Outubro nobelado

A memória das palavras

É de todos os outubros, virem da Suécia notícias sobre o Nobel. Também de surpresas são feitos os anúncios. Este ano o de Literatura voltou a França para premiar uma escritora de carreira feita e narrativas bastante lidas. Trata-se de Annie Ernaux, de nome próprio Annie Therese Blanche Duchesne.
Nascida em Lillebonne, na Normandia, em 1940, Annie Ernaux formou-se em Letras Modernas nas universidades de Rouen e de Bordéus. Professora de carreira e escritora o júri atribuiu-lhe o prémio “pela coragem e acuidade clínica com que descortina as raízes, os estranhamentos e os constrangimentos coletivos da memória pessoal”. É uma escritora que busca a memória e as suas raízes e que escreve com muitos pormenores autobiográficos. Quase todos os livros recorrem à sua biografia para expor ou denunciar situações em que a vida a obrigou a tomar decisões. É também, segundo os críticos, uma escritora solitária, mas solidária. Ainda no portal dos prémios Nobel, afirma-se: “Na sua escrita, Ernaux, de forma consistente e a partir de diferentes ângulos, examina uma vida marcada por fortes disparidades de género, idiomas e classes. O seu caminho enquanto autora foi longo e árduo”. Na escrita de Annie Ernaux encontramos homens e mulheres tocados pelo movimento das paixões (simples, como ela diz no título de um dos seus livros), aliado à sensação de que as imagens não são suficientes para dar conta do que vivemos – é preciso escrever, continuar a escrever. Escrever sempre é o seu lema de vida pois as imagens passam, mas a escrita mantém a atualidade daquilo que se vive e se desempenha. Ela estabelece um genuíno princípio de trabalho: trata-se de “salvar qualquer coisa do tempo onde não voltaremos a estar”.(Os anos)
O seu primeiro livro foi publicado em 1974, (Os armários vazios) e, em seguida, teve êxito com as vendas recebendo o seu primeiro prémio literário logo em 1984. Foi, no entanto, na primeira década do século XXI que o êxito se estendeu para fora de França, por exemplo, com o romance “Os anos” (2008) que lhe valeu um dos prémios mais importantes da literatura francesa. Também o romance “O acontecimento” teve bastante êxito e foi determinante na carreira da autora. Queixava-se ao seu editor que era vista como uma humilde professora sem projeção internacional. Agora, a atribuição do Nobel vem dar razão àqueles que a consideravam a melhor escritora francesa viva.
Apesar da sua escrita ser íntima e biográfica, ou também por isso, as suas obras denunciam ideias feitas ligadas às mulheres e ao tratamento que a(s) sociedade(s) lhes inflige. Trouxe para a escrita a sua própria vida, enquanto afirmação política da mulher. Apesar da solidão, de que gosta, nunca se inibiu de tomar partido pela defesa das suas ideias que espelhou nas suas obras. Oriunda de uma família da pequena burguesia nunca esqueceu as suas origens e utiliza-as para as reverter em reflexão sobre a sociedade: “Quando eu era criança, para mim o luxo eram casacos de pele, vestidos compridos e vivendas à beira-mar. Mais tarde, pensei que fosse ter uma vida de intelectual. Agora parece-me também que é poder viver uma paixão por um homem ou por uma mulher”.
É a primeira francesa a receber o Nobel e a 17ª mulher em 119 edições.

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