Variações

Ludovina Fernandes

Recentemente, na oferta cultural da cidade, o programa “Guarda-Livros: Salão do Livro da Guarda” proporcionou-nos o encontro, entre muitos outros convidados, com Martim Sousa Tavares. Na apresentação da sua obra intitulada “Falar piano e tocar francês” deixou o mote para a importância do “despertar” a curiosidade perante todos os encantos, que no dia a dia nos envolvem e para que, através desse “despertar”, estejamos abertos ao belo com todas as suas riquezas. Destacou igualmente, que este “estar desperto” pode não partir unicamente da curiosidade intrínseca, mas igualmente de uma curiosidade adquirida ou estimulada. O que hoje vos trago é precisamente uma partilha de curiosidades que fui adquirindo, tenham elas sido adquiridas por impulso ou estimuladas. Mantenho a esperança, com o embalo do pensamento do jovem Martim, que o belo que todos os dias vos envolve seja o antídoto perfeito na revigoração das vossas vidas.

As “Variações” de hoje prendem-se com um período da história ocidental de grande promoção artística, falo do Barroco, onde o pensamento da época inspirava “A interpretar uma ária em italiano e a bailar em francês, direito ou torto!”.

Quer tenha sido pelo desafogo financeiro ou por uma tutela mais sensível e cuidada, a verdade é que o nosso país é, há semelhança de muitos outros, um registo da forte herança deste pensamento glorioso, eterno e exuberante que tão bem define o Barroco. D. João IV pela sua sensibilidade e conhecimento musical, deixou-nos um dos espólios musicais mais majestosos da Europa no século XVII, que lamentavelmente desapareceu com o terramoto de 1755. No entanto, acredito que o gosto pelas artes no geral, que orgulhosamente D. João IV tanto fomentou, tenha sido o maior legado que o seu neto D. João V recebeu, tendo sido um dos maiores promotores das manifestações culturais e artísticas do nosso país desta época da história.

No âmbito da criação artística musical, como não podia ser de outra forma, pela forte aliança e subjugação ao poder papal, Portugal tem em relação ao reinado de Roma uma grande doutrinação e dependência. Daí que grande parte dos compositores nacionais tenham como base de formação a escola de Roma, que promoveu tanto a formação de músicos e compositores nacionais como trouxe outros compositores estrangeiros, principalmente italianos, para o nosso reino. O percurso que estes compositores, fossem eles nacionais ou estrangeiros fizeram, tinha em comum uma trajetória e carreira musical nas escolas patriarcais espalhadas pelo país, onde se inclui igualmente a Sé da Guarda, como um dos repositórios de referência. Estas escolas são o berço de uma tradição musical comum à corte e igreja portuguesas. Como alguns saberão – esta informação já nos foi apresentada pela pessoa do P.e José Joaquim Geada –, a figura do compositor João José Baldi, que tantas composições nos deixou, foi um desses mestres da composição nacional. Outro apanhado que nos surpreende sobre esta dúvida de talento ou de disciplina musical nacionalista envolve Domenico Scarlatti, compositor italiano filho de Alessandro Scarlatti, e Carlos Seixas, compositor português. Sob o reinado de D. João V, o rei mandara vir o compositor italiano, Domenico Scarlatti para Portugal como professor de música da infanta Maria Bárbara. Tendo Scarlatti chegado a Portugal e tendo conhecido a enorme performance de Carlos Seixas como organista e mesmo como professor, acaba por afirmar como ele gostaria de ter aulas com Carlos Seixas!

É precisamente sobre este compositor nascido na cidade de Coimbra no mês em que nos encontramos, junho, do ano 1704 que gostaria de vos falar. Como muitos marcos da história da música europeia, Carlos Seixas iniciou a aprendizagem da música com o pai, que era também músico profissional. Ainda jovem, sai de Coimbra rumo a Lisboa, chegando à posição de mestre da capela real. Foi considerado um dos maiores pedagogos no que concerne ao ensino da música e, além disso, um dos maiores organistas e cravistas do seu tempo. Como neste artigo não vos possa exibir a audição da sua obra, graças à variada oferta online hoje existente e de fácil maneio, sugiro-vos algumas das suas obras a escutar: o concerto em Lá Maior para cravo, a sonata n.º 24 em Ré Menor para cravo, a sonata e fuga N.º 22 em Lá menor para órgão, a Toccata Prima em Sol menor para órgão, a toccata em Dó menor, e muito mais que deixo para vossa pesquisa… Muitas destas obra poderão ser executadas no novo Órgão da Sé, que tanto aguardamos!

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