Um comboio com vinte e quatro janelas

Conheci o comboio antes de o ver.

E conheci-o em manhãs de vento norte. Isso escrevo hoje, porque conheci o comboio antes de saber escrever e antes de conhecer os pontos cardeais. Foi em manhãs, muito manhãs ainda. Não em todas as manhãs, porque não era todos os dias que o comboio se dava a conhecer. Mas havia manhãs em que ele, trazido pelo vento, se mostrava por instantes tão claro e nítido na sonoridade dos seus silvos de cobra de montanha, que se diria que ele passava ali, ao lado, a uns passos de distância da casa dos meus pais. Mas não, o misterioso comboio passava a uns quilómetros contados pelos dedos de uma das mãos. Assim me diziam e assim vim depois a saber.
Quantos anos eu tinha? Não sei. Só sei que era criança, muito criança ainda, quando o silvo deste comboio madrugador me encantava os ouvidos e me entusiasmava o espírito. Diziam-me que era muito comprido, o comboio. E ele, para a minha pequenez, transformou-se numa espécie de medida de comprimento. Ouvia dizer também que levava muita gente dentro. E sonhava-me, então, a viajar por mundos desconhecidos, eu que, criança muito criança ainda, tinha o mundo reduzido à minha aldeia e aos nomes de outras aldeias que ia ouvindo com frequência. E a Guarda, claro, para onde se dirigia o comboio de cada manhã, era uma espécie de um mundo de sonho que eu imaginava com coisas maravilhosas.
Conheci o comboio antes de o ver. Conheci-o pelo silvo que tantas vezes deixava no ar que parecia estar a acordar os dorminhocos das 9 horas. Porque era o comboio das 9 horas, assim ouvia, o comboio que assim silvava os ares. Vinha todos os dias de Vilar Formoso para a Guarda. Era o “trama”. Assim ouvia eu. Ainda hoje não sei por que razão era assim chamado aquele comboio que tão nitidamente silvava para se me dar a conhecer a partir de longe, da linha da Beira Alta, como a vim mais tarde a identificar. Lá das bandas da Cerdeira do Côa e do Rochoso, que, por terem comboio, constituíam uma espécie de paraíso sonhado.
Foi assim que conheci o comboio antes de o ver. Até que um dia o vi ao longe a fumegar pelos campos como cobra furiosa. Vi-o bem ao longe, comprido, antes de lhe ver os carris. E, desde então, o comboio passou a ser uma medida de grandeza do mundo e dos meus sonhos infantis.
Ainda hoje essa imagem me acompanha sempre que viajo de comboio como guardo também na memória a minha pequena grande viagem. Viagem de “trama”, precisamente, entre as estações de Vila Fernando e a Guarda. Depois, outra e outra viagem. Cada uma com o seu mistério. O mistério da aventura juvenil. Sempre na linha da Beira Alta.
Depois… Bem, a vida é feita de uma sequência de “depois” neste comboio do tempo que sempre nos faz viajar, sem parar. Estonteados, quantas vezes, que já nem nos deixamos encantar pelo mistério e beleza da viagem. E isso é bem necessário. Isso também nos faz falta.
Não era habitual viajar pela Linha da Beira Baixa, mesmo antes de ter encerrado o troço entre a Guarda e a Covilhã. A vida encontrava-se centrada noutras paragens, como Coimbra, Porto e Braga. E a linha era outra. E outros eram os comboios. Mais rápidos, mesmo quando se viajava para a capital. A Linha da Beira Alta, para mim e para muitos, foi, durante muito tempo, o centro da rede ferroviária de Portugal. E também dos sonhos do imaginário. O nosso pensamento possui também centros geográficos, uma espécie de capitais onde reside o governo da vida, ou uma espécie de constelações de estrelas a iluminar os seus horizontes.
Actualmente o centro da rede ferroviária é outro, mas a conjugar-se com o de outrora. Lisboa ganhou uma centralidade familiar e a Linha da Beira Baixa, que reabriu melhorada, ganhou nova vida.
Fui acompanhando, quando possível, o evoluir da situação, particularmente as obras do troço entre a cidade da Guarda e a Covilhã. Primeiro a redução do movimento ferroviário a uma automotora e, depois, ao encerramento completo do troço. Passados 12 anos, o comboio da Beira Baixa voltou à cidade da Guarda. Já foi em Maio de 2021.
As obras duraram vários anos e quem viajava pela auto-estrada poderia até ir acompanhando os trabalhos, ali mais ao longe e aqui de mais perto.
A abertura da linha teve honras ministeriais e houve festa e reportagens várias, escritas e audiovisuais. Particularmente festiva foi a aldeia de Benespera. Bem esperou, Benespera. O entusiasmo foi tal que há quem lhe chame agora «Capital Ferroviária da Linha da Beira Baixa.» Assim eu li e assim ouvi.
Neste Maio de 2023, a Linha da Beira Baixa, renovada, faz dois anos. E tem dois anos também a utilização que eu faço do comboio Intercidades da Linha da Beira Baixa. Não sendo um comboio de excelência – as carruagens bem precisam de melhores cuidados – é de excelência a viagem pela beleza paisagística que ela proporciona. Até as frequentes paragens no troço Guarda-Covilhã – Sabugal/Barracão, Benespera, Maçainhas, Belmonte/Manteigas e Caria – ganham em enquadramento paisagístico, mesmo sem movimento de passageiros.
Há meses recebi a visita de um vietnamita. Era habitual, noutras ocasiões, viajar de automóvel. Desta vez encontrava-se sozinho e fez a viagem de comboio, de Lisboa/Oriente até à Guarda. Fui esperá-lo à estação. Depois do habitual e efusivo cumprimento, as suas palavras foram para a beleza da paisagem proporcionada pelo comboio. Não, não era cortesia. Eu vi nele pleno contentamento e sinceridade no entusiasmo com que falou da viagem. Claro, regressou a Lisboa de comboio e eu, revivendo o elogio que fizera da viagem, fiquei a imaginar outros vietnamitas de outros mundos a descobrirem Portugal, e a Guarda, pela Linha da Beira Baixa.
Não sei se o comboio da Beira Baixa foi cantado recentemente por músicos e poetas. Nem sei se os músicos e os poetas do presente já viajaram no comboio da Linha da Beira Baixa, mas sei que outrora houve quem o celebrizasse no fado português.
Nasceu na Soalheira (Fundão) a 27 de Abril de 1930 e faleceu a 26 de Novembro de 2016 na Amadora com 86 anos este compositor e cantor. Poucos dias antes de morrer, cantou pela última vez em público no “Restaurante Guitarras de Lisboa”, no Bairro de Alfama. Pela última vez – assim li – terá interpretado aí o fado da sua autoria e da sua predilecção, não tivesse ele nascido ali, ao lado da linha, a ver passar e a ouvir, bem mais perto do que eu na minha aldeia, os silvos do comboio da Linha da Beira Baixa.
Bem se vê. Ou muitos poderão ver já. Estou a falar do maestro, compositor e cantor popular Arlindo de Carvalho e o fado a que me refiro chama-se, precisamente, “O Comboio da Beira Baixa”. Terei andado distraído, mas não ouvi reproduzir este fado há dois anos, aquando da abertura total da Linha da Beira Baixa. Na reabertura da linha, Benespera musicou, cantou, assim eu li, mas não sei se cantou com Arlindo de Carvalho, Amélia Pedrosa e Amália Rodrigues.
Da minha parte, nas minhas viagens de comboio pela Beira Baixa, olho ao longe, da zona da Benespera, a Serra da Estrela a ver se descubro lá Amélia Pedrosa a cantar-nos, no seu fado antigo e de outras linguagens: «Subi a Serra da Estrela / Ver o comboio passar: / Vai levar o meu amor, / Para a vida militar.»
Mas é, sobretudo, um pouco mais a Sul, na zona da Soalheira, que mais me ocorre a voz de Arlindo de Carvalho a cantar «O comboio da Beira Baixa». Para rememorar, aqui deixo as duas quadras do famoso fado criado por este bem popular compositor beirão: «O comboio da Beira Baixa / Tem vinte e quatro janelas; / Mais abaixo ou mais acima / Meu amor vai numa delas. // Ó comboio, ó comboio / Ó comboio do ladrão; / Levaste e não trouxeste / O meu amor da estação.»
Com Arlindo de Carvalho, no comboio da Beira Baixa, ouço também Amália Rodrigues que, como muitos outros artistas portugueses, interpretou composições do músico nascido na Soalheira, ali onde se encontram também as raízes da “rainha do fado” que assim soube cantar: «Muito boa noite, senhoras, senhores / Lá na minha terra há bons cantadores.»
Haja festa com antigos e novos poetas cantadores, se o comboio de greves do comboio de sindicatos da CP não continuar a arredar das estações ferroviárias os entusiastas dos comboios e do Intercidades da Linha da Beira Baixa. Benespera que se cuide. O comboio da Beira Baixa pode estar a perder as «vinte e quatro janelas» cantadas pelo popular compositor nascido na Soalheira.
Quando se fecham as janelas perde-se a confiança, espreita a concorrência e o cidadão vai cantar para outros palcos. Na ferrovia como noutros caminhos da vida social. Quem não sabe isso?
Guarda, 24 de Abril de 2023

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