Natal é aquele momento mágico do ano. Há dois anos a esta parte, mensalmente, são entregues bens alimentares no Distrito da Guarda, em Santo Tirso, em Fafe, no Porto.
Para com as associações protectoras de animais da Guarda e Fafe, também tenho ajudado com alimentos e produtos de desinfecção.
Tenho que agradecer, em nome da Fundação, às empresas de transportes “Transnós”, “Bernardo e Marques”, “Transportes Mesquita”, “ 5F Trans” e num futuro próximo à “Patinter” que dizem sempre, presente, e de forma voluntária, trazem os produtos de França até Portugal. À Junta de Freguesia da Guarda por nos apoiar na elaboração dos cabazes de Natal, por de forma abnegada ajudar a fundação a distribuir esses mesmos bens alimentares e por vezes fazer muitos quilómetros para os fazer chegar.
Foram entregues até ao momento várias toneladas de alimentos – mais de 50, de bens alimentares, produtos de higiene e desinfecção, alguns deles também para ajudar o povo Ucraniano.
Em França tenho estado atento ao desemprego e sempre que posso integro-os nas minhas empresas, a ofertar uma habitação durante alguns meses sem qualquer pagamento a “sem abrigo” e a pagar aulas de francês aos meus funcionários, caso haja necessidade.

A GUARDA: Estes gestos solidários envolvem o trabalho de muitas pessoas e empresas?

João Pina: Sim, muitas mesmo. A Fundação é Presidida por mim, mas não seria possível avançar sem os restantes elementos dos órgãos sociais da mesma, dos apoi
antes que dia a dia aumentam nesta forte corrente solidária. Estamos a falar de muitas centenas de euros gastos e que a Fundação por si só não consegue. Deixo um apelo, juntem-se à Fundação, um pequeno contributo de cada um dos novos aderentes, fará diferença nas actividades a desenvolver. Neste momento temos mais de 500 pessoas envolvidas.

A GUARDA: Tem recebido pedidos específicos de algumas instituições?

João Pina: Sim, todos os dias. De Instituições, nomeadamente IPSS, famílias de norte a sul de Portugal, em vários pontos de França, uma vez mais a Venezuela como já falei. Por vezes surgem pedidos que me deixam a pensar, e se fosse comigo, ou com a minha família! Colocarmo-nos no lugar do outro é fundamental para entendermos a fragilidade humana. Nestes últimos dois anos tem sido ainda mais constrangedor.

A GUARDA: É verdade que lhe camam o “Anjo da Guarda de Paris”?

João Pina: Certamente, a expressão é exagerada, mas sim, costumam referir-se a mim nesses termos. Gosto de me preocupar com os outros, de perceber em que posso ajudar, estar próximo… mas a expressão “Até o Anjo é da Guarda” era proferida por Alberto Dinis da Fonseca, ex. presidente da Câmara da Guarda e que foi grande defensor da minha cidade natal.

A GUARDA: Projectos para o futuro?
João Pina: Continuar a ajudar quem mais precisa. Sei que não posso, não podemos atender a todos os pedidos, é impossível. Desde 2020 com a Covid 19 e agora com o aumento de custo de vida, todos os dias nos solicitam os bens mais básicos para alimentar a família, as crianças. Considero que em pleno séc. XXI alguém passar fome é algo que me deixa apreensivo. Tenho acompanhado as notícias em Portugal em que bens essenciais de alimentação estão a ser roubados nos supermercados, por necessidade, por fome. Considero que algo está mal, muito mal. Em França, também se vive uma situação grave, mas não tão grave como em Portugal. Por isso continuarei a enviar alimentos para Portugal, continuarei a tentar que “uma gota no oceano continue a fazer diferença”.
No ano de 2023 também gostaria que fosse aberto um espaço físico da Fundação Nova Era Jean Pina em Portugal, a escolha é obviamente a Cidade da Guarda. Um espaço de apoio a pessoas carenciadas. Tenho estado em “negociações” com uma entidade da Guarda para a cedência, a custos controlados, desse espaço, caso não seja possível falarei com outros parceiros do Distrito.
É também intenção continuar a fomentar as parecerias, através da assinatura de diversos acordos de parceria.
Pretendo continuar com o Projecto “Analfabetismo Electrónico”, um projecto que visa apoiar os Lusodescendentes em França (como submeter um IRS, fazer um pedido de renovação de Cartão de Cidadão, por exemplo).

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