“Sinto que o interesse pela banda ou pela música por parte da camada mais jovem não é igual e tem vindo a perder-se ao longo dos anos”

Entrevista: Bruna Simão – Maestrina da Sociedade Filarmónica Bendadense

Bruna Simão, Maestrina da Sociedade Filarmónica Bendadense, é natural de Bendada, concelho do Sabugal.
Iniciou os estudos musicais na Sociedade Filarmónica Bendadense em 2006 e, em 2010, foi para a Escola de Música de Belmonte – Centro de Cultura Pedro Álvares Cabral. Em 2015 ingressou na Escola Profissional de Artes da Beira Interior na Covilhã onde terminou o ensino secundário nesta área da música.
Gosta muito de conhecer sítios e gentes novas, por isso, uma das coisas que mais gosta de fazer é viajar. É muito apegada à família com quem passa muito tempo. Também dedica muito tempo à música, seja apenas a ouvir em casa ou a assistir a diversificados concertos/apresentações.
A GUARDA: Não é muito habitual ver uma mulher a dirigir uma banda filarmónica. O que a levou a aceitar o cargo de maestrina da Sociedade Filarmónica Bendadense?

Bruna Simão: É verdade que não é muito comum ver uma mulher à frente de uma banda ou em cargos de liderança, aliás, eu própria não conheço muitas mulheres que sejam maestrinas. Estou actualmente nesta posição, dando continuidade ao trabalho do estimado, Luís Andrade. Ele era o anterior maestro da Sociedade Filarmónica Bendadense e por motivos de saúde não lhe é possível continuar o seu trabalho enquanto dirigente desta banda.
Assumo este papel, pela paixão que tenho pela música assim como, pela Sociedade Filarmónica Bendadense.
Foi no ano de 2006 que entrei para a banda e portanto, conto já com 17 anos nesta instituição.
Todo este tempo, cultivou em mim um enorme amor à banda, e por isso, não poderia negar dar continuidade a um legado e a uma história tão longa como é a da Sociedade Filarmónica Bendadense.

A GUARDA: Apesar de ainda ser muito nova está à frente uma banda mais que centenária. É uma responsabilidade acrescida?

Bruna Simão: Comparando a minha idade à da Sociedade Filarmónica Bendadense, sou ainda uma criança. Eu tenho 23 anos e a Banda tem mais 130.
São muitos os anos de história que se carregam na bagagem da Sociedade Filarmónica Bendadense.
Muitas pessoas que já por lá passaram e deixaram o seu legado. Penso que não há na Bendada uma família que não tenha tido ou que tenha um músico na banda e no fundo, a Sociedade Filarmónica Bendadense, é isso mesmo, o povo da Bendada.
É a Bendada e as suas gentes que são representadas em cada uma das apresentações feitas.
O peso de estar à frente de uma instituição tão acarinhada e tão apreciada há tantos anos faz com que o desafio se torne ainda maior.
Tenho em mãos uma grande responsabilidade, mas tenho também uma enorme vontade de continuar a escrever esta história e acima de tudo, honrá-la.

A GUARDA: Actualmente, a Sociedade Filarmónica Bendadense é constituída por quantos elementos?

Bruna Simão: Hoje em dia, a banda conta com cerca de 35 elementos na sua totalidade.
Considero este, um número bastante positivo tendo em conta a região onde nos encontramos.
É do conhecimento de todos nós que o interior está a perder população e isso tem-se sentido muito nos últimos tempos. Ainda assim, tentado combater esta desertificação, na Bendada lutamos com a nossa maior arma, a música.

A GUARDA: Os elementos que integram a banda são todos da Bendada ou há músicos de outros lugares?

Bruna Simão: Quando entrei em 2006, quase todos os músicos que compunham a banda, ou todos mesmo, eram da Bendada. Actualmente, já nada é igual.
Maioritariamente por motivos laborais ou familiares, os músicos foram obrigados a sair da aldeia e consequentemente, a abandonar a banda. Alguns deles rumaram para lugares distantes, e outros para cidades vizinhas. Desta forma, contamos com músicos de sítios distintos como, Fundão, Guarda e Belmonte, ainda assim, na sua maioria, são provenientes de várias localidades do concelho do Sabugal como, Águas Belas, Espinhal, Sortelha, etc.

A GUARDA: Olhando para trás, de forma resumida, como apareceu a Sociedade Filarmónica Bendadense?

Bruna Simão: A Sociedade Filarmónica Bendadense foi fundada em 1870, por António Nunes da Fonseca Faria, primeiro professor primário da Bendada.
Inicialmente a Banda dava mais importância à música vocal. Só em 28 de Agosto de 1881 conseguiu o seu primeiro instrumental, convertendo-se num agrupamento exclusivamente constituído por instrumentos de sopro e de percussão.
Mais tarde, a 5 de Agosto de 1882 a Sociedade Filarmónica Bendadense é convidada a inaugurar a linha da Beira Alta na Guarda, fazendo parte da animação aquando da chegada do Rei Dom Luís I e Rainha Pia de Saboia.
Em 18 de Maio de 1907 a Banda Filarmónica da Bendada é a banda que está presente na inauguração do Hospital Sousa Martins (Guarda), que contou com a presença do Rei Dom Carlos e Rainha Dona Amélia.
Nos finais da década de 30 e até aos anos 50, a Banda é oferecida à Legião Portuguesa, sendo a primeira a integrá-la.
É a única Banda Filarmónica do concelho do Sabugal.

A GUARDA: Os mais novos continuam a aderir a este tipo de projetos?

Bruna Simão: Sinto que o interesse pela banda ou pela música por parte da camada mais jovem não é igual e tem vindo a perder-se ao longo dos anos.
Na altura que eu entrei, não havia muitas alternativas em como passar o tempo livre e para mim e os meus amigos, era uma diversão irmos todos os sábados para a banda.
Agora, e na minha opinião, talvez devido à evolução das novas tecnologias as crianças não têm tanta facilidade em aderir a este tipo de actividades. Os jovens criam um certo vício pelos computadores ou pelos telemóveis e acabam por passar o seu tempo colados a um ecrã.
Por outro lado, o facto de não existirem muitas crianças na Bendada, faz com que percamos cada vez mais os jovens e as crianças na banda.
A GUARDA: Quais as principais iniciativas em que a Sociedade Filarmónica Bendadense tem participado?

Bruna Simão: São diversas as actividades e projectos em que a Sociedade Filarmónica Bendadense se insere.
Algumas das nossas apresentações são nas Festas Religiosas pelas aldeias, outras em concertos temáticos como é o caso do Natal.
Por outro lado, apresentamo-nos também em actividades em parceria com o Município do Sabugal como são o caso de Feiras de Turismo, Capeias Arraianas, Festival Sete Sóis Sete Luas, Sabugal Presépio, Desfiles de Bandas, etc.
É para nós um orgulho, poder representar a nossa terra assim como a região em muitas destas actividades.
Levamos o bom nome da Bendada e do Sabugal até muito longe.

A GUARDA: As Festas religiosas ainda ocupam grande parte das actuações da vossa banda Filarmónica?

Bruna Simão: Sem dúvida alguma, as Festas Religiosas são a actividade que mais preenche a nossa agenda.
Durante todo o ano, somos convidados a fazer parte destas festas, mas é importante referir, que na sua maioria, estas acontecem nos meses de Julho e Agosto, talvez por estarmos numa região de muitos emigrantes e ser nesta altura que estão por Portugal.
Fazem parte da cultura de cada povo e são muitas as festividades onde marcamos presença para acima de tudo, através da nossa música, alegrar quem nos ouve.

A GUARDA: É um desafio manter uma Banda Filarmónica numa aldeia do interior?

Bruna Simão: Tal como referi anteriormente, o facto de estramos numa região do interior de Portugal é uma dificuldade acrescida. Isto porque, a população é cada vez menos e mais envelhecida.
Daqui se prende o facto de haverem cada vez menos jovens e menos pessoas da Bendada a integrar a banda.
Tentamos combater esta dificuldade oferecendo ensino gratuito de música a todos aqueles que pretendam vir integrar a banda, sejam eles da Bendada ou não.
As oportunidades aqui não são muitas mas estamos todos, sem excepção, a lutar na mesma direcção.
Queremos muito, dar continuidade à Sociedade Filarmónica Bendadense e escrever mais 150 anos de história.
Somos movidos pela música e é pela música que continuamos a lutar.

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