Portugal e a Guarda e os Arreliados

O milagre do surgimento, da consolidação e continuação do nosso Portugal enquanto estado-nação, enquanto território identitário e unitário impregnou-nos de elementos constitutivos especiais (ou pelo menos exponenciais) como Povo: no seu sentir e (não) agir.

Um desses elementos, uma dessas características- não só nossas, mas muito nossas- revela-se na inconstância constante como nos apresentamos ao mundo (e como ele se nos apresenta): com trejeitos de sapiência e excepcionalidade ímpares na sua análise e enfrentamento; revela-se na “mundidisplicência” com que que nos perdemos em múltiplos falares e poucos dizeres; e em tanto e em tanto nada:
Somos um país de arreliados!
Arreliamo-nos por isto e por aquilo; com este e aquele, com o outro e o outro e… connosco próprios. Nunca estamos bem. Se assim melhor doutra maneira, se doutra maneira já sabemos que melhor assim.
As arrelias- infinitas; os zangados- todos.
Podemos até (e como que um exercício algo inócuo, refira-se e sublinhe-se) dividir os arreliados em dois tipos: os Arreliados-de-Ocasião e os Arreliados-de-Profissão. Os primeiros (talvez os mais comuns, mas não é certo) são aqueles que se zangam em determinados momentos (e não noutros) quando o ímpeto grupal os leva a entrar na onda da arreliadice, tornando-se zelosos e bastante competentes até em tal desiderato. Mas tal como o ímpeto chega, assim se vai e os arreliamentos de há instantes dão lugar a uma disposição boa e aprazível, como se nada tivesse sido. Os segundos, esses, são mais complexos na arte da arreliagem; não dão ares da mais mínima polaridade, numa continuidade de registo mesmo em contextos mais informais. Formais, sempre, na arreliadade; não vá alguém pensar que estão a amolecer nas observâncias à sociedade e à comunidade- que vão de mal a pior, está claro! Estão em permanente arrelio e por isso são os arreliadados.
Na Guarda não seremos excepção, ainda que o quiséssemos e desejássemos (será?). Encontraremos dos dois tipos e, escarafunchando bem, encontraríamos um terceiro tipo (malfadada singularidade; ou antes confirmação da peculiaridade- dentro da portuguesismo e sua identidade- do Ser Guardense?!. Haverá mesmo uma identidade Guardense, em comunhão, mas que vá além- ou aquém!- da de Portugal?!. Bom: foquemo-nos): os irreliados. Portanto, os negacionistas; aqueles que juram a gargantas juntas (e audíveis de sobra) que nunca se arreliam e raramente se zangam!.. que isso de arreliar é múnus dos outros, não deles que têm uma clarividência e postura acima de quaisquer arreliagionagem ou arreliajuntamentos .
Na Guarda, somos assim! Ou o seu contrário, vá!
Até pelo que vemos no espaço mediático (e ainda e sempre imediato) da nossa urbe (e ainda mais no que concerne à política- seus actores, comentadores e encorajadores- esse espaço de excelência na aprendizagem da arte e do ofício de bem arreliar, com a pompa do costume e sempre em circunstância), os Arreliados, os Arreliadados, os Irreliados andam por aí… com o pensamento e a voz continuadamente à cata de uma arreliece! Mas quem? Eu? Eu, não! Tu, sim. Nós? Jamais; os Outros, pois está bem de ver!..
Somos assim! E não poderíamos ser de outra maneira (ou poderíamos?!.)!
Que arrelia!

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