A Confraria da Castanha Serra da Estrela “tem como objectivo principal a valorização da Castanha Portuguesa”

Entrevista: António Quinaz – Mordomo Almoxarife e Relações Públicas da Confraria da Castanha Serra da Estrela 

António Quinaz, Mordomo Almoxarife e Relações Públicas da Confraria da Castanha Serra da Estrela, é natural da Guarda.
Estudou nas Escolas Primárias da Cerdeira do Côa e Adães Bermudes na Guarda, Ciclo Preparatório General João de Almeida, Escola Secundária Afonso de Albuquerque, Faculdade de Ciência de Lisboa, Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, Universidade Católica Portuguesa.
Gosta de ler, ver filmes, fazer fotografia, ajudar quem precisa, mas sobretudo conviver com a família e amigos.

A GUARDA: O que é a Confraria da Castanha Serra da Estrela e como apareceu? 

António Quinaz: A Confraria da Castanha Serra da Estrela é uma Associação de direito privado, sem fins lucrativos. Nasceu formalmente em 2019 em Celorico da Beira. Tem como objectivo principal a valorização da Castanha Portuguesa, participando em redes colaborativas e científicas ligadas produção, promoção, transformação e comercialização da castanha.
Para facilitar a concretização do seu objectivo principal, a Confraria presta-se a desenvolver outras actividades como sejam a organização de Feiras, Seminários, Conferências e Concursos, a garantir presença em iniciativas de promoção turística, de animação cultural, visitas de estudo e fomentando a criação de laços sinérgicos com associações do mesmo tipo (Confrarias nacionais e internacionais), entre muitas outras.
 
A GUARDA: Qual a área de abrangência desta Confraria? 

António Quinaz: A área social de intervenção é toda a Região “alargada” da Beira Serra.
Contudo nos objectivos está o estabelecimento de laços de colaboração sobretudo com outras Confrarias, mas em particular com as que têm idênticos objectivos como por exemplo a Confraria da Castanha Soutos da Lapa (com sede em Sernancelhe) e a Confraria Ibérica da Castanha (com sede em Bragança), alargando assim a extensão geográfica confrádica onde a castanha é um recurso produtivo importante.
Ao sermos apoiantes da recentemente publicitada iniciativa de alargamento da Região DOP (Denominação de Origem protegida) dos Soutos da Lapa aos Concelhos de Celorico da Beira, Guarda e Sabugal, estamos a auxiliar a ampliação das áreas de reconhecida importância em Portugal para a produção de Castanha, dando-lhe um particular valor acrescentado, potenciador de ganhos para os produtores, e no fundo também para a comunidade em geral.
É de toda a justiça reconhecer o excelente trabalho de preservação da cultura do castanheiro que o Município do Sabugal insiste em desenvolver na Colónia Agrícola Martim Rei.

A GUARDA: Quem é que pode fazer parte desta Confraria? 

António Quinaz: Qualquer pessoa pode aderir desde que seja convenientemente apadrinhada e concorde com os objectivos da Confraria, com os deveres e os direitos de ser associado.
Saber de soutos e castanhas não é pré-requisito necessário a ser-se associado. Contudo é objectivo que ao longo do tempo se venham a ganhar competência que permitam, com (cada vez mais) critério saber ouvir e entender, saber falar e conversar, sobre o tema.
Sentir-se motivado pelo contributo positivo que o aprofundar do tema pode ter na comunidade dá á adesão uma importância social acrescentada.
A Confraria tem neste momento 44 associados de entre os quais 15 são Senhoras. A distribuição geográfica dos associados por residência vai de norte a sul do Pais, contando também com a adesão de cidadãos estrangeiros, apaixonados pela natureza em geral mas também pela beleza natural da nossa região em particular que pretendem ajudar a preservar.
Os custos de se ser sócio são de apenas “20 Castanhas” de jóia e “12 Castanhas” por ano diria que valores acessíveis a todos os que a nós se queiram associar. Para tal basta que nos manifestem essa vontade, por exemplo, através de um sócio ou do mail confrariadacastanhase@ gmail.com.
Pode também visitar-nos no facebook.

 A GUARDA: Já há data marcada para a entronização da Confraria? 

António Quinaz: As implicações da COVID-19 levaram a que uma grande parte das actividades planeadas para 2020 tivessem de transitar para 2022. Tanto tempo de inactividade objectiva e até porque já estão a ser produzidos os primeiros trajes e idealizadas as insígnias, inicialmente pensou-se que o feriado de 10 de Junho seria uma boa data para a realização dessa cerimónia. Contudo, tendo em conta que a castanha é um produto de outono, que a festa que lhe queremos associar terá obrigatoriamente um Magusto, decidiu-se alterar a data para 11 de Novembro de 2023, a propósito da realização da 2ª edição dos “ Encontros Artes & Letras nas Terras Altas”, programada para Celorico da Beira.
 
A GUARDA: O que distingue a castanha da Serra da Estrela da castanha de outras regiões?  

António Quinaz: Portugal é um País tão pequeno que procurarmos diferenças distintivas, num contexto de produção com algum significado, pode não fazer sentido. Dizer-se que a nossa região é adaptada às variedades Longal, Martaínha, Rebordã ou Judia, pode advir de uma análise empírica que se tornou ao longo do tempo referência comum, mas que as doenças que afectam actualmente o castanheiro, a qualidade dos solos ou as alterações climáticas podem por em causa. A proliferação doenças como a tinta, o cancro e a galha, parecem recomendar a que não se dê como garantido muito do que se sabia sobre o castanheiro.
A adopção de porta enxertos resistentes a algumas dessas doenças e a sua capacidade em garantir enxertias bem-sucedidas com as diversas variedades tradicionais portuguesas, a identificação de altitudes para os terrenos plantáveis, a sua orientação, o tipo de solos, a fertilização e a rega, parecem ser os factores críticos de sucesso à manutenção deste tipo de cultura.
Dai acharmos que neste momento é fundamental o estudo e o apoio científico ao aconselhamento dos empresários agrícolas, para que a produção de castanha possa continuar a ser uma importante fonte de rendimento. E quase tão importante como chegar-se à conclusão que um projecto tem potencial para poder ser uma boa fonte de rendimento, é desencorajar-se, com critério, potenciais produtores a fazerem investimentos em plantações com espécies e em locais desadequados e por isso com elevado risco de insucesso.
A Confraria pode desempenhar um papel importante no estabelecimento de relações próximas e regulares entre a academia (UTAD, IPV, IPG, IPCB …), instituições públicas de apoio à agricultura (DGAP´s, CAP, …) e produtores.
Com a indústria alimentar e transformadora também queremos ter uma relação próxima, por entendermos que desempenham um papel importantíssimo, não só para o nosso País mas sobretudo para a nossa região, ao permitirem dar valor acrescentado à castanha como produto base.

A GUARDA: Nos últimos anos têm desaparecido muitos soutos centenários. O que é que tem provocado esta situação e como pode ser alterada? 

António Quinaz: Como referi, há novas doenças a afectar o castanheiro e a castanha, o clima mudou, a lavoura praticada nos campos pode estar a ser demasiado intrusiva, os solos podem não ser os mais adequados ou necessitarem de corrigir o PH ou de serem enriquecidos em determinados micronutrientes, não esquecendo a importância da rega.
No clima a natureza manda, mas os produtores podem melhorar os seus conhecimentos nas formas mais adequadas de lavoura, na regularização da acidez dos solos e nas necessidade em nutrientes, podem também aconselhar-se sobre a existência e importância dos porta enxertos resistentes às doenças e as variedades de enxertos que podem suportar com forte probabilidade de virem a ser bem-sucedidas, identificar as necessidades de rega e regar pois isso pode aumentar a produção até 35%, plantar a altitudes e em solos adequados. O IPG, por exemplo, disponibiliza serviço onde podem ser requeridos ensaios à qualidade dos solos.

A GUARDA: Por outro lado também têm aparecido novos soutos. É importante esta regeneração? 

António Quinaz: Sim é importante se a implementação resultar de uma prévia avaliação, ou melhor talvez, de uma reavaliação das condições de sustentabilidade desse empreendimento para reduzir o risco de insucesso.
E já agora, uma recomendação importante é que os novos soutos sejam convenientemente cadastrados, se possível árvore a árvore, para que mais tarde as enxertias tenham maior probabilidade de serem bem-sucedidas.

A GUARDA: Qual o plano de actividades que a Confraria tem delineado para este ano? 

António Quinaz: Com a estreita colaboração do ICNF e do Município de Manteigas, a Confraria realizou já este ano a plantação de Castanheiros, num lote baldio que nos foi atribuído, numa encosta virada a norte junto do Covão da Ponte. Assumimos o compromisso de regularmente regarmos essas árvores, acompanharmos o seu desenvolvimento e depois enxertarmos. E até já temos definido o local de plantação para o próximo ano.
Temos programada uma acção de formação em “Enxertia” de castanheiros, em Prados – Celorico da Beira, para o próximo dia 1 de Maio.
No dia 24 de Junho, após a actividade de rega dos Castanheiros plantados no Covão da Ponte, teremos uma jornada de convívio.
No fim-de-semana de 11 e 12 de Novembro está programada a entronização, o passeio da “Apanha da Castanha” e o “Magusto Poético” no Castelo de Celorico da Beira associado 2ª edição dos “ Encontros Artes & Letras nas Terras Altas”.
Em Dezembro, no fim-de-semana de 16 e 17, no NERGA, temos programado o Festival de festins “FESTfest”que integrará algumas refeições temáticas, um Mercadinho de “Cabazes para o Natal” à base de produtos regionais condimentando um Congresso de Reflexão sobre “Que Futuro para o Interior?”.
Estamos negociar o estabelecimento protocolos de colaboração com diversas instituições quer de natureza científica e técnica, quer de natureza administrativa, quer ainda de natureza empresarial.

A GUARDA: A vertente cultural é uma das apostas Confraria. Podemos dizer que a castanha da Serra da Estrela também é um elo de ligação entre povos? 

António Quinaz: A Cultura faz parte da natureza de um povo, logo esta vertente estará presente qualquer que seja a actividade em que Confraria se envolva.
Sendo a castanha um produto que, para além da sua utilização habitual ganha valor quando combinado com outros, sendo hoje em dia típico da prática gastronómica as tentativas de descoberta de combinações e fusões harmoniosas entre produtos de tipos e origens variadas, posso dizer que sim, que se conseguir levar consigo o seu titulo de origem, a “Castanha portuguesa” tem um enorme potencial para ajudar a “ligar” os povos.

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