Todos os clientes que passavam nos standes, quando vinham a Portugal, manifestavam vontade de visitar a Ecolã”

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Jornal A Guarda

Entrevista: João Clara de Assunção – empresário e proprietário da Ecolã

 

João Clara de Assunção é empresário e proprietário da Ecolã, uma Unidade Produtiva Artesanal certificada, de origem familiar, situada em Manteigas. Dedica o tempo a esta Unidade Produtiva Artesanal fundada em 1925 (terceira geração familiar) que acompanha todo o ciclo da lã, desde a tosquia até ao produto final, numa base ecológica e sustentável. Usando os processos tradicionais, mantem uma herança cultural associada ao design.
A GUARDA: Como apareceu a Ecolã na sua vida?

João Clara: A Ecolã é uma herança. Eu vim em 1995, há 28 anos, herdar este trabalho do ciclo da lã, que era quase único na época, porque começa na tosquia da ovelha, até ao produto final que está aqui, nesta Unidade Produtiva Artesanal, bem simbolizado.
Tosquiamos as ovelhas em Maio, das nossas raças autóctones, num território que vai desde Oliveira do Hospital até Vilar Formoso, e com essa lã fazemos aqueles produtos, sendo o principal o burel. Ninguém sabia o que era o burel há 25 anos. Eu dinamizei-o, internacionalizei-o, e hoje, com o burel fazemos, em várias áreas, todos os trabalhos de decoração, de isolamento térmico, de sapataria, de acessórios que estão aqui também muito bem representados.

A GUARDA: E houve uma aposta na internacionalização?

João Clara: Este foi um trabalho árduo, porque foi para os países nórdicos. Foi na dinâmica da internacionalização, que há 28 anos, ainda não se falava na internacionalização, que eu criei a chama de trazer feedback das pessoas que iam contactando com este produto nobre, que era muito localizado aqui em Manteigas e na região. O consumo do burel tinha uma área muito reduzida, porque era das classes rurais, dos pobres, dos pastores e das ordens religiosas.

A GUARDA: A internacionalização do burel veio dar uma nova dinâmica à pastorícia?

João Clara: Sim, à pastorícia, na criação de gado, no aparecimento de pastores novos para produzirem a lã e assim eu ser auto-suficiente.

A GUARDA: E consegue ser auto-suficiente?
João Clara: Sim, consigo ser auto-suficiente. Eu tenho trinta mil quilos de lã já arrematados para o próximo mês de Abril que vamos tosquiar. Desde Oliveira do Hospital os pastores vendem-me a lã que vai para o lavadouro do Tavares da Guarda, onde é feita a selecção para que cada uma das peças tenha a parte da lã da ovelha direccionada para cada produto.

A GUARDA: Quantas pessoas trabalham na Ecolã?

João Clara: Somes 28 trabalhadores. Eu recrutei jovens que é para os mais idosos prepararem a sua ida para a reforma. Antecipei esta situação fazendo formação. Estão aqui jovens entre os 28 e os 35 anos que se fixaram em Manteigas, num projecto em que eles quiseram logo de uma forma determinante criar a sua própria família, porque viram que a Ecolã lhes dava uma garantia futura de sustento.

A GUARDA: O futuro de Manteigas também pode continuar a passar por este sector?

João Clara: Exactamente. Foi deste sector que viveu a população de Manteigas durante mais de um século. Com o princípio da tecelagem na empresa Matos Cunha, onde nós hoje, nessa primeira fábrica, temos um hotel. Nesse hotel está simbolizada a nossa história em duas suites. A primeira suite tem o nome de Matos Cunha. Foi a primeira fábrica de 1826. E a outra, é a suite Ecolã, que é a última desta geração.

A GUARDA: Uma das particularidades é a abertura da sua fábrica ao mundo?

João Clara: Sim, está aberta ao mundo. Passam aqui milhares de pessoas. Todos os dias temos visitas permanentes gratuitas e informamos que venham cada vez mais. Estamos sempre disponíveis para mostrar o ciclo da lã, sem levar dinheiro nenhum, de uma forma voluntária e proporcionar a levarem um produto no final da visita.
A GUARDA: Quem visita a Ecolã, quais os produtos que pode adquirir?

João Clara: Pode levar sempre uma peça em burel, que de uma forma geral é sempre o que levam. Aliás nesta visita (dia 2 de Março) vamos apresentar um apontamento do guia da Louis Vuitton que nos fez uma reportagem aqui e na nossa loja de Lisboa, porque temos lojas em Lisboa e Porto, com uma localização em sítios onde passa muito turismo. E uma das recomendações do guia da Louis Vuitton foi: não deixe de levar da Ecolã uma capa de burel. É isso que simboliza um bocadinho a visita ou a compra daquilo que é o frequente é sempre uma capa ou então uma manta típica da Serra.

A GUARDA: Manteigas vive muito do turismo. O sector dos lanifícios também contribui para isso?

João Clara: Eu dizia muitas vezes ao senhor Presidente da Câmara, no tempo do Dr. José Manuel Biscaia, que ele devia-me pagar as etiquetas que cada peça leva, porque eu internacionalizei Manteigas. E vinham a Manteigas pessoas para visitar a Ecolã, caso contrário, se calhar, não passariam por cá.

A GUARDA: Mas agora também continuam a vir?

João Clara: Sim, continuam a vir. Hoje é moda. Manteigas com a sua dinâmica turística, com a criação de várias unidades hoteleiras, entre elas a nossa, mas a Ecolã foi sempre um ponto de atracção. Este trabalho não foi feito pelas redes sociais, foi pelas 28 feiras que eu fazia ao longo do ano. Todos os clientes que passavam nos standes não só a nível nacional como no estrangeiro, quando vinham a Portugal manifestavam vontade de visitar a Ecolã. Eu trazia-os cá, estrangeiros de todo o mundo.

A GUARDA: É um homem realizado aqui em Manteigas?

João Clara: Sim, sou um homem realizado. E digo-lhe que foi a melhor opção da vida. Não precisava de ter vindo para Manteigas, à época, porque eu tinha a minha vida familiar em Lisboa. Fiz esta opção criando um bichinho para que a quarta geração já esteja a seguir os meus passos. Sou feliz! Sou um homem feliz porque também sou um crente.

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