“A ideia de se avançar com um monumento desta natureza a Francisco de Pina não partiu de mim nem, muito menos, de qualquer instituição da Guarda”

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Jornal A Guarda

Entrevista: António Salvado Morgado – Professor e investigador da vida e obra de Francisco de Pina

António Salvado Morgado, Professor e investigador da vida e obra de Francisco de Pina, é natural do Marmeleiro (Quinta de Gonçalo Martins). Professor de Filosofia dedicou a vida ao ensino. Foi director-executivo da Escola Secundária Afonso de Albuquerque.
Tem milhares de páginas manuscritas sobre a vida e obra do Padre Francisco de Pina.
Nos tempos livres gosta de ler e investigar.
A GUARDA: A cidade da Guarda inaugurou um monumento a Francisco de Pina. Como surgiu a ideia de avançar com este monumento?

António Morgado: A história já vem de longe. Comecei a pesquisar a vida de Francisco de Pina em 2006 a pensar em 2008, ano em que se completavam 400 anos da sua ida para o Oriente na chamada Carreira da Índia que, à altura, todos os anos partia de Lisboa por altura do início da Primavera. Em 2012 visitei o Vietname para pisar aquela terra que Francisco de Pina pisou, tomar banho nas águas em que ele naufragou e contactar directamente com a cultura daquele país do Extremo Oriente.
Depois fui participando, em Lisboa, em jornadas sobre os portugueses e os jesuítas no Vietname, em que apresentei comunicações. Foi nessas jornadas que encontrei os vietnamitas com os quais tive ocasião de falar directamente sobre Francisco de Pina. E seguiram-se alguns encontros ao longo do tempo enquanto se iam alicerçando algumas ideias.
À medida que as minhas investigações avançavam, mais se alicerçava a necessidade de se realizar na Guarda qualquer evento que lembrasse este homem que levou tão longe o nome da cidade. Nos artigos que ia publicando, quer nos de maior dimensão como aqueles que publiquei na “Praça Velha”, Revista Cultural da Guarda, quer noutros mais simples publicados neste semanário, ia deixando recados aos responsáveis institucionais. Os recados iam caindo em saco roto, mesmo quando acompanhados de encontros pessoais com responsáveis pela cultura. Só o Bispo diocesano, D. Manuel Felício, correspondeu e chegou a convidar os representantes pela política cultural da Câmara para uma reunião na casa episcopal. Já lá irão 5 ou mais anos. O encontro realizou-se, mas os elementos camarários presentes não se mostraram muito interessados em promover actividades da sua iniciativa, embora oferecendo os espaços municipais para qualquer iniciativa que a Diocese da Guarda viesse a promover. Mas nada se avançou. Um dos artigos publicados na “Praça Velha” terminava, e cito de cor, com esta pergunta: «Será demais pedir o nome de Francisco de Pina a uma rua da cidade?» Nem uma pergunta tão directa obteve qualquer eco.
Eis senão quando são os vietnamitas que começam a movimentar-se. Contactam comigo e fui servindo de intermediário nos contactos institucionais com a câmara. Embora o presidente do executivo anterior se tenha mostrado entusiasmado, foi já nos tempos deste executivo que se realizou a primeira videoconferência na base da qual se assinou o protocolo.
Portanto, importa dizer, muito claramente, que, embora desde o início o Sr. Presidente do actual executivo, Sérgio Costa, tenha aderido de imediato ao projecto, a ideia de se avançar com um monumento desta natureza a Francisco de Pina não partiu de mim nem, muito menos, de qualquer instituição da Guarda. A ideia é inteiramente dos vietnamitas que pretendem com ele evidenciar, na cidade onde Francisco de Pina nasceu em 1586, o seu reconhecimento para com este jesuíta, missionário e linguista. Como missionário, ele está na raiz da Igreja do Vietname e, como linguista, foi pioneiro na romanização – ou lusitanização como defendem alguns – da escrita vietnamita tal como a conhecemos hoje. A escrita vietnamita que Pina foi encontrar utilizava caracteres de tipo chinês. Estamos, como facilmente se pode imaginar, perante um trabalho de excelência e de mestre que dificilmente poderemos compreender bem, nós arredados que andamos daqueles sistemas linguísticos. A habilidade consistiu em utilizar as letras do nosso alfabeto e “enfeitar” cada letra, vogal ou consoante, com sinais diacríticos colocados nas mais diversas posições que nós somos tentados a chamar acentos, mas que verdadeiramente não são acentos. Expressam antes as tonalidades da língua. «Esta língua é musical – escreve Francisco de Pina – e só quem sabe música é que a pode aprender bem.» Encontrei graça que, quando se estava a instalar o monumento e dois vietnamitas começaram a falar intensamente entre si (um deles só falava vietnamita), um funcionário camarário exclamava: «Mas eles falam a cantar?».

A GUARDA: Quem é o autor do projecto e onde foi feito?

António Morgado: Volto a repetir que a ideia de um monumento assim foi dos vietnamitas. Nos primeiros contactos eu não imaginava que o monumento tivesse a dimensão que veio a ter. Falavam de uma estela e eu imaginava um marco relativamente baixo com as inscrições explicativas. As dimensões e a concepção do monumento excedeu as minhas expectativas e julgo que as expectativas da Câmara Municipal.
Se bem entendi as explicações que nos foram sendo dadas, o projecto resultou de um trabalho de equipa superiormente orientada pelo Professor Nguyen Dang Hung e executada na empresa familiar de Nguyen Huy Anh. Portanto, a obra foi realizada no Vietname com o bronze da cidade de Phuoc Kieu (antiga Cacham), no centro do actual Vietname, onde Francisco de Pina fundou uma espécie de escola de língua, com o apoio de jovens locais e o superior patrocínio do «Príncipe», filho «Rei? que tinha a sua corte numa cidade a norte, no sítio da cidade actual de Hué. Ali, em Cacham, possuía uma corte o «Príncipe», ele que nutria pelo jesuíta da Guarda uma especial admiração pela perfeição com que falava a língua local e a sua disponibilidade para servir de intérprete, com particular relevo nas embaixadas dos portugueses provenientes de Macau. E foi esta função que lhe trouxe a morte. Morreu no mar ao serviço de portugueses e ao serviço da missão e do «Príncipe».

A GUARDA: O que representa o monumento/escultura?

António Morgado: Tudo nele é simbólico, desde a origem do bronze, Phuoc Kieu, a Cacham muito admirada por Francisco de Pina, onde, graças aos seus esforços fora criada nova residência da Missão da Cochinchina (centro do actual Vietname) onde ele era superior e professor de outros jesuítas quando se verificou o naufrágio em que faleceu. Razão pela qual os vietnamitas a consideram terra natal da escrita vietnamita.
Se é significativa a origem do bronze, simbólico é aquele barco à vela. Ele representa a nau que levou este homem da Guarda para o Oriente distante. Ele representa também as várias viagens, de Francisco de Pina naquelas paragens: de Goa para Macau, de Macau para Malaca, de Malaca para a Cochinchina. Ele representa, dramaticamente embora, o pequeno barco naufragado e em que tragicamente morreu a 15 de Dezembro de 1625. Mas agora há um barco implantado nesta montanha da serra, que é a Guarda, trazendo, redivivo, o P. Francisco de Pina.
A maior força simbólica estará, talvez, nos elementos decorativos porque é um barco de bronze vietnamita que fala três línguas. Na parte central da vela maior, à direita, este pequeno texto, em português, vietnamita e inglês: «Esta estela, trazida de Quang Nam, Vietname, é símbolo do nosso reconhecimento para com o Padre Francisco de Pina (Guarda, 1586 – Hoi An, Vietname, 1625), inventor pioneiro do “Chû Quôc Ngû” (escrita vietnamita em alfabeto latino).»
É um barco de bronze vietnamita emoldurado com o alfabeto latino trazido por um passarinho de nome Chim Lac com uma espiga de arroz no bico e com as pautas musicais imaginadas por Francisco de Pina como elemento didáctico para melhor se aprenderem os seis tons daquela língua tonal. E, na base, o velho tambor Dong Son, símbolo da antiga civilização do Dai Viet, de onde sobressai um círculo de passarinhos Chim Lac.
Vale a pena observar atentamente este monumento e interiorizar toda a simbologia que traduz. Sem dúvida, o relvado do espaço da Biblioteca Municipal da Guarda ganhou mais esplendor com este monumento.

A GUARDA: Há alguma razão especial para o monumento ter sido instalado junto da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço?

António Morgado: Embora se tenha pensado também na relação entre um linguista e a uma biblioteca, o local não é aquele que inicialmente havia proposto. Considerando que na Catedral da Guarda se encontram sepultados tantos elementos da família Pina e que se tratava de um sacerdote, julgava que o espaço relvado entre a Sé e a Escola de Santa Clara seria o local ideal. Foi-me dito que era de todo impossível porque esse local fazia parte da área de protecção da Catedral. Não sei se o problema foi apresentado a consideração superior. Seja como for, outras hipóteses foram consideradas – não interessa quais – mas esta pareceu a melhor. E, verdade seja dita, os vietnamitas ficaram encantados com a localização e ali a instalaram, com a colaboração de funcionários camarários. A sua alegria no trabalho era contagiante.

A GUARDA: Muitos dos nossos leitores poderão perguntar quem é Francisco de Pina. De forma sucinta pode explicar-nos quem foi este homem e qual o seu legado?

António Morgado: Já se foi dizendo nas respostas anteriores, mas vamos a alguns complementos breves. Nasceu na Guarda em 1586, certamente ligado aos Pinas que então era uma das famílias de maior relevo na cidade, conforme o indicia a quantidade de túmulos existentes na Catedral, incluindo duas capelas.
Encontrava-se a estudar em Coimbra quando entrou para o noviciado dos jesuítas nessa cidade e passados três anos, com 21 anos, embarca para o Extremo Oriente. Foram quase dois anos para Francisco de Pina poder chegar a Macau onde, no famoso Colégio de São Paulo, iria continuar os estudos conducentes ao sacerdócio. Ordenado sacerdote em 1616 é logo destinado à Missão da Cochinchina que havia sido criada no ano anterior, em 1615. E aí passou nove anos seguidos de intensa actividade só interrompida, por uma ida breve a Macau, por questões de saúde e para angariar mais gente para a missão.

A GUARDA: Então esta homenagem é mais do que merecida?

António Morgado: Certamente. A prova está no facto de a iniciativa partir dos vietnamitas e presentearem a Guarda com este monumento que expressa em três línguas, português, inglês e vietnamita, o reconhecimento daquela gente para com Francisco de Pina, graças ao qual a cidade da Guarda é conhecida naquele país do Extremo Oriente, situado ao Sul da China. A prová-lo está o facto de cerca de duas dúzias de vietnamitas, jornalistas, historiadores, poetas e escritores, se deslocarem à Guarda para participarem nesta inauguração que prepararam com entusiasmo de festa do seu país. Aliás, para o serão do dia 26, programaram uma festa vietnamita no hotel onde ficaram hospedados. E ficam muito admirados quando se lhes diz que Francisco de Pina não é conhecido na cidade.

A GUARDA: Que outras iniciativas estão a ser desenvolvidas para dar a conhece este ilustre filho da Guarda?

António Morgado: Ocorrem-me três iniciativas provenientes de fontes diversas.
A empresa “Clara Amarela Films” possui já em fase bastante adiantada a realização de um documentário sobre Francisco de Pina para a RTP2. Aliás, para o mesmo efeito, aquela empresa, esteve na Guarda a realizar filmagens da inauguração do monumento que pretende integrar no documentário.
Sei que a mesma equipa que promoveu a inauguração do monumento na Guarda está interessada em saber se algum dos túmulos recentemente descobertos em Cacham é o de Francisco de Pina e vai olhando para a hipótese de o ADN poder dar a resposta.
Já se fala que a Guarda se deveria geminar com uma das cidades mais significativas para a vida de Francisco de Pina.
Em mente está a publicação de uma biografia de Francisco de Pina em 2025, ano do quarto centenário da sua morte. Veremos se o tempo não me vai escassear.

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