Os Reis Magos

É sabido que Jesus não deixou nada escrito para a posteridade.

A sua mensagem era dirigida a quem desejasse ouvi-LO. Naturalmente, os apóstolos e discípulos foram os ouvintes privilegiados durante três anos. E, depois, pela pregação, foram eles os principais difusores, no início sem qualquer preocupação pela escrita. Será a partir de meados do Séc. I e, particularmente no decorrer do II, que a mensagem de Jesus se vai cristalizando em documentos escritos, conjugados com tradições orais, e proliferando nas comunidades cristãs emergentes. E os relatos sobre o nascimento e a infância de Jesus terão merecido também especial atenção. Cristalizando, proliferando e diversificando-se ao longo de séculos à mistura com textos orais mais ou menos lendários, conforme a perspetiva e objectivos do autor. É bem tardia a definição dos livros que constituem hoje o Cânon dos livros do Novo Testamento. A literatura apócrifa, que não é necessariamente herética, constitui todo um conjunto de textos que não integram os 27 livros canónicos.
Apareceu recentemente em todas as livrarias nos lugares bem destacáveis de visibilidade certa. E a obra é de Frederico Lourenço, o conhecido mestre de Latim e Grego da Universidade de Coimbra que nos vem presenteando com muitas e notáveis traduções, desde os escritores clássicos gregos e latinos até à Bíblia, que tem vindo a publicar numa série de volumes. Agora brinda-nos com «Evangelhos Apócrifos – Gregos e Latinos» em língua portuguesa.
Mas – já se vê pelo título – não é de evangelhos apócrifos que vou tratar nesta crónica, em relação aos quais não possuo qualquer competência, embora desde há muito possua, na biblioteca caseira, uma edição da BAC (Biblioteca de Autores Católicos), em castelhano. Aliás bem mais completa do que esta edição portuguesa que se limita aos textos gregos e latinos. Estas traduções deram-me o tema para esta crónica: os Magos. Esses misteriosos personagens que a liturgia cristã lembra em tempo da Epifania, cuja celebração acontece, neste 2023, no dia 8 de Janeiro.
Atrevo-me, com a devida vénia e sem qualquer preocupação histórica, linguística ou exegética, a respigar alguns aspectos – só alguns – destes enigmáticos e muito interessantes personagens tal como aparecem nos textos apócrifos sem esquecer, claro está, o que deles aparece no Evangelho de Mateus (2, 1-12) o único dos quatro evangelistas canónicos que contém a narrativa destes Magos.
Habituámos desde criança a designá-los de Reis. Ainda hoje há quem olhe para o dia 6 de Janeiro como se de «Dia de Reis» se tratasse. Deixou de ser feriado no meu tempo da infância. Na ocasião, fiquei triste, porque a sua festa, que se veio a perder na mobilidade do calendário, enfraqueceu, e muito, o meu imaginário natalício.
Começo pela narrativa do Evangelho de Mateus. Bem simples e sóbria. Mas também lacunar. Aí se fala de Magos, mas não de reis; fala-se de «uns Magos», mas não se diz quantos, nem nomes, nem se traziam comitiva, nem o significado da palavra «Mago»; diz-se que Herodes «turbou-se e toda Jerusalém com ele», mas os Magos parece terem seguido sós e em tranquilidade absoluta a caminho de Belém; diz-se que vêm do Oriente, mas não se esclarece mais a origem geográfica; diz-se que a estrela parou sobre «o lugar» e depois que «entraram em casa», e não se fala de gruta ou de estábulo de animais; diz-se que viram o Menino com Maria, sua mãe, e nada se diz sobre José; diz-se que abriram «os seus tesouros» e que ofereceram «presentes de ouro, incenso e mirra», mas não se diz quem oferece o quê; fala-se em «presentes de…» mas não se diz que ofereceram ouro, incenso e mirra; diz-se que Herodes indagou do «tempo» em que foi vista a estrela, mas nada se diz sobre a resposta dos Magos. Diz-se que os Magos vinham adorar o rei dos judeus, acabado de nascer, porque haviam visto a «sua estrela no Oriente», mas nada se diz sobre o significado da expressão «sua estrela» nem sobre a utilização do verbo «adorar».
Sendo que nos outros três evangelistas não encontramos referência aos Magos, é na literatura apócrifa que poderemos descobrir outros elementos, alguns dos quais foram entrando na nossa tradição cultural.
O “Evangelho arménio da Infância” assume, para o nosso propósito, particular significado. Os Magos, que eram três irmãos, vinham da Pérsia, da Índia e da Arábia e chamavam-se, respectivamente, Melkon (= Belchior ou Melchior), Baltazar e Gaspar. Caminharam durante 9 meses e chegaram quando a Virgem acabava de ser mãe.
Este evangelho possui também interesse porque, na conversa com Herodes, os Magos falam numa espécie de “Testamento de Adão” entregue a Set, o filho da consolação, concebido depois de Caim ter matado Abel. Neste documento constava a promessa de que Deus enviaria o seu Filho, que assumiria a carne humana como novo monarca e filho de Israel. Passando de pais para filhos, de geração em geração até à Pérsia, cujo rei dominava sobre todos os reis do Oriente, ali fora sempre guardado com toda as honras. E assim o documento chegou finalmente à guarda de Melkon. Recebida a mensagem de um Anjo do Senhor, reuniram-se e, guiados pela sua estrela, lançaram-se ao caminho. Em nome dos três, Melkon oferece ao Menino, como promessa cumprida, este misterioso documento pelo qual os Magos tinham tido conhecimento da promessa da Encarnação Divina, com estas palavras: «Aqui tens a carta selada e assinada pela tua mão, que por bem entregaste aos nossos maiores para que a guardassem. Recebe este documento que tu mesmo escreveste. Abre-o e lê-o, pois está em teu nome.» Não há alusão a outros dons.
Já no “Evangelho árabe da Infância” os Magos oferecem ouro, incenso e mirra, mas Maria agradece com a oferta de um pano do enxoval do Menino.
No “Evangelho de Pseudo-Mateus” os Magos chegam passados dois anos. Entraram em casa e encontraram o menino sentido ao colo da mãe. Abriram os cofres e ofereceram a José e a Maria valiosos presentes. Depois ofereceram cada um ao Menino uma moeda de ouro. Finalmente, o primeiro ofereceu um presente em ouro, o segundo um presente de incenso e o terceiro um presente de mirra.
No “Liber de Infantia Salvatoris” há um importante papel de José no pormenorizado interrogatório que faz aos Magos, cujo modo de vestir é descrito com algum pormenor. «Vimos no céu a estrela do rei dos judeus e viemos adorá-lo», como está escrito nos livros antigos, porque «nós também temos as nossas escrituras que nos falam dEle», respondem. Saúdam Maria com um «Salve, ó cheia de graça». Abrem os seus tesouros e presenteiam Maria e José.
O “Proto-Evangelho de Santiago” é um tanto semelhante ao canónico «Evangelho de Mateus» e tem como objectivo fundamental, que poderá passar despercebido no meio da narrativa, exaltar a virgindade de Maria, Mãe.
Os Reis Magos terão sido baptizados pelo apóstolo São Tomé e contribuído muito para a expansão do Cristianismo primitivo. Na catedral de Colónia, Alemanha, existe um relicário dourado e pedrarias com os restos mortais três homens, um jovem, um de meia-idade e um idoso. Acredita-se que sejam dos três Magos. Descobertos por Santa Helena, mãe do imperador romano Constantino que os levou para Constantinopla, foram depois para Milão e, já no século XII, para Colónia.
É a partir do século XVI que o culto dos Santos Reis Magos se generaliza em Portugal, a que não será alheio a chegada dos portugueses à Índia. Os três Reis Magos, que estavam associados aos três continentes até então conhecidos, Europa. Ásia e África, passaram a simbolizar a nova universalidade inclusiva das regiões a que os portugueses iam chegando. Várias capelas e igrejas se foram dedicadas aos Magos no espaço português de então, a partir da primeira construída em Goa.
Hoje os Reis Magos são o orago da Paróquia do Campo Grande. No retábulo do altar-mor, a adoração dos Santos Reis Magos.
Guarda, 28 de dezembro de 2022

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