“Cada aldeia deve ter um  museu rural pois isso é um  factor de atracção e de preservação  da memória colectiva”

Entrevista: Joaquim Morais, autor do estudo “João Antão – A terra e as suas gentes”
Joaquim Marques Morais é natural de João Antão, aldeia do concelho da Guarda, onde frequentou a Escola até à Quarta Classe. Estudou no Liceu Nacional da Guarda até ao terceiro ano. Aos dezoito anos de idade foi para Lisboa onde trabalhou, estudou e concluiu o curso de Engenheiro Agrónomo. Leccionou no ensino profissional agrícola. 
A GUARDA: No dia da Freguesia apresentou o estudo “João Antão – A Terra e as suas gentes”. Quais os objectivos deste estudo?  
 
Joaquim Morais: No essencial perpetuar a memória de como era a vida das pessoas, há algumas décadas atrás, em João Antão. Dar a conhecer de que é que as pessoas viviam. Sabemos que viviam da agricultura, mas não só da agricultura. Verdadeiramente, da agricultura só viviam os lavradores, aqueles que lavravam a terra com uma junta de vacas. Havia outras pessoas que iam para a vareja, para a zona da Ramela, da Benespera. Outras iam para a tosquia, para as ceifas… 
Este estudo dá uma imagem do que é que as pessoas viviam, do que subsistiam. João Antão, como todas as aldeias, tem as suas particularidades.
Posso dizer que até a roupa que vestiam era feita na própria aldeia, com o cultivo do linho, com a lã. Com o linho eram feitas as camisas, a roupa da cama, outras peças decorativas; com a lã eram feitas as calças, as camisolas. 
À medida que a roupa se ia deteriorando ainda eram feitas as tiras para as mantas de trapos. 
A aldeia era relativamente auto-suficiente, embora houvesse muita gente para os recursos de que dispunham. 
Os lavradores com mais meios tinham duas vacas e todas as famílias tinham dez, vinte ovelhas e cabras. As ovelhas eram para o queijo e as cabras eram para o leite. Os terrenos serviam para a agricultura e praticamente havia floresta. Alguns proprietários tinham um pinhal, que era uma espécie de mealheiro para a família. Era uma espécie de depósito bancário e que se gastava quando casavam os filhos. O pinhal era nas zonas em que o centeio já tinha pouca produtividade.
A alimentação era caldo, batatas e pão… 
 
A GUARDA: No estudo que fez quais os elementos que mais se destacavam em João Antão?
 
Joaquim Morais: Em João Antão havia muitos ferreiros e tosquiadores que também faziam trabalho noutros lugares. As pessoas tinham que sobreviver. Tinham uma gestão de recursos muito optimizada. Em João Antão havia a economia familiar. Habitualmente era o homem que recebia o dinheiro das vendas, normalmente da batata, do centeio e da castanha. 
Mas depois havia mais duas economias paralelas. A mulher não tinha acesso à carteira e aos dinheiros do marido mas tinha a sua própria economia, as galinhas, os coelhos. Tinha outro sistema de produção paralelo para o mercado. O homem não controlava essa economia, mas isso era essencial para manter o equilíbrio. 
Mas também, os rapazes não se atreviam a pedir dinheiro aos pais. A economia dos rapazes era o lenticão (excrescência nas espigas de cereais, em especial do centeio). Os rapazes sacrificavam as horas da sesta para irem ao lenticão que, na altura, tinha bom mercado. Dizia-se que era para medicamentos, mas penso que não…, era para outra coisa.
 
A GUARDA: Mas apontou os ferreiros e os tosquiadores como marca distintiva de João Antão. O que sucedeu a essas artes ou ofícios, desapareceram todos?
 
Joaquim Morais: Sim, desapareceram todos, pois foi inevitável devido ao progresso tecnológico e industrial. De facto uma enxada feita em João Antão era muito melhor mas depois não podia concorrer com a metalurgia. A partir do momento em que apareceu a metalúrgica, eles conseguiam vender uma enxada muito mais barato. Essas coisas são inevitáveis. Agora podem continuar por outra via, nomeadamente objectos decorativos, mas os ferreiros acabaram. Ainda me lembro do último. João Antão fornecia as enxadas não só aqui para o concelho da Guarda mas também para Belmonte.
Em Balsemão (anexa de João Antão) havia muitos ferreiros. As enxadas, os sachos, as foices, esse material era lá feito.
 
A GUARDA: Podemos dizer que o estudo é um incentivo para novos trabalhos sobre as tradições de João Antão?
 
Joaquim Morais: Sim. Parece-me que há momento em que penso que se eu não tivesse feito esta recolha, mesmo em João Antão já não conseguia encontrar algumas coisas, como, por exemplo, a roca e o fuso. Ainda consegui encontrar o espaldar, o ripanso, objectos ligados à cultura do linho. Também encontrei a francela, onde se fazia o queijo. Se deixasse passar mais algum tempo, se calhar, muitas coisas tinham desaparecido. Tenho pena de não ter feito este trabalho há dez anos que ficaria ainda mais enriquecido. Com o tempo desaparecem muitas coisas.
Considero que todas as aldeias deviam ter um museu rural que preservasse todas essas coisas. Aos mais jovens já não lhes passa pela ideia como é que era a vida em João Antão. E tudo isto tem de ser preservado. E foi para preservar todas as tradições antigas que decidi fazer esta recolha.  A GUARDA: Na sua opinião, as tradições antigas estão a desaparecer?
 
Joaquim Morais: Sim, porque tudo tem a ver com o confronto com a economia moderna. Por exemplo, se as pessoas fossem a fazer linho, da forma como o faziam antigamente, era incomportável. 
As coisas não podem ser fabricadas a um preço que depois ninguém as pode comprar. Não quer dizer que haja sempre alguma margem para pessoas que têm bom gosto e com poder de compra. 
 
A GUARDA: Para que as tradições não desapareçam das aldeias, defende a criação de Museus Rurais. João Antão tem objectos suficientes para um projecto dessa natureza?
 
Joaquim Morais: Sim, sim. Temos um artesão que nos pode ajudar a recriar algumas peças. Não consegui encontrar um carro de vacas para fotografar e este artesão fez um em miniatura. Isso é fantástico. 
Cada aldeia deve ter um museu rural pois isso é um factor de atracção e de preservação da memória colectiva.
Há outras coisas que se podem agregar a esse espaço. Por exemplo, como era feita a ceifa, como era feita a malha. Era interessante as pessoas puderem participar na ceifa, na malha ou mesmo ver como se fazia o vinho nos lagares romanos, ou lagaretas.
 
A GUARDA: Como olha para as tradições das aldeias?
 
Joaquim Morais: Cada aldeia tem as suas particularidades. Por exemplo, a Encomendação das Almas é feita de forma diferente de aldeia para aldeia. Em João Antão eram os jovens que se encontravam e cantavam. Noutras terras já não era assim. Normalmente o canto era diferente de aldeia para aldeia. Antigamente os contactos entre as populações eram restritos.
As cantigas das ceifas, ao contrário são mais comuns em muitas terras. As pessoas iam para as ceifas, para o Alentejo, pois era onde havia mais predomínio do trigo e dos cereais. Não é de excluir essa possibilidade de que muitas dessas cantigas tenham começado no Alentejo. 
O trabalho das ceifas é um trabalho muito duro, tem de ser feito no Verão, com muito calor. Como exige muita força física, as canções tinham a função de suavizar o trabalho. É a música e também o álcool. Nos trabalhos mais duros até as mulheres bebiam. 
Muita da vida social está muito centrada na mútua ajuda. As pessoas encontravam-se nas ceifas, na tira das batatas…
 A alimentação era relativamente pobre, a não ser nos dias excepcionais, como o Natal, o Carnaval, a Páscoa. 
 
A GUARDA: Olhando para a recolha que fez, podemos dizer que João Antão já foi uma terra cheia de vida?
 
Joaquim Morais: Exactamente. Era normal uma família ter quatro ou mais filhos. Havia muitos jovens. Havia sempre algum que tinha um realejo. Os bailaricos surgiam sempre quando eles se encontravam. Era uma vida extraordinária.
A emigração veio complicar isso, veio complicar entre aspas, pois criou condições para que as pessoas tivessem melhor vida. 
Até aos anos trinta, do século passado, houve uma grande emigração para o Brasil. Depois houve uma nova vaga, nos anos sessenta. Após a segunda Guerra Mundial, a Europa ficou toda destruída, nomeadamente a França que estava num rápido crescimento económico. Isso levou a que muitos jovens emigrassem. 
Como nas nossas aldeias os recursos eram muito escassos, a grande maioria dos jovens acabou por ir embora. 
 
A GUARDA: Como vê o futuro de João Antão?
 
Joaquim Morais: Vejo o futuro com pessimismo, mas há sempre saídas. As autoridades têm de adoptar medidas que ajudem a fixar as pessoas.
Tem de se resolver o problema dos incêndios. Não é fácil mas tudo tem solução.
É preciso criar economia em torno desta realidade que existia antigamente e que as pessoas gostam de ver, nomeadamente o pão e o vinho. 
A GUARDA: Ou seja, fazer a recriação de algumas actividades de outros tempos?
 
Joaquim Morais: Exactamente. As pessoas gostam de ver e participar nessas iniciativas. Gostam de cozer o pão, fazer o vinho, ver os moinhos a moer. 
Era importante mostrar como eram as ceifas e as malhas. As aldeias têm muitas potencialidades que têm de ser bem aproveitadas. 
A GUARDA: A recolha que fez é o seu contributo para que a tradição de João Antão não se perca?
 
Joaquim Morais: Sim, é o meu contributo e um alerta para a forma como as autoridades olham para as nossas aldeias. É preciso criar condições. 
O turismo é a primeira indústria mundial. As nossas aldeias têm muitas potencialidades que se forem bem aproveitadas também podem atrair muitos turistas.

 

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