“Senti muita curiosidade em saber como era a vida dentro de um convento, mas sem qualquer interesse em tornar-me uma consagrada”

Entrevista: Ana Rita Balau Figueiredo, missionária concepcionista a caminho de Timor-Leste

Ana Rita Balau Figueiredo é natural da Guarda e fez a profissão religiosa temporária como Irmã Concepcionista ao Serviço dos Pobres, no dia 9 de Setembro, em Elvas.
Estudou na Escola Secundária da Sé Guarda e na Escola Superior Agrária de Viseu onde fez licenciatura em Engenharia Alimentar.
Nos tempos livres gosta de tocar Viola e fazer trekking com amigos.

A GUARDA: Quem é Rita Balau e como foi o teu percurso até decidires entrar na Congregação das Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres?

Rita Balau: Quem é que eu sou? É difícil responder depois de ter tomado um passo tão importante na minha vida, como foi a profissão religiosa, há apenas duas semanas. Uma coisa não tenho dúvida: Eu sou feliz! Sou feliz porque me sei profundamente amada e porque reconheço que esta alegria e espontaneidade, que me é característica, é um dom de Deus.
Mas vamos a coisas concretas. Sou a Rita e há 31 anos nasci na cidade mais bonita de Portugal: a Guarda, claro! Tenho uma família fantástica que amo muito. Cresci numa família que transborda alegria e boa disposição. Os meus pais e o meu irmão são uma parte fundamental de quem sou. Ouvi falar de Deus ainda antes de saber que eu era e quem Ele era. A minha família transmitiu-me a existência de um Deus com quem não faz sentido viver sem. Lembro-me de ouvir falar de Deus desde que me lembro de mim.
Os meus pais fazem parte das Equipas de Nossa senhora e sempre estivemos muito envolvidos na Comunidade Cristã da Paróquia da Sé. Andei na catequese e fiz parte dos escuteiros, mas foi muito mais tarde, quando fiz os convívios fraternos e fui às Jornadas Mundiais da Juventude em Madrid, em 2011, que senti esta presença real de Deus vivo em mim. Mas na altura não soube interpretar. Sentia uma felicidade e paz acrescida, mas não conseguia nomear ou entender.
Durante o tempo da faculdade, afastei-me completamente de Deus. Apenas me lembrava dele nos momentos de aperto antes dos exames ou ao domingo quando ia a casa, para fazer a vontade aos meus pais. Sentia que havia outros lugares e coisas que me ocupavam e davam uma sensação de felicidade momentânea. A tuna, a Associação de Estudantes foram preenchendo o meu tempo e pareciam incompatíveis com Deus.
A grande reviravolta deu-se quando voltei da faculdade para casa. Esta circunstância coincidiu com o momento em que a minha avó ficou doente e veio viver connosco. A minha realidade era o desemprego e a fragilidade da minha avó. E nesse tempo o meu pároco, o padre Alfredo, contactou-me para dar catequese. Eu não sei porquê, mas aceitei. E esse tornou-se o ponto alto da minha semana. O facto de estar há tanto tempo longe da Igreja fez com que eu tivesse de procurar saber mais e mais. Nessa procura, e a cada passo que dava, a sede de Deus ia tornando-se maior. E na fragilidade da minha avó Dulce ia tocando o rosto de Jesus, de quem falava às crianças da catequese.
Entretanto, já a trabalhar, fui convidada a fazer parte da pastoral juvenil da Diocese da Guarda. Na pastoral juvenil senti que todo o tempo dado, dava um novo sentido à minha vida. Durante a semana ia trabalhar ansiosa que chegasse o fim-de-semana para os encontros juvenis.
A pastoral juvenil decidiu organizar um encontro de jovens com consagrados, a 31 de março de 2019. No final desse encontro, foi proposto aos jovens fazer uma experiência numa congregação ou instituto presentes na nossa Diocese. Lembro-me que na altura o evento foi um falhanço. Os consagrados apareceram todos, mas os jovens eram menos de uma dezena. Lembro-me, também, que senti muita curiosidade em saber como era a vida dentro de um convento, mas sem qualquer interesse em tornar-me uma consagrada. Tinha muitos preconceitos em relação à vida religiosa. E fiz algo que ainda hoje não sei como tive coragem. Parece que não veio de mim. Liguei à irmã Joana, das Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres que tinha dado testemunho naquele dia, e perguntei se era possível fazer uma experiência com elas. E rumei a Elvas, casa mãe da congregação, no Alentejo e durante 3 dias vivi no Convento com as irmãs. Senti um misto de sensações: por um lado, a questão constante “porque é que estou aqui?” e, por outro, a sensação de felicidade e de paz que experimentava.
A partir daqui, iniciei uma caminhada de discernimento, com o padre Serafim Reis e com as irmãs, na procura livre da vontade de Deus para mim. Depois de dois anos de procura, de partilha, de experiências e atividades diversas, decidi deixar o meu trabalho e ir viver com as irmãs. Foi um passo gigante e muito difícil, mas feliz. Ainda hoje não sei como fui capaz, mas sei que valeu a pena! O Senhor foi-me confirmando que era por aqui. Que a paz e a alegria que sentia era maior que eu e, por isso, pedi entrada no noviciado. Foram 2 anos partilhados com mais 4 colegas, duas de Timor-Leste, uma do México e uma de Moçambique. Foi um tempo muito desafiante a nível emocional e pessoal. Aí eu me descobri Rita em Deus! E foi nesta relação de amor, de me sentir profundamente amada, e de sentir que nada disto vinha de mim, que decidi dar este passo: tornar-me irmã!
Por isso, sou a irmã Rita, missionária concepcionista a caminho de Timor-Leste.

A GUARDA: O que leva uma jovem no meio de tantos jovens a mudar radicalmente de vida?

Rita Balau: Foi descobrir que a minha alegria tinha um nome: Jesus!

A GUARDA: E os amigos, principalmente da Guarda, como reagiram à tua entrada na vida religiosa?

Rita Balau: Eles acolheram este desafio comigo! Uns, antecipando este passo e apoiando, outros, com algum receio do que isso implicaria de mudança, iam colocando questões e fazendo-me pensar. Mas para todos eles, o mais importante era a minha felicidade. Todos me apoiaram muito, mesmo aqueles para quem Deus não faz sentido!
 A GUARDA: A opção pelas Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres teve algum empurrão especial?

Rita Balau: Acho que sempre nos sentimos impelidos pelo testemunho de alguém que nos mostra verdade no que vive. Foi no testemunho de missão da irmã Joana naquela primeira atividade, aparentemente falhada, que me impeliu a conhecer o carisma e a espiritualidade das Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres. E, já em Elvas, quando me foi dada a conhecer a presença das irmãs na missão Adgentes, desejei fazer-me ao largo (cfr. Lc 5, 4) e partir.

A GUARDA: Fizeste a profissão religiosa temporária em Elvas. Como viveste esse momento?

Rita Balau: Completamente entregue. Sinto que vivi o dia mais importante da minha vida! Vivi este momento na certeza de que sou amada como sou e que Deus me chama na minha fragilidade. Vivi-o com as pessoas que amo e com a família religiosa a que pertenço e que me acolheu e caminha comigo.
Vivi este momento muito centrada no “sim” que estava a dar, certa de que estava a entregar-lhe totalmente a minha vida. Sou de Deus!
A GUARDA: Participaste na Jornada Mundial da Juventude integrada nas Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres. Como foi essa experiência?

Rita Balau: Foi uma experiência incrível! O que mais me fascinou nas JMJ em Lisboa foi o encontro e a procura tão livre e alegre dos jovens. A oportunidade de estar, durante toda a semana, na “Cidade da Alegria”, deu-me o privilégio de conhecer jovens de várias partes do mundo. Surpreendeu-me a sua procura e a forma como vinham, sem medo, ao nosso encontro e partilhavam histórias, dúvidas, experiências, questões, dilemas. A sua procura foi muito inspiradora!
Esta semana preparada, vivida e partilhada com as minhas irmãs, foi especial! Especial porque encontramos tantos que se levantaram apressadamente à procura de Deus, como nós! Especial porque foi vivida um mês antes da minha profissão religiosa! Especial porque no cansaço, na escuta, na entrega O encontramos!

A GUARDA: No teu ponto de vista, como é que os mais novos olham para a Igreja?

Rita Balau: Sinto que os jovens têm uma grande sede de verdade e de autenticidade. Que procuram algo belo pelo qual valha a pena dar a vida. A Igreja tem de ser este espaço que escancara as portas a quem procura, sem medo das provocações e da diferença, mas acolhendo as dúvidas e sendo espaço de diálogo e de escuta. Hoje, os jovens olham para a Igreja com expetativa e desejam que esta seja mais de TODOS, com TODOS e para TODOS, como Deus a sonhou!

A GUARDA: E agora, qual vai ser a tua missão, uma vez que estás a caminho de Timor?

Rita Balau: Sim, parto no próximo mês para Timor. Parto pois, tal como nos interpelava o papa Francisco na JMJ, quero dar lugar aos sonhos! Vivo o sonho de dar-me ao povo de Timor-Leste e, assim, deixar que Deus se faça em mim, naquela terra do Sol nascente onde já me esperam e aonde eu já me vejo. Quanto à missão que me será confiada, só em Timor-Leste saberei.
A GUARDA: A Guarda continua no teu coração?

Rita Balau: Quando crescemos felizes na nossa cidade natal, quando este é um espaço cheio de rostos, de memórias e histórias felizes com as pessoas que amo, é inevitável que vá sentir saudades. Sim! A Guarda vai continuar sempre no meu coração! Comigo, a Guarda parte para Timor-Leste!

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