“O objectivo inicial deste projecto foi desmistificar a Inteligência Artificial e as pessoas perceberem que é mais uma ferramenta que podem utilizar”

Tiago Caldeira – imaginou o primeiro livro em língua Portuguesa escrito e ilustrado pela Inteligência Artificial

Tiago Caldeira é natural da Guarda. Depois de concluir o mestrado em Engenharia Electrotécnica na Universidade de Coimbra, aceitou o desafio internacional de trabalhar no estrangeiro. Iniciou o percurso profissional na Khalifa University de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, estando encarregue do Laboratório de Robótica, mercê da vasta experiência adquirida nos Campeonatos Nacionais e Internacionais de Robótica Educativa.
Liderou equipas de várias nacionalidades em empresas e departamentos governamentais da área da educação, tecnologia e inovação, tendo, entre outros, sido o formador da mais premiada equipa dos E.A.U. no WorldSkills 2017.
Mantém uma estreita ligação a Portugal e à Guarda, onde ministra, com regularidade, formação online em robótica e programação, dirigida aos jovens da ADoT – Associação Desenvolver o Talento.
A GUARDA – O que é que o motivou a imaginar um livro em língua Portuguesa escrito e ilustrado pela Inteligência Artificial?

Tiago Caldeira: A principal razão foi desmistificar o medo sobre a inteligência artificial. Acho que metade das pessoas está entusiasmada e a outra metade das pessoas está preocupada: vão-nos tirar o emprego, vão-nos tirar os nossos projectos, as nossas actividades. O objectivo inicial deste projecto foi desmistificar a Inteligência Artificial e as pessoas perceberem que é mais uma ferramenta que podem utilizar. Da mesma maneira como as calculadoras nos preocuparam, depois foram os computadores e agora é a Inteligência Artificial. É mais uma ferramenta que nós temos, enquanto humanidade, que tem de ser usada com moderação mas permite coisas também muito interessantes.

A GUARDA: Quem é que colaborou neste livro?

Tiago Caldeira: Este livro é um projecto da EMIND e eu fui o primeiro a ter a ideia. Depois trabalhámos em conjunto, eu, Tiago Caldeira, a Goretti Caldeira que trata mais da parte da edição e os ajustes da parte da ilustração foi a Anita Nunes.

A GUARDA: Mesmo sendo um livro escrito e ilustrado pela Inteligência Artificial, tem a parte humana muito presente?

Tiago Caldeira: Sim, a parte humana está muito presente.
A parte não humana, a parte do texto em si foi o ChatGPT, que agora está cada vez mais falado, que é uma ferramenta da Inteligência Artificial. Também as ilustrações foram feitas com uma ferramenta da Inteligência Artificial chamada Midjourney, que, essencialmente, transforma textos em imagens.

A GUARDA: Folheando o livro, podemos dizer que é possível a tecnologia e a natureza existirem em harmonia?

Tiago Caldeira: Sim, e a parte interessante em todo o projecto foi dar a liberdade criativa ao autor, em conjunto connosco, ao ChatGPT. A única coisa que nós dissemos foi: nós queremos que escrevas um livro que nós vamos publicar e que seja uma boa maneira de explicar às crianças a importância da Inteligência Artificial, mas não falámos sequer da parte da natureza, quem decidiu ir nesse caminho, de o explorar, foi o próprio ChatGPT que achou que era um contexto interessante para ligar a tecnologia e a natureza como forma de explicar que da mesma maneira que há coisas na natureza que ainda não compreendemos, também há coisas na Inteligência Artificial não compreendemos, mas que no futuro a Inteligência Artificial ajuda a natureza a ser preservada.

A GUARDA: A Inteligência Artificial é um desafio ou um problema para a humanidade?

Tiago Caldeira: Eu acho mais que é uma oportunidade. Eu gosto de ver as coisas mais pelo lado optimista. Vai-nos permitir focar nas coisas realmente importantes. Vai ajudar-nos, poupar-nos algum esforço, de maneira a complementar aquilo que nós já temos enquanto humanos, a nossa criatividade. Agora podemos utilizar a inteligência artificial como um amigo, como um consultor, como um ajudante, como um editor, como um criativo e depois temos que ser nós a dar o retoque na direcção que queremos ir. Mas a ferramenta em si, como base, permite-nos fazer coisas muito interessantes, por isso eu achar que é uma oportunidade podermos lidar com a Inteligência Artificial.
A GUARDA: Não há o problema de ficarmos reféns da Inteligência Artificial?

Tiago Caldeira: Se formos por aí, nós já somos reféns dos telemóveis, já somos reféns dos computadores, já somos reféns de tudo isso. Mas se quisermos desligar o telemóvel podemos, se quisermos desligar a Inteligência Artificial ou não a usarmos podemos. Eu acho que nós somos reféns da tecnologia, no tempo actual, porque nos ajuda tanto, na medida que há cem anos atrás nós começámos a ser reféns dos automóveis. A evolução mostra-nos que não somos reféns porque somos nós que temos o controlo. E temos que aproveitar essa oportunidade de nos facilitar a vida, sendo os carros nos transportes, os computadores em muitas tarefas e a Inteligência Artificial em tantas outras coisas.
A GUARDA: Mas não há o perigo de perdermos o controlo da Inteligência Artificial?

Tiago Caldeira: Eu acho que o perigo existe. Existe sempre. Nós podemos abusar de qualquer tecnologia. E tudo aquilo que é usado para o bem, é usado para o mal. Se olharmos ao longo dos anos e fizermos comparações, quando se inventou a energia nuclear também houve a parte das bombas nucleares. Tudo aquilo que existe tem algo positivo e também algo negativo. A tecnologia, sendo Inteligência Artificial ou outras tem esses dois lados. Cabe-nos a nós educar s humanos com os valores correctos porque tendo os valores correctos usamos a tecnologia para o bem, principalmente. Porque vai sempre haver pessoas boas e más e vai haver sempre boas e más intenções. Acho que que é nessa direcção que temos de ir sabendo que é uma tecnologia, é uma ferramenta.

A GUARDA: É importante a existência de um regulador?

Tiago Caldeira: Já existem algumas coisas. Em Portugal ainda estamos um bocadinho atrasados nesse aspecto mas já existem algumas regras. Como sabem eu estou, neste momento, nos Emirados Árabes Unidos e já existem algumas regras para artigos e conteúdos virtuais, ou seja, leis de propriedade também se aplicam a coisa do metaverso e também existem protecções para algo criado com a Inteligência Artificial precisamente para recuar um pouco o mar aberto. Agora, vai existir, penso que o exemplo da Itália foi muito extremo em que baniram completamente o ChatGPT mas é o normal de um país que ficou com medo daquilo que poderia ser e, portanto, decidiram cortar o mal pela raiz. É interessante ir ao site da EMIND, onde temos uma entrevista nossa, entre um entrevistador virtual e o ChatGPT. Uma das coisa que o ChatGPT responde é precisamente que a Inteligência Artificial não está aqui nem para ajudar nem atrapalhar os humanos, é apenas um modelo que nos permite utilizar ideias para expandir o conhecimento. Penso que vai haver pessoas vão ser completamente a favor e outras completamente contra, mas nós, enquanto humanos vamos ficar no meio termo e criar uma boa regulamentação que permite o acesso à tecnologia livre mas com direitos e com deveres também.

A GUARDA: Este livro é o início de novos projectos ou é apenas uma experiência?

Tiago Caldeira: A EMIND é um projecto que criámos para dar voz a quem não a tem em termos literários. Hoje em dia é muito difícil escrever livros a menos que se queira publicar mil, dois mil ou três mil exemplares e para coisas específicas é às vezes difícil começar. A EMIND surgiu precisamente para transmitir algumas das estórias de pessoas espectaculares, e temos alguns exemplos, e convidamos os leitores a irem ao site e ver alguns livros, e isso foram oportunidades de criar textos de pessoas e torna-los um livro. Esse projecto, em si, da EMIND é para continuar. Estamos muito contentes com o impacto social e com essa experiência.
Em termos específicos da Inteligência Artificial, vamos lançar um workshop muito brevemente. Estarão disponíveis as indicações no facebook e no site da EMINDem que convidamos pessoas normais que queiram juntar-se a nós e fazer um workshop de criação com Inteligência Artificial. Vamos ter dez lugares disponíveis e o conceito é de dois fins-de-semana. As pessoas participam virtualmente, aprendem a colaborar com o ChatGPT a criar o livro e no fim iremos publicar esses dez livros. Pelo menos oferecemos uma cópia para cada um deles. Se as pessoas quiserem depois continuar a publicar e a promover os seus próprios livros também podem. Terá o mesmo conceito de ser escrito e ilustrado pela Inteligência Artificial.

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