Que eu-outro queremos, que Portugal-outro aspiramos?

A sociedade (principalmente a europeia/ocidental) é profundamente volátil.

As diferentes comunidades são (talvez artificialmente) desejosas de “apressamento”, ancoradas numa vivência de consumo momentânea, tudo é (ou pode ser) dispensável: como as ideias, os valores, até as pessoas. Vive-se numa urgência-de-presente; empenhados em estar esquecemo-nos de ser. Este estar pressupõe aparecer, ser visto e falado como se não existíssemos para lá do mundo mediático e imediato, onde a comunicação social e redes sociais sacralizam o efémero sem o eternalizar (num eterno-efémero), como pretendem e querem tantos eus desejosos de um reconhecimento alargado e, de preferência, embevecido.
Esta urgência, esta emergência de presente imerge todos os sentidos, todos os pensamentos, todos os sentimentos embrenhando toda a vida numa constante presença, numa espécie de estridência-existencial que não quer, não pode aquietar-se: como se a discrição e a quietude impedissem o eu de ser. E por isso tanto é partilhado, tanto é dito, tanto é comentado, tanto é analisado… mas desse tanto, pouco é pensado e reflectido. Todos têm opinião sobre tudo e poucos se apercebem do quase nada que transmitem- a não ser um narcisismo ilimitado. Se não se aparece, não se é, e se não se é, não se existe; esta lógica (invertida) condiciona e aprisiona a concepção operativa da vida e de si próprios, como se fosse (só) o seu mundo, (só) a sua realidade (que também é).
Este afã incansável pelo presente reconhecido esquece ou idealiza o passado e fantasia o futuro; a realidade como tal vai-se esvaziando, desvanecendo na superficialidade dos inúmeros momentos (que não acontecimentos). Consequentemente, esta falta do real induz sonhos de uma grandiosidade como destino que não chega- nunca. De facto, o realismo tem pouca graça; as questões políticas, económicas, sociais… são aborrecidas. 
As questões de fundo e profundas de governabilidade do país são rapidamente esquecidas pelos problemas concretos e constantes (muitos avivados com intencionalidades várias) que entram na agenda mediática e sistematicamente (quase que metodicamente) substituídos. Os poderes nacionais e locais governam na imediatez, nos chavões (como se fossem palavras mágicas causadoras de metaformoses instantâneas na realidade), nas percepções e sempre num intuito permanente das eleições, de perpetuar o poder. Não interessa muito o que corre(u) mal para se melhorar e reestruturar; não interessa muito planear (demora tempo e não é visível); interessa aparecer, estar em tudo e em todo o lado, criando-se as tais percepções de grandes realizações que, por serem isso mesmo (percepções), pouco têm de transformativo, a não ser uns quantos egos, cegos de presença, impresente pela permanente e paradoxal distância “intelectual” com as pessoas, o povo, a “arraia-miúda”!..
Fazem-se grandes comunicações com fortes frases vazias, anunciam-se umas comissões, uns estudos e… o assunto esmorece pelo surgimento de outro problema mais apetecível e depois outro e outro… e nenhum resolvido na sua essência e consequência. Navega-se à vista: sabe-se que os icebergues estão na rota, mas vamos quixotescamente contra eles até à enésima crise material e vivencial; porque está tudo bem, porque não há alternativa… (algo que as tribos partidárias, toldadas de ideologia e irracionalidade, fazem questão de lembrar continuamente no espaço mediático).
Não é de admirar que os portugueses oscilem entre o pessimismo inoperante e o optimismo ilusório. Chamados à realidade esmorecemos numa tristeza paralisante; convidados à euforia sonhamos uma glória inalcançável; nos entretantos sobrevivemos como podemos.
Estamos absortos num conformismo e indiferença sufocantes (não sei, não quero saber, não interessa, eles é que sabem…) camuflados na verbosidade activista das redes sociais que pouco acrescentam à mudança real, a não ser o ruído de percepções (contraditórias).
Deste modo, há renovações fundamentais que têm de ser feitas pela sociedade como um todo. Aqui, as elites precisam de ser esclarecidas e devotas ao bem-comum. Doutro modo este conformismo/indiferença dará origem a movimentos de revolta e ira extremista- por agora circunscritos aos meandros do futebol e ainda apaziguados por uma cultura de entretenimento distractiva nas televisões, redes sociais, festividades várias… que a par da pobreza geram atitudes passivas, de desânimo, seguidismo e receio de mudar.
Ainda assim, é decisivo, individualmente, compreendermo-nos no silêncio do nosso eu (um Eu-só) para de forma reconvertiva irmos à descoberta do outro (e tornarmo-nos num Eu-outro), mais capaz de ir ao encontro útil de uma sociedade necessitada de matrizes existenciais benéficas, geradoras de felicidade última, enquanto busca incessante…
Cumpriremos assim o sonho pátrio de Portugal como destino e fim!

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