Otimistas e pessimistas

1 – Era um otimista. Jovial, quase sempre bem disposto, de bem com a vida, tirando dela o que ela lhe podia oferecer de agradável e aprazível.

Costumava dizer que, ao acordar, fazia o rol das coisas boas ou que lhe podia dar prazer executar nesse dia.
Ao contrário de tantos beirões que fui conhecendo ao longo da vida, ao contrário de mim próprio, com um fundo desconfiado, embiocados dentro de si mesmos, algo tristonhos e pessimistas, ele era o oposto, embora fosse um beirão dos quatro costados: no amor pelo torrão natal, nas histórias da infância e juventude, no amor à família e na solicitude para com os amigos, no seu marcado e identificativo sotaque beirão. Fomos colegas desde o 1º ano do Liceu da Guarda. Convivemos de perto, dada a proximidade das nossas casas, até que eu vim com a família para Lisboa. A partir de então perdemo-nos de vista. Eu fiz o curso em Lisboa; ele em Coimbra. Reencontrámo-nos nos concursos para Juiz, embora não no mesmo, porque o Fernando se tinha atrasado um ano nos estudos. Mas apareceu, sempre bem humorado, com uma piada nos lábios, pelo Palácio do Supremo Tribunal de Justiça, onde as provas eram realizadas, para se aclimatar ao ambiente, já que a vez dele iria chegar em breve.
Era também um grande apreciador das Mulheres e de Mulheres: não só no plano estético, mas também – eu diria mesmo, sobretudo, no plano intelectual: gostava de falar com mulheres, de argumentar com elas, de as galantear com naturalidade, de ser delicado, atento e atencioso para com elas. Dizia – ouvi-lho algumas vezes – que não havia mulheres feias; todas eram agradáveis e interessantes. De um modo geral era retribuído nessas atenções. Quem não gosta de ser ouvido com atenção e agrado? Penso, aliás, que uma das características que as mulheres mais apreciam num homem é que seja capaz de as fazer rir. Como era próprio da sua personalidade extrovertida e por vezes exuberante, não era tímido. Também aí divergia de tantos outros, complexados e, até, misóginos, com medo do convívio com estranhos e principalmente com desconhecidas. Mas nunca era arrogante ou convencido: pelo contrário, a sua atitude otimista era dialogante, franca e convivente. Era altruísta e genuína.
O Fernando Pinto Monteiro, filho de Porto de Ovelha, do concelho de Almeida, de que falava com embevecimento, foi Procurador-Geral da República. Infelizmente, já não está connosco. Foram frequentes as vezes em que não estive de acordo com a sua ação concreta. Mas as discordâncias que a sua atividade profissional me mereceu nunca foram de molde a pôr em causa a amizade recíproca, que prevaleceu sempre sobre o posicionamento “ideológico” ou perante medidas concretas que tomou ou influências que sofreu.
2 – Segundo o Presidente da República, o nosso Primeiro-Ministro, António Costa é um otimista “por vezes irritante”. Com aquela tendência para tudo comentar e para todos catalogar ou classificar, M.R.S., depois de ter elogiado enfaticamente as palavras, o projeto e o futuro previsível de Pedro Passos Coelho (PPC) depois da intervenção deste na sessão do Grémio Literário, tendo constatado os efeitos negativos dessa sua posição perante os simpatizantes de Luís Montenegro, logo se apressou a alterar a pontaria. Numa reunião com os membros da sua Casa Civil, depois de explicitar a convicção de que o “horizonte da vida política e pessoal” de PPC não passaria pelo Palácio de Belém mas antes por um regresso a São Bento, apressou-se a desvalorizar a sua persona política, apontando-lhe defeitos de liderança. Entre as fragilidades de PPC, sublinhou a de “ter sempre um tom grave e pessimista”, o que considerou “pouco mobilizador”, como insistir em “não descolar da agenda e do discurso que o associaram à troika, faltando-lhe trazer esperança às pessoas”. «Passos é cronicamente pessimista», afirmou o P.R. Ou seja, se António Costa é um otimista irritante, PPC será “cronicamente pessimista”, como aventa Ângela Silva no seu artigo no EXPRESSO de 3 de março (pág.9).
Mas e ele, MRS que tanto fala, será um otimista ou um pessimista? Pela minha parte, que pouco o conheço, mas muito o ouço falar, direi: tem dias… Ou melhor, tem momentos… O que Marcelo diz depende do que convém, da circunstância pessoal e/ou política dos interlocutores bem como dos objetivos que pretende alcançar… É afinal o que todos os políticos fazem, mesmo quando não são particularmente afetos a jogos eleitorais. Mas, contas feitas, Passos é de facto muito diferente de Costa (e do volúvel Marcelo, ‘por supuesto’…)!
No que à liderança política diz respeito, nomeadamente quando se pensa nas figuras do PR e do 1º ministro ou do líder da oposição, mais do que ser otimista ou pessimista, importa a competência, a verticalidade, o hábito de falar verdade ou a tendência para a mentira. Já houve bons e maus estadistas independentemente do facto do seu natural otimismo ou pessimismo. Em certo sentido e no que à governança diz respeito, é mais importante o que é do que aquilo que parece. A tal história da mulher de César…!
É sabido que Marcelo Rebelo de Sousa é um hábil e inteligente criador de “factos políticos”. Para meu gosto, contudo, deveria ter maior capacidade para resistir à sua tendência natural de interferir, artificialmente e tantas vezes ardilosamente, no dia-a-dia da vida política. Não aprecio a sua permanente disponibilidade para falar sobre tudo o que vem à baila, sejam factos, episódios rumorosos, projetos de lei ou outros, pessoas e personalidades, vivas ou mortas… Uma palavra um pouco mais reservada não lhe ficaria mal. Mas é também verdade que, se ele cultivasse, como o seu antecessor – e como, aliás, é mais frequente e comum – uma circunspecta reserva e frieza, aqui estaria eu a aconselhar-lhe ser mais próximo e afetuoso no contacto pessoal. É óbvio que tudo tem de ser visto e ponderado em função do temperamento e da personalidade de quem se encontra na circunstância.
No entanto, e com tudo, eu aconselharia respeitosamente ao Doutor Marcelo Rebelo de Sousa enquanto primeiro Magistrado da Nação, um pouco mais de gravitas e um pouco menos de volubilidade. Ao Dr. António Costa, uma maior ponderação e rigor, não apenas nas palavras, mas também na ação política em curso, nas promessas para o porvir e, já agora, e muito importante, vistos os tristes episódios a que assistimos no passado, na escolha dos seus colaboradores na ação governativa (e não só…). E ao Dr. Passos Coelho, se voltar um dia a assumir algum dos mais altos cargos públicos, uma maior capacidade de empatia e uma maior cautela no anúncio das más notícias ainda que respeitando sua tão louvável vocação para a expressão da verdade. Qual o meu conselho (a)final? Como diz Ovídio, nas suas Metamorfoses : Medius tutissimus ibis – “pelo meio irás mais seguro” ou seja: Evitem-se os extremos!
Em tempo: Acabo de ouvir a entrevista que o P.R. deu à RTP e ao “Público”. Gostei. Parabéns. Esteve em grande forma hoje.
Lisboa, 9-03-2023

Notícias Relacionadas