Política da mentira

Tive muitas dúvidas antes de me decidir a escrever esta crónica.

Dúvidas que se reportam à complexidade do assunto em causa e dúvidas quanto à conveniência ou oportunidade duma crónica assim quando o acontecimento fora já escalpelizado por tanta gente: políticos nos meios institucionais ou mediáticos e fazedores de opinião nos meios de comunicação social. O acontecimento, porém, não é aqui o tema, ou o foco, como agora diz a moda do uso da língua. Só será a ocasião.
Também tive muitas dúvidas sobre o título a dar ao texto. Mentira política, mentira na política, mentira da política, política da mentira, política com mentira, mentira com política, mentira entre a política ou, genérica e simplesmente, política e mentira? É que a facilidade com que aparece na política portuguesa a palavra “mentira” e a facilidade com que se mente deixam sem norte o cidadão comum. Eu encontro-me nesse grupo.
Já se passou há tempos e os jornais e televisões já não falam nele. Deixou de ser notícia, agora. Mas não duvido que voltará a sê-lo mais tarde, quando as consequências baterem à porta, particularmente dos que se encontram numa situação de maior fragilidade. Que são muitos, neste país velho de séculos, mas que parece, tantas vezes, comportar-se como menino irresponsável, sábio em truques para esconder as fraquezas. Porque há uma fortaleza própria da matreirice das crianças. Com uma assinalável diferença. É que a matreirice das crianças é matreirice de crescimento, de maturação, de ignorância e de uma certa inocência infantil. A do Homem nas instituições é matreirice da cegueira radicada no encanto e deslumbramento do poder, seja ele qual for.
A conhecida filósofa judia Hannah Arendt (1906-1975) inicia um notável opúsculo intitulado “Verdade e política” com estas palavras: «Nunca ninguém teve dúvidas que verdade e política estão em bastante más relações, e ninguém, tanto quanto saiba, contou alguma vez a boa fé no número das virtudes políticas. As mentiras foram sempre consideradas como instrumentos necessários e legítimos, não apenas na profissão de político ou demagogo, mas também na de homem de estado.» E logo apresenta uma série de pertinentes questões onde se interroga sobre a natureza e dignidade quer do domínio público quer da verdade e da boa fé e como se conjuga a impotência da verdade perante o poder enganar que parece pertencer à essência do domínio público. Termina a filósofa com uma terrível pergunta: «A verdade impotente não será tão desprezível como o poder despreocupado com a verdade?»
Lembrar-se-á o leitor daquele dia em que António Costa, com pompa e circunstância, sob o slogan «Famílias Primeiro», como se tivesse uma política da família, informou o país de que o Governo havia aprovado «um conjunto de medidas excecionais para apoiar o rendimento das famílias, tendo em vista a mitigação dos efeitos da inflação e do consequente aumento de preços.»
Nos dias seguintes, desconstruindo o discurso enviesado do governante, não faltaram nomes para etiquetar nos meios de comunicação social – canais televisivos e jornais – tal comunicação ao país, particularmente, como se compreende, em textos de análise política e de opinião. Ouvi, li, anotei e resultou esta curiosíssima lista: «aldrabice», «truque», «trapaça», «embuste», «ilusionismo», «malandrice», «malabarismo» e também «mentira». E, pese embora o atrevimento linguístico na derivação verbal, se em política “o que parece é”, como se se diz e se aceita por aí, António Costa, ou o Governo através dele, “aldrabou”, “truqueou”, “trapaçou”, “embustou”, “iludiu”, “malandrou”, “malabariscou”, “mentiu”.
Muito para além das palavras do primeiro-ministro, nos últimos meses têm-se multiplicado tantas situações no seio do Governo – dispenso-me de apresentar exemplos, um só que seja, que eles andam por aí no ar que respiramos – que é difícil não concluir que vivemos num país governado por malabaristas encartados. Há tanta trapalhada, as inverdades contínuas bailam-nos tanto nos olhos e nos ouvidos que o pobre cidadão vai perdendo a lucidez no discernimento por mais que ele procure, sem a cegueira da paixão, olhar com objectividade para a realidade concreta, mediatizada ou não.
Determinavam as antigas e boas regras do “politicamente correcto” no domínio da educação e da convivência social que não se deveria chamar “mentiroso” a ninguém por mais óbvia que parecesse a mentira. Seria de utilizar antes expressões matizadas como “isso não é verdade”, “isso não é bem assim”, “está errado” ou outras expressões semelhantes. Pretendia-se assim evitar fazer juízos de valor sobre aquilo que se passa no interior da consciência dos falantes. Hoje ficamos surpreendidos com a facilidade com que se utiliza a palavra “mentira” na política portuguesa activa. Parecerá que há quem pense que importa tirar partido da situação: se, como se diz, «a mentira política nasceu com a própria cidade», então importa saborear o proveito pessoal da mentira e ir mentindo subtilmente.
Já o grande Santo Agostinho começa assim um livro sobre “A mentira”: «Tratando-se da mentira, há um sério problema que muitas vezes nos perturba na nossa vida quotidiana: que acusemos inconsideradamente de mentira o que não é mentira.» Não é fácil discernir a natureza da mentira, já este mestre o reconhecia. Deixemos, porém, os complexos meandros do seu pensamento, e recordemos o essencial. Quando falamos significamos duas coisas. Primeiro, que o que dizemos corresponde ao que pensamos, ou seja, que somos sinceros; segundo, que pensamos ser verdadeiro o que dizemos, ou seja, pensamos estar a ser verdadeiros. A sinceridade e a veracidade constituem as exigências éticas da comunicação. Falar é sempre um compromisso com a verdade e a sinceridade do falante. O contrário de verdade não é a mentira, é o erro. E, se a verdade e o erro se reportam ao conhecer, a mentira reporta-se ao agir e ao seu valor moral. Já se está a ver: nem sempre aquele que diz uma coisa falsa ou errada, está a mentir, se acredita ou julga que é verdade aquilo que está a dizer. É para aí que apontam as boas maneiras antigas da convivência social.
Adquiri recentemente um livro de um autor que me era quase desconhecido: Peter Lamborn Wilson (1945-2022). Chama-se este livrinho «O novo niilismo». Quando o folheei na livraria antes de o comprar, logo descobri que as ideias ali difundidas – expressamente anarquistas – pouco ou nada tinham a ver com o meu pensamento. Mas foi por isso que o comprei: também os confrontos no pensar alimentam o espírito. E foi ainda na livraria que me despertaram a atenção as primeiras palavras deste pequeno livro. Pareceram-me elas poderem aplicar-se ao sentimento de muito português neste momento. Assim escreve Lamborn Wilson: «Sinto que é cada vez mais difícil distinguir entre – por um lado – estar velho, doente e derrotado, e – por outro – viver num tempo-e-lugar que está ele próprio senil, cansado e derrotado. Às vezes penso que a impressão é minha – mas depois venho a saber que outras pessoas mais jovens, mais saudáveis, parecem padecer de idênticas sensações de tédio, desespero e raiva impotente. Talvez não seja só impressão minha.»
Já se vê. Lamborn Wilson não escreve aqui sobre a mentira. Mas, como bom anarca, ele aparece como um grande «desmistificador das mentiras culturais do nosso tempo», incluindo, claro, as da cultura política.
Se o poeta escreve que «o fraco rei faz fraca a forte gente», sou tentado a parafraseá-lo e dizer: um Governo «senil, cansado e derrotado» gera «tédio, desespero e raiva impotente» nos fortes e saudáveis cidadãos. A perda da vergonha por parte de quem governa é directamente proporcional à perda de confiança por parte de quem é governado.
Haverá sempre, como se diz e se vai aceitando, mentira na política, mas, no estado, bem triste e nunca visto, a que chegámos nos últimos tempos, mais parece haver uma política da mentira. Lembro, pois, a pergunta da filósofa judia: «A verdade impotente não será tão desprezível como o poder despreocupado com a verdade?» Para saúde da nossa democracia, têm a palavra os profissionais da política.
Guarda, 1 de Fevereiro de 2023

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