o Homem e o Escutar

Ouvir! Acto tão simples. De prática complexa! Se o fazemos amiúde em todos os momentos e contextos, a escuta- essa acção empática com o outro- não é algo que façamos recorrentemente.

De facto, isso implica atenção, esforço, valorização (até consideração) por quem e pelo que ouvimos. A passagem do ouvir à escuta é algo de profundamente respeitoso (independentemente da concordância). É o reconhecer que o outro existe, importa; que não é indiferente (mesmo que em discordância). Escutar, compromete-nos numa presença efectiva (e afectiva, também e às vezes) com o próximo.
Contudo, e per si, tal não se afigura fácil. É necessário todo um trabalho individual e predisposicional duro, exigente (quase que pungente) de aceitação do outro, das suas especificidades e “idiossincracidades”: pois gente há manifestamente desinteressante, irritante, maldizente e inconsistentemente incoerente. Tarefa árdua, portanto, o processo de ouvir por si só, quanto mais o da escuta.
Na verdade, todos queremos falar e falar, mostrar o nosso argumentário sobre tudo e sobre nada, despejar opiniões e inquietações: os outros devem ouvir e ouvir… mas escutar-nos-ão? Seremos, cada um de nós, também desinteressantes, irritantes e… ? Escutar-nos-emos a nós próprios? Teremos medo de o fazer e com isso falamos, falamos e comunicamos desalmadamente para não estarmos, não nos confrontarmos connosco mesmos?!.
Estamos, realmente, num tempo de uma comunicação descomunicativa, onde todos proseiam, todos ouvem e poucos escutam. Como tal o diálogo torna-se unidireccional, unipessoal, logo um não-diálogo; antes sucessivos monólogos, monocórdicos e adstritos à nossa (e só à nossa) lucidez, suposta.
Somos doutos em tudo e queremo-lo partilhar com o mundo (seja de que tamanho for esse mundo), porque eu (é que) sei e sei melhor!.. o tão esperançado diálogo torna-se… pleonástico!
Não admira assim que colectivamente vivamos permanentemente na senda dos conflitos, extravasados a toda a hora e momento na comunicação e redes socias (insociais?).
O diálogo só pode ser prenhe de possibilidades valorativas se o acto de escutar for verdadeiramente apurado na individualidade do nosso ser. O tempo do falar total, deve dar lugar a um semi-tempo do escutar! Sem esta tomada de consciência pessoal (e subsequentemente social) estaremos cada vez mais isolados numa bolha de entendimentos desentendidos prontos a rebentar num qualquer acto conflitivo, gerador de mais caos e desgraças com que nos assolamos (enquanto humanidade) dia por dia.
Escutemos: “observemos tudo; corrijamos um pouco; deixemos passar muita coisa”.
E… Escutemos! De novo! E de novo…

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