«Ontem, um anjo disse-me…»

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Jornal A Guarda

Hoje mesmo, quando pensava, indeciso, em assunto para a habitual crónica quinzenal,

os média divulgaram a informação de que os pastorinhos de Fátima, Francisco e Jacinta, seriam canonizados pelo Papa Francisco no dia 13 de Maio, precisamente na data celebrativa dos 100 anos em que três pequenos pastores da serra tiveram a visão de «Uma Senhora mais brilhante que o Sol». Ouvida a notícia, logo um “anjo” me disse:
– «Já tens tema para o teu texto».
Não fiquei de todo convencido com o mensagem do “anjo” caseiro e a indecisão foi permanecendo em mim até me lembrar de um livro publicado pelo Professor F. Carvalho Rodrigues, em parceria com Luís Ramos, em 1995, cujo título, com a devida vénia, “roubei” para encabeçar este texto.
Conheci o Prof. Carvalho Rodrigues há umas dezenas de anos quando proferiu uma notável conferência no Salão Nobre dos antigos Paços do Concelho. Já não me lembro do título com que o conferencista era anunciado, mas ficou-me sempre na memória a imagem de um homem que, com um poder de comunicação invulgar, ali religava com assinalável sabedoria os nossos saberes compartimentados em que as nossas escolas nos foram enclausurando: a física, a biologia, a sociologia, a filosofia, a religião. Perante uma assistência entusiasta, estávamos ali a assistir, já com o recurso a técnicas informáticas multi-média, ainda então pouco divulgadas, a um percurso poético do encontro do Homem com a Natureza e, misticamente, do encontro com o Divino. No final, projectando um mapa animado, aparecia a Europa encantada para onde convergiam migrantes da Ásia, da África e do Médio Oriente. Poeta visionário, Carvalho Rodrigues é também profeta! A situação dos migrantes e refugiados na Europa aí está a mostrá-lo com toda a evidência.
Adquiri depois, no mercado livreiro, o livrinho «Ontem, um anjo disse-me» com o sub-título «Diálogos para o Século XXI». É praticamente a transcrição dos diálogos havidos entre os autores aos microfones da Antena 1 da Rádio Difusão Portuguesa, em 1994.
E assim regressamos a Fátima. Mas vamos primeiro à Chousa Velha da Loca do Cabeço, onde na Primavera de 1916, os três Pastorinhos se encontravam a «jogar às pedrinhas» enquanto guardavam os rebanhos. É então que começam «a ver, a alguma distância, sobre as árvores que se estendiam em direcção ao Nascente, uma luz mais branca que a neve, com a forma dum jovem transparente, mais brilhante que um cristal atravessado pelos raios do sol.» Absortos em tão enigmática visão, mais surpreendidas terão ficado aquelas crianças quando ouvem as palavras com que os Anjos iniciam habitualmente as suas mensagens: «Não temais! Sou o Anjo da Paz. Orai comigo.» Era a primeira aparição do Anjo da Paz, mais tarde apresentado também como Anjo de Portugal, “precursor” das visões da Virgem que haviam de ocorrer no ano seguinte.
Hoje mesmo, em Roma, foi durante o Consistório Ordinário Público realizado no Palácio Apostólico no Vaticano que o Papa Francisco anunciou a canonização dos dois videntes, Francisco e Jacinta, que passarão a ser as primeiras crianças não-mártires a serem proclamadas Santas da Igreja Católica, dezasste anos após a sua beatificação por João Paulo II. O anúncio já era esperado por muitos, sobretudo a partir de 23 de Março passado, dia em que foi reconhecido o segundo milagre necessário para a canonização: a cura inexplicável de uma criança brasileira com um grave traumatismo crânio-encefálico, com a perda de material cerebral.
Culmina assim todo um processo que se iniciara em 1952 na diocese de Leiria, facto que não deixará de trazer novo significado a este primeiro centenário das aparições de Fátima. Mas verdade também será se se disser que, para a generalidade dos fiéis, Francisco e Jacinto já há muito eram vistos como santos.
A canonização acontece num tempo de particular dificuldade para a Europa e para o mundo. A Conferência Episcopal Portuguesa, na Carta Pastoral escrita a propósito do Centenário das Aparições, escreve: «A mensagem de Fátima alimenta também o compromisso profético com o mundo presente face às injustiças e a todos os fenómenos de exclusão, qualquer que seja a sua raiz… Fiéis ao carisma de Fátima, somos chamados a acolher o convite à promoção e defesa da paz entre os povos, denunciando e opondo-nos aos mecanismos perversos que enfrentam raças e nações: a arrogância racionalista e individualista, o egoísmo indiferente e subjectivista, a economia sem moral ou a política sem compaixão.»
«Ontem, um Anjo disse-me… », assim titula Carvalho Rodrigues o seu livro. «Não tenhas medo, Maria», assim fala o Anjo da Aunciação na casinha de Nazaré. «Não temais!», assim fala o Anjo da Paz aos Pastorinhos da Cova da Iria.
Os bispos portugueses terminam a carta referida dizendo que a Virgem Mãe de Fátima é «custódia da inabalável esperança no triunfo do amor sobre os dramas da história.»
Ocorre-me, assim, o último parágrafo de três linhas do Prof. Carvalho Rodrigues no livro referido: «Mas se de Fé se trata para criar um futuro melhor, se a Caridade abre as portas para uma vida melhor, só com Esperança vai ser possível dizer mais uma vez aos que vão para o século XXI: “Não tenham medo!”»
É que nós já estamos no século XXI e não se poderá dizer que o medo não ande a bater-nos à porta. Peregrinos de todos os mundos, migrantes ou refugiados, bem precisamos que todos os dias, ontem, hoje e amanhã, o Anjo da Paz, acompanhado agora por S. Francisco e Santa Jacinta Marto, soe bem alto aos nossos ouvidos: «Não temais! Sou o Anjo da Paz. Orai comigo.»
20 de Abril de 2017

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