“Sapere aude”

“Sapere aude.” A frase é latina, já se está a ver, e significa “ousa saber”, “atreve-te a conhecer”. E o autor é o poeta lírico-satírico Quinto Horácio Flaco (65 a.C.-8 a.C.), ou simplesmente Horácio, como é geralmente conhecido, ele que é um dos maiores poetas da Antiga Roma.

Passados séculos é o filósofo E. Kant (1724-1804) a utilizá-la como uma espécie de lema para esclarecer o sentido do período iluminista europeu, aplicando as suas teorias da razão à esfera da vida pública. A frase, expressa de modo mais livre, costuma apresentar-se também com a seguinte tradução: “tem a coragem de pensar por ti mesmo”. E o dito latino vai aparecendo também a apadrinhar a acção de diversas instituições. Claro, particularmente de instituições académicas.
Se não erro, a frase latina de Horácio poderá ter outro significado se nos lembrarmos que “sapere”, antes de significar “saber”, significaria “ter gosto”, “provar”, “fruir o sabor”, “saborear”. Depois, por extensão figurativa, o “sapere” passou a significar “conhecer”, “compreender”, “saber”. De facto, para dizer “saber”, os latinos possuíam o verbo “scire”. As nossas palavras “saber” e “saborear” possuem, pois, a mesma raiz etimológica e a frase “sapere aude”, que se foi traduzindo por “ousa saber”, também poderá traduzir-se por “ousa saborear”.
O “saber” e o “saborear” são, portanto, bem familiares entre si. Tão familiares são que os dois verbos se podem unir num íntimo “sentir”: sentir o saber, sentir o sabor. “Saber saborear” talvez não ande muito longe do “saborear o saber”, neste íntimo sentir.
É isso que me ocorre sempre que penso no verbo “degustar” que anda por aí agora tão frequentemente nos restaurantes dos chefs da fama estrelar culinária ou nos espaços de provas vinícolas. O enólogo, assim o poderemos ver, é alguém que tem o saber e o sabor do vinho, que sabe saborear ou que o saboreia com saber. Pelo menos, vai dizendo que sabe e que saboreia com o saber de profissional. E todos nós, sem entrarmos nos restaurantes de chefs nem nos salões de provas de vinho, vamos dizendo em casa que «a sopa sabe bem» ou que um prato insonso «não sabe a nada». Num bom dicionário da Língua Portuguesa, mesmo que elementar, lá poderemos encontrar o verbo “saber” no sentido de “saborear”. Nós é que nos vamos esquecendo de saborear a história das palavras. Porque as palavras e a sua história possuem sabor. E o desastroso e de mau sabor (des)acordo ortográfico mais está a contribuir para tal esquecimento.
Conjugando os dois significados do latino “sapere”, até poderíamos dizer que o sábio é aquele que tem o gosto do saber, que saboreia o saber. Teria sido por aí que se iniciou a filosofia na Grécia Antiga. Aqueles primeiros filósofos, amigos do saber lá muitos séculos antes da nossa era, seriam homens que saboreavam o saber. Saboreavam o saber e possuíam o saber de saborear. E Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), quando diz que «todo o homem deseja naturalmente saber», já estaria a dizer que todos nós somos curiosos, sempre prontos a desejar saborear bem as coisas. Restará saber em que sentido orientamos a nossa vontade de saber. Se para o campo da curiosidade doentia, se para o campo da ciência e da autenticidade da vida.
Mas, já se vê, todos o sabemos. Há saberes e saberes. Há sabores e sabores. Tudo depende daquilo que queremos e sabemos saborear. Saber saborear. Qual é o saber que possui maior sabor, isso é outra questão. Por isso, e outras razões certamente, será de enorme alcance a frase de Sto. Inácio de Loyola (1491-1556): «Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas, sim, sentir e saborear internamente todas as coisas.»
E quando o sabor é muito bom, nele nos demoramos para mais e melhor saborear. Paramos a saborear, como a criança mordisca lentamente na praia a bola de Berlim. Lentamente, muito lentamente, para mais ir durando a doçura do sabor. E com pena de tão depressa ir desaparecendo.
Saboreamos os luzeiros do firmamento do céu, como saboreamos o zumbido do vento nos telhados. Saboreamos a bravura das ondas e a imensidão do mar, como saboreamos o cantar do rouxinol no jardim. Saboreamos o tempo soalheiro como saboreamos a chuva que alimenta as flores do campo e os frutos com que nos alimentamos, flores e frutos que também saboreamos. Saboreamos a música dos regatos e das fontes da montanha como saboreamos a sinfonia de um novo mundo por nascer. Saboreamos um bom poema, como saboreamos uma equação matemática, expressão de um qualquer fenómeno físico que um cientista nos deu a conhecer. Saboreamos o alimento de todos os dias pacientemente preparado pelo carinho e amor de uma mãe numa cozinha simples de aldeia, como saboreamos o manjar de um dia de festa, sabiamente urdido pelas mãos de um chef no espaço sofisticado de uma metrópole. Saboreamos o amor e a amizade. Saboreamos a vida, sabendo o dom que ela é.
Vem aí o Natal. “Sapare aude” o Natal. «Ousemos saborear» o Natal. Com saber. Mas parece que a ousadia começou bem cedo. Ainda em fins de Novembro um diário da nossa imprensa intitulava: «Portugueses já esgotam hotéis para Natal e Ano Novo» (DN, 27/11/22). Mas o tiro de partida de uma louca correria para o Natal parece ter chegado com o “black Friday” dois dias antes do Primeiro Domingo do Advento com que a liturgia cristã prepara o Natal. Verdadeiramente, há saberes e saberes, há sabores e sabores! Aprender a saborear, é também preciso.
Tomás de Aquino (1225-1274), esse grande filósofo, que a modernidade caseira foi esquecendo ou abandonando a um canto como velharia insonsa que não presta, na sua “Summa Theologica” (Parte II-II Questão 148), depois de lembrar que o pecado capital da gula procede de um excesso, faz notar cinco maneiras de excesso no comer. Elas poderiam servir para nos vermos ao espelho na sociedade de consumo em que nos encontramos, de que vamos dizendo mal, mas que bem nos vai sabendo. Vale a pena lembrá-lo em tempo de preparação do Natal. Segundo ele o excesso não se encontra só na quantidade. Ele estará também na elaboração e requinte, na sofreguidão e na voracidade, no luxo e sumptuosidade e mesmo na precipitação ou momentos inadequados.
Vem aí o Natal. Tempo de sabores. Mas um tempo propício a excessos. Um tempo que, de ano para ano, vai ficando reduzido a uma figura que veio do gelo a distribuir presentes e à azáfama caseira, ou hoteleira, na preparação e requinte das mesas, enquanto se vai esquecendo que o Natal é Natal de Alguém. E vai aparecendo gente a ignorar quem são as figuras do presépio, mesmo quando ele aparece num espaço institucional de onde, aliás, vai desaparecendo. Às vezes, até parece ser só um enfeite como outro enfeite natalício qualquer.
“Sapere aude” o Natal. Tem a coragem de saborear o Natal. “Sapere aude” um Deus feito menino humano. É o sabor de Deus que também saboreou, no início dos tempos, a bondade e beleza das coisas criadas. «E viu Deus que tudo era bom.» Deus saboreia a sua criação. E, sabiamente, o salmista convida-nos a saborear Deus: – «Saboreai e vede como o Senhor é bom.» (Salmo 34,9). Tão extraordinariamente bom que o seu Natal supera tudo o que os sabores e saberes humanos poderiam alguma vez suspeitar, por mais extravagantes que fossem as engenhosas hipóteses das suas descobertas: Deus fazer-se nascer humano, para elevar os humanos, é um acontecimento que transcende essas engenhosas hipóteses do pensamento humano. É uma dádiva absoluta. Ousa, pois, saborear o Natal. Verdadeiramente. E haja festa também à mesa, porque é festivo o sabor de Deus.
E, se a fé não chega aí, ousa saborear a surpresa da ternura vivida numa gruta perdida na montanha, onde nasceu um menino ignorado dos homens, mas que trouxe ao mundo a maior revolução do espírito humano. “Sapere aude” essa maravilhosa história.
Feliz Natal.
Guarda, 6 de Dezembro de 2022

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