Óculos de ver e de não ver

Vem aí a festa de Santa Luzia. Nunca, em miúdo, ouvira falar desta minha padroeira.

Minha e de quantos possuem problemas de visão ou, mesmo, daqueles que os não têm. E, como é bem de ver, ela é também a padroeira dos oftalmologistas. A sua festa é a 13 de Dezembro, dia em que, no ano de 304, ela fora degolada em Siracusa, na Sicília, depois de uma vida de sofrimento e de vários momentos de martírio falhados. Na iconografia cristã, Santa Luzia é apresentada segurando uma bandeja com dois olhos. Diz a tradição que lhe terão nascido novos olhos depois de um soldado lhe ter arrancado os olhos naturais. Crueldades que os homens inventam para fazerem o mal. Mas, aos olhos do crente, «todas as coisas se transformam em bem para os que amam a Deus» [Rom 8.28].
Em Portugal esta Santa siciliana dá o nome a um monte em Viana do Castelo, onde foi erguido o Santuário de Santa Luzia e de onde se vislumbra um quadro soberbo sobre aquela cidade, o rio Lima e o mar. Desconheço em absoluto a história deste santuário, mas lembro-me que foi nele que eu, na minha juventude e já com óculos, fiquei a conhecer esta Santa da visão, que terá sido uma das mais populares da Antiguidade. Na minha última passagem por Viana do Castelo quis reviver a minha juventude subindo ao monte de funicular. Encontrei-o encerrado.
Para além do Santuário de Viana do Castelo, em Portugal só conheço outro lugar a dar vida a Santa Luzia. Melhor: é antes Santa Luzia a dar vida a outro lugar. Situa-se no extremo Sul de Portugal, no Algarve. É aí, a cerca de dois quilómetros da cidade de Tavira que vamos encontrar uma terra com o nome Santa Luzia. A iniciativa terá vindo dos pescadores, no século XVI, que começaram por erguer uma pequena ermida dedicada a esta Santa, à volta da qual foi aparecendo o casario de pescadores. Deste modo Santa Luzia, por acção e devoção dos pescadores, tornou-se padroeira e madrinha desta povoação algarvia conhecida como a Capital do Polvo devido às características deste molusco marinho pescado na Ria Formosa. E é o polvo que até tem honras de uma escultura naquela terra. Santa Luzia, claro. Do Minho Santa Luzia salta para o Algarve. Até parece que Santa Luzia esquece quem vive cá pelo centro do país. Porém, santa que é, não se esquecerá de ninguém. Haverá olhos que se fecham quando os olhos da Santa encaram os dos humanos
Devaneios meus. Não era sobre Santa Luzia siciliana nem sobre Santa algarvia que pretendia escrever. E muito menos pretendia falar desse molusco marinho com oito braços e ventosas que mais parecem olhos de ver. Mas olhos de ver não são. São olhos de agarrar e prender. E de soltar e desprender, conforme o caso.
Vou antes para os olhos de ver. Melhor: olhos de gente que, não vendo, pretende ver.
Eu uso óculos desde os treze ou catorze anos. Na escola eu era então uma excepção. Eu e outro, na minha turma, se bem me lembro. Era o Tomás e eu. E até éramos um pouco «gozados». Éramos chamados «caixa de óculos» que não podíamos jogar à vontade o desporto mais concorrido. Jogar sem óculos era visão limitada e jogar com eles era um perigo. Para os olhos e para a carteira dos pais. Falo do futebol, já se vê. Agora, como já era na altura, o futebol sempre esteve na primeira linha nos gostos da rapaziada. Devido aos óculos, deixei o futebol e parti para outros desportos menos expostos à violência de uma bola, sobretudo de uma bola movida pela força do pontapé.
Devaneios meus. Também não é sobre o futebol que pretendo falar. É dos óculos. Melhor: do seu uso que se tornou tão generalizado.
Por necessidade ou por moda e elegância visual, o uso de óculos veio para ficar. E as lojas da especialidade multiplicaram-se a olhos vistas. Ou a olhos de ver. Ou a olhos de estilo. Ou a olhos de vaidade. Tudo isto andará por aí. Como anda por aí o formato, o material, a marca. A marca de longa história que vem das cidades onde as modas do corpo se foram alicerçando.
O sistemático aumento de pessoas com necessidade de usar óculos, incluindo as crianças, já me tem levado a perguntar se a nossa sociedade não estará paulatinamente a perder a capacidade de visão. Valha-nos Santa Luzia. Não sei se há estudos que possam dar uma resposta. O que sei é que há cada vez mais crianças e jovens que precisam de uma protecção especial desta Santa festejada a 13 de Dezembro.
Devaneios meus. Também não era da saúde dos olhos, seja de quem for, que pretendia falar. Era de óculos. Simplesmente de óculos. Tão simples quanto isso. Esses objectos pendurados no nariz e presos às orelhas. Esses pedaços de vidro, graduado ou não, presos a uma armação de prata, ouro ou de outro material mais pobre. Porque também em óculos há material de rico ou material de pobre. Do pobre que mal pode ter dinheiro para as lentes quanto mais para uma armação de luxo e da moda. Do pobre que, por ser pobre, é forçado a ver mal. Ou a não ver.
Devaneios meus. Também não era da pobreza de uns e da riqueza de outros que pretendia falar. Era de óculos. De óculos simplesmente. De óculos na cara do pretensioso que usa óculos pendurados no nariz a pensar no seu estatuto ou do pedante que os exibe passeando-se nas ruas como charlatão amaneirado. De óculos na cara do elitista que pretensiosamente exibe a pertença a um pequeno grupo de supremacia social ou de óculos na cara dos frágeis que humildemente os usam para superarem a deficiência visual ou mesmo a cegueira.
Devaneios meus. Não era da tipologia de indivíduos que usam ou usaram óculos de que pretendia falar. Sejam eles pretensiosos, pedantes, elitistas, vaidosos ou frágeis e cegos. Não era deles. Era de óculos. De óculos simplesmente.
De óculos que dêem vida aos olhos, castanhos, acinzentados ou azulados, que tudo alcançam no momento em que olham, em que o ir e o vir se sobrepõem no mesmo instante temporal. É a velocidade da visão. Abrem-se os olhos e, nesse instante, os olhos vêem como por encanto. Os olhos emitem e recebem à velocidade de um relâmpago de luz. Ali o emissor e o receptor, fundidos, fundem-se com a paisagem, os campos, os rios e os mares, o Sol, a Lua e as estrelas da noite sem luar. Ver acontece instantaneamente e, com ele, o deslumbramento da beleza do mundo. Se não tivermos destruído a sensibilidade da descoberta com a rotina que cega os olhos. Com a rotina ou com a orientação que, inconsciente ou deliberadamente, lhes vamos dando e com a qual vão perdendo o brilho. Sim, porque há cegueiras deliberadas que até se vão dando bem com o escuro da noite em pleno dia.
Devaneios meus. Não era dos olhos de que pretendia falar nem do milagre que com eles acontece. Ou da cegueira dos olhos, rotineira ou deliberada. Seja qual for a cor de tais olhos: castanhos, azuis ou acinzentados. Não era, pois, dos olhos que eu pretendia falar. Era de óculos, simplesmente de óculos que desenfeitam a natureza do rosto, juvenil ou enrugado pelos anos. E que desenfeitam também a natureza das coisas dadas.
Não sei quando aprendi que olhar e ver, ou olhar e não ver, depende também da vontade. Quem tem cabeça para entender que entenda.
Há um provérbio chinês que anda já por aí a testemunhar o olhar enviesado: «Quando um dedo aponta para a Lua, o imbecil aponta para o dedo.» Há um grave problema na mente de quem tem olhos e não quer ver. A esses nem Santa Luzia lhes pode valer. Quem não quer ver, de nada lhe valem os óculos, porque tem no umbigo o centro do olhar. É para aí que aponta o próprio dedo quando outro dedo aponta para a Lua. Ou então usa outros óculos, óculos de não ver. Deles se alimentam as conveniências próprias que pouco ou nada têm a ver com a natureza das coisas, dos acontecimentos ou dos eventos.
Guarda, 5 de Dezembro de 2023

Notícias Relacionadas