Uma promessa por cumprir

Em meados do século passado, mais concretamente durante quase toda a década de cinquenta, o José Cabral (Marques Fernandes),

mais conhecido entre a “malta” pelo Carrapichana, nome da sua terra natal, uma freguesia do concelho de Celorico da Beira, distrito da Guarda, foi um dos mais brilhantes alunos do Liceu da Guarda. O meu Pai foi o seu encarregado de educação e eu via na sua cara a satisfação, misturada com uma pontinha de orgulho, sempre que era chamado a tomar conhecimento das classificações, sempre muito elevadas, do seu pupilo, quando era chamado a rubricar a informação trimestral ou os pontos escritos feitos pelo “Zé Cabral”. Várias vezes – lembro-me bem de, depois de felicitar o seu pupilo – , ouvir o meu pai dizer: “Este rapaz, se continuar a ter juízo, há-de ir longe”. Era o mais velho dos seis filhos do Senhor Xico Fernandes e de sua Mulher, uma Senhora doente, que passava longos períodos acamada. O Senhor Xico, amigo e antigo colega do meu Pai, era um pequeno proprietário rural que, já tarde na vida, haveria de decidir dar a sua colaboração a uma firma de produtos agrícolas, com sede no Fundão. Era uma figura estimada e simpática, apreciador da boa “pinga”, conversador, autêntico e alegre: com uma piada sempre na ponta da língua, amigo do seu amigo, com uma clientela fiel que o conhecia e admirava pelas boas contas e a permanente vontade de ser prestável a todos. E se ele teve uma vida difícil, com tristezas e tragédias pessoais que o abalaram! Mas não o deitaram abaixo. Era um beirão de velha cepa, tão longe de uma “camarilha” de oportunistas e videirinhos que viriam a inundar o distrito. O Senhor Xico vivia para os prazeres simples da vida e tinha um justo motivo de orgulho nas classificações do seu “José”. Algumas vezes lhe ouvi dizer que aquele rapaz, de tão sério e aplicado, tinha saído à Mãe – só lhe desejava melhor saúde…
Mas estava ditado que a vida do “Carrapichana” haveria de sofrer um grande abalo e, de exemplo, passaria a ser apontado como um desnorteado a evitar. Essa “desorientação” assaltou-o quando andava pelos 15-16 anos, já o meu Pai e a nossa Família tinham vindo viver para Lisboa. Ainda me lembro do desgosto que ele teve com a notícia de que o “Zé Cabral” não era o mesmo e devia estar a precisar de acompanhamento psiquiátrico urgente.
Um dos primeiros sinais de alarme surgiu ainda no Liceu da Guarda, com um casal de Professores seus, ele de Português e Latim e ela de Física e de Química, muito competentes e respeitados. Num dado momento, a Drª. Gabriela, que corrigia exames escritos do 7º ano de Físico-Química, dá um grito de surpresa e exclama, chamando o marido, na mesma sala: “Oh Domingos, Domingos, anda cá ver isto!” e mostrou-lhe o ponto que tinha perante si. O cabeçalho (com a identidade escondida, como era exigido) não deixava margem para dúvidas: tratava-se da prova escrita da referida disciplina da área de Ciências. Mas o conteúdo das respostas ao exame nada tinha a ver com tal matéria: reproduzia uma ou duas estrofes dos Lusíadas e procedia em seguida à sua apreciação crítica. Ou seja, era da área do Dr. Domingos Pechincha, docente de renome de Literatura Clássica, que veio a ser metodólogo num Liceu de Coimbra, que, na ocorrência, até por curiosidade profissional e pelo ineditismo da situação, decidiu analisar tão estranho “fenómeno”. E logo veio o veredicto: “Este examinando foi meu aluno e dos bons, diria mesmo, dos melhores! Mas não está bem de cabeça, está mesmo muito perturbado e a precisar de ajuda médica urgente”.
E, pelo desconchavo presente a somar a outros episódios recentes, conhecidos nos corredores do Liceu, apontou logo o nome do Zé Cabral, o “Carrapichana”. Na disciplina de Físico-Química porém, é que não podia passar…
Iniciou-se então um período marcado por uma montanha russa de sucessos escolares, misturados com a repetição de ocorrências extravagantes e anómalas. Foi um período de sucessivas subidas aos Céus e de descidas ao Inferno. A pedido do Senhor Xico, o meu Pai dispôs-se a falar com o antigo pupilo, aproveitando uma viagem à Beira Alta. Fui testemunha da impaciente espera do meu Pai, do stress, como agora diríamos, que o possuiu. Mas o certo é que, passada a hora marcada, o José não apareceu nem nada disse para justificar a sua ausência. Só viria, bem mais tarde, a comunicar ao meu Pai, por escrito, que problemas de saúde o tinham impedido de comparecer. E, depois de umas palavras simpáticas e bem escritas, acabava com a promessa de que ainda haviam de voltar a ouvir falar dele por razões positivas. Ou seja, prometia que, uma vez em Lisboa, no ano seguinte, quando frequentasse a Faculdade de Economia, haveria de se deslocar a casa do meu Avô materno, onde vivíamos, para falarmos e para poder explicar o que se passava com ele.
Ainda falei com ele, embora nunca tivéssemos tido qualquer intimidade: a diferença de idades era excessiva para permitir uma amizade próxima. Além disso, os farrapos de conversa que, aqui ou ali, lhe ouvia, levaram-me a concluir que já a sua maneira de ser, quiçá, o seu substrato cultural e ideológico, tinha mudado profundamente. O que, sendo natural, não contribuía, porém, para a aproximação (tardia) entre dois jovens com uma diferença de idade de cerca de cinco anos. A grave doença que, entretanto, atingiu o meu Pai, também constituiu um fator de constrangimento e de maior afastamento.
Chegavam-me, contudo, notícias de cenas rocambolescas de vida noturna, algumas com assinalável violência física à mistura, em que o Zé Cabral era ou tinha sido protagonista. Uma noite, já bem tarde, num Bar do Parque Meyer, envolveu-se numa briga sem regras nem limites, que exigiu a intervenção da PSP e na qual ficou célebre um pontapé desferido pelo Zé Cabral, que tinha passado a usar uns botins à alentejana, que partiu os dentes e desfez a boca do opositor que atirara ao chão.
Deixei, durante largos meses, de ouvir falar dele. Disseram-me que tinha saído do País. Sei que andou por paragens inóspitas, sendo que, desde o Ártico a uma plataforma oceânica para exploração de petróleo, por todos esses sítios trabalhou arduamente.
Subitamente, numa manhã de acaso, fui avisado por familiares muito próximos de que o José Cabral tinha morrido e estaria, naquele momento, a ser autopsiado. Contactei com o médico legista, Dr. José Sombreireiro, (o tanatologista com quem eu mantinha relações de muita cordialidade), que me confirmou que o corpo tinha dado entrada no Instituto de Medicina Legal de Lisboa. Para lá me desloquei, com ele me encontrei e, da breve conversa que mantivemos, ainda me lembro das palavras do Dr. Sombreireiro perante o corpo do Zé Cabral, acabado de autopsiar e deitado numa das mesas de pedra onde as autópsias eram realizadas: “Era um homem jovem, saudável e bem constituído. Morreu como muitos jovens passaram a morrer em número cada vez maior… Olhe, um enorme desperdício…” Talvez porque, como aduziu Fernando Pessoa, “morre jovem aquele que os deuses amam”, e os deuses tiveram pressa em reaver os dons desperdiçados…
Lisboa, 13 de julho de 2023

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