“Apesar de convicto na minha decisão, houve algum tempo em que ela permaneceu em segredo com Deus”

Entrevista: Gonçalo Dinis Ferreira Carvalho – Seminarista da Diocese da Guarda

Gonçalo Dinis Ferreira Carvalho é natural de Paços da Serra, concelho de Gouveia, e entrou este ano para o Seminário.
Frequentou o Centro de Assistência Cultura e Recreio de Paços da Serra/ Escola Básica de Paços da Serra / Escola Secundária de Gouveia
Nos tempos livres gosta de pintar, nomeadamente arte sacra, tocar clariente na Sociedade Instrução e Recreio de Paços da Serra.

A GUARDA: Quando decidiste entrar para o seminário?

Gonçalo Carvalho: Ser padre, a questão que sempre esteve presente ao longo da minha vida, quase que me arriscaria a dizer, desde nascença. Apesar de convicto na minha decisão, houve algum tempo em que ela permaneceu em segredo com Deus. Tentei até, por vezes, procurar outras soluções futuras para a minha resolução de vida profissional entre as quais se contam a profissão de santeiro, restauração de arte sacra, a fim de trabalhar e estudar num ramo que me fascina: as imagens sacras, também a psicologia se mostrava como um possível caminho a seguir. Mas nada disto seria o sentido que procurava a nível espiritual: uma maior proximidade com Jesus e através de Maria sabe-Lo amar, para um dia me entregar por completo, servi-Lo na minha simplicidade. Não posso nomear uma data em específico visto que foi algo “genuínamente genuíno”. Apenas fazer referência a quem me ajudou e se mostrou presente neste início de caminhada e se mostrou incansável, o pároco Rafael Neves, pároco José Brito, o senhor Reitor do seminário da Guarda, Padre Paulo Figueiró, ao Tiago Gonçalves, o meu companheiro de jornada e à irmã que Deus me ofertou, Nádia Correia e restantes amigos e familiares que tanto estimo.

A GUARDA: Houve algum motivo especial para fazeres esta opção?

Gonçalo Carvalho: A forma como a Igreja se faz próxima das pessoas é algo fascinante. A beleza de uma religião que abarca todos na sua barca, por vezes atribulada, mas que segue conjuntamente em caminho sinodal. Sim! “Para todos, todos, todos!” Quando do alto da Cruz, Jesus suspenso entrega à Humanidade na pessoa de João a sua Mãe, incluiu a todos. “Temos Mãe!” é a minha certeza firme. A beleza de uma religião que faz perpétuar em cada altar do mundo aquela citação dolorosa, tornado mais presente e mais atual que nunca o Sacrificio, o Calvário, a Entrega. Somos missionários de Cristo, partamos apressadamente em missão a anunciar o Senhor da Messe! O convite que Cristo nos deixa é algo verdadeiramente belo.

A GUARDA: Como foi a reacção dos teus colegas de turma quando souberam que querias entrar no Seminário?

Gonçalo Carvalho: Todos sabemos que vivemos numa fase conturbada onde a Igreja é alvo de injúrias, ofensas e perseguição. E derivado disso, os jovens têm tomado uma postura contundente semelhante à exposta. Na tentativa de levar o verdadeiro significado de ser cristão, iniciei após já ter pensado bastante na minha decisão de vir a frequentar o Seminário, “a levar Cristo à escola”. Como Cristo não cabe numa mochila, pedi ao Espírito Santo a sabedoria e foi quando em apresentações orais comecei a falar acerca dos 7 sacramentos, de Maria e claro de Jesus. Expus a minha intenção de segui-Lo e para minha surpresa, senti-me acolhido. Inclusive, possuo uma imagem lindíssima do Imaculado coração de Maria ofertada por alguns colegas da minha antiga turma. Para não falar das numerosas ofertas de objetos religiosos por parte dos meus amigos. A semente ficou lançada, vamos ver se dará fruto.

A GUARDA: E a tua família como reagiu?

Gonçalo Carvalho: A família é sem dúvida um pilar fundamental de qualquer ser humano. É onde apredemos a ser. A minha opção pode não ter sido entendida, por agora, por parte de alguns membros da minha família. Contudo quero visar que apesar de ser uma opção nos dias de hoje particularmente invulgar o apoio do cerne familiar constitui também motivo e ânimo para enfrentar os desafios impostos pela vida de um seminarista. Portanto, tu que podes estar a ler esta entrevista neste momento e estás com dúvidas, vem e vê! Não temas! A compreensão e validação familiar nem sempre são fáceis de obter, porém Cristo é o teu apoio! É importante realçar que apesar de experimentarem alguma incompreensão, os meus pais, Helena e José, assim como o meu irmão Miguel, sempre fizeram tudo para que eu tivesse uma boa formação e essencialmente me vissem genuínamente feliz! A eles o meu coração!

A GUARDA: Já estás no seminário Interdiocesano há alguns dias. Qual a tua primeira impressão sobre a rotina no seminário?

Gonçalo Carvalho: O modo rotineiro característico de uma casa onde a comunidade é o elo de cooperação é normalmente desafiante. Traduz a mudança dos nossos hábitos quotidianos caseiros, onde tudo é efetuado mais livremente. Contudo a regra é essencial para uma boa educação e formação do corpo e da alma, e por isso encaro estas “obrigações” como alicerces de uma construção maior.
É sem dúvida um factor que contribui para um bom funcionamento de uma casa comum da qual é exemplo o seminário.

A GUARDA: Quais as tuas expectativas em relação a este novo desafio que agora estás a começar?

Gonçalo Carvalho: Através de algumas formações de carácter académico, humano e espiritual, às quais já tivemos acesso, encaro este desafio com novos olhos, aprendendo a valorizar cada uma das áreas em estudo. Logo no ínicio caí no erro de desprezar porventura algumas áreas académicas, não as considerando relevantes para a minha formação, contudo tudo tem o seu devido lugar no conjunto das competências a adquirir. Relativamente ao novo grupo de seminaristas que comigo embarca nesta nova aventura e àqueles que já frequentam o seminário há mais tempo, não esquecendo a equipa formadora e funcionárias, agradecer o carinho, dedicação pelo bom acolhimento prestado. Isto é viver em comunidade! Uns para os outros no Amor fraterno de Cristo!

A GUARDA: Questão relativa às Jornadas Mundiais da Juventude.

Gonçalo Carvalho: Tudo naquele ambiente era cativante. Mais que nunca a Igreja perseguida mostrou-se unida e ergueu a chama acesa da juventude que muitos julgavam apagada. Além das relações humanas, altamente construtivas e enriquecedoras culturalmente, queria enaltecer o simples gesto da troca de brindes entre os peregrinos. Um gesto simbólico carregado da presença de Cristo no gesto da partilha. Um dos pontos altos da peregrinação foi, sem dúvida, quando tive a oportunidade de juntamente com os bispos, os sacerdotes, os diáconos, os consagrados, as consagradas, os seminaristas e os agentes da pastoral marcar presença na oração de vésperas no Mosteiro dos Jerónimos com o Santo Padre. Foi uma das três vezes em que tive mais pertinho do Papa em que, numa delas, na esperança que olhasse para mim a fim de abençoar os objetos religiosos que tinha na mão e pudesse ter um contacto visual com uma pessoa tão especial como o Papa Francisco. Assim o fez, ainda que em contínuo andamento no papamóvel.

A GUARDA: Na tua opinião o que é necessário para aproximar os jovens da Igreja?

Gonçalo Carvalho: A aposta de novas formas de fazer Cristo presente entre os jovens é essencial! Sabemos que a juventude é caracterizada por inúmeros conflitos internos e incompreensões relativamente a tudo, ao próprio crescimento, à sua religião. A Igreja não tem de verificar a sua doutrina a fim de satisfazer o mundo, pelo contrário, o zelo pela mesma torna-a única em todo o globo e é focados nessa unicidade que continuaremos em caminho juntos sinodalmente, aberto a todos, as suas sugestões e partilhas! O convite é claro! A Igreja também é jovem, vem tomar parte da sua juvialidade!

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