Não há mesmo um adulto saudável na sala?

Hipótese1: Voltámos todos ao jardim de infância? Ou
Hipótese 2: Embarcámos mesmo numa nave de loucos?

De uma coisa parece não restarem dúvidas: esta questão do telefonema que Galamba fez ou não fez a António Mendonça Mendes, o conselho que Mendonça Mendes deu ou não deu a Galamba para acionar os Serviços de Segurança por causa do computador com informação confidencial, sigilosa, quiçá secreta, ou não, contida no portátil usado até aquele dia, em serviço, pacífica e tranquilamente pelo ex-adjunto mais célebre de todo o Governo, o Dr. Frederico Pinheiro (Dr. ou não Dr., mas tão só “treinador de andebol”, eis a magna quaestio suscitada pelo jornalista mais corrosivo que ainda vou lendo nos jornais, o Dr. Miguel Sousa Tavares), esta questão que se vai arrastando em manchetes pela nossa informação escrita e televisiva, é tão mesquinha, desadequada e imprópria, que leva a hesitar se estamos num hospício ou numa escola infantil.
Será que os intervenientes não têm uma aragem de bom senso ou um átomo de lucidez para se questionarem sobre a dimensão do ridículo do espetáculo que proporcionaram e continuam a proporcionar a um país boquiaberto com a recusa do citado Secretário de Estado Adjunto do 1º Ministro, placidamente sentado na A.R., numa pose inexpressivamente irritante, ao lado de António Costa durante o debate semanal de 4ª feira passada, ou quando é abordado pelo fogo cruzado dos jornalistas, empenhados em lhe sacarem uma palavra sobre aquele telefonema e que ele vai chutando para canto, sem pingo de humor ou de originalidade, qual robot amestrado?
E que pergunta é essa? Apenas saber do visado se foi ele – e em que termos – que informou o ministro Galamba de que deveria acionar ou mandar acionar, informar ou mandar informar os Serviços de Informações sobre a situação em parte incerta do célebre computador, na posse de um possível perigoso sabotador da segurança nacional que fora até então um assessor de confiança do anterior ministro das Infra-Estruturas, Pedro Nuno Santos. E de quem partira tal informação? Pois do próprio ministro Galamba, ele mesmo, quando interrogado pelo deputado Bernardo Blanco da Iniciativa Liberal, em sede da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a TAP. Mas será mesmo que não se apercebem do infinito ridículo e da profunda falta de respeito para com o povo português que constitui o silêncio obstinado e pertinaz que o inexpressivo Secretário de Estado adjunto do 1º Ministro nos vai deixando todos os dias, a várias horas do dia, no recato das nossas casas?
Não seria mais adequada uma abordagem mais informal, mais normal, menos “institucionalista”, menos condicionada por um guião ultra-meticuloso que, à frente de todas as perguntas acerca da matéria, tem sempre a mesma resposta redonda: NÃO, NÃO e NÃO… (NÃO, exclamo eu!). Não poderia ao menos Mendonça Mendes improvisar um pouco e acrescentar, com aquele seu olhar enviesado em semi-perfil a escusar-se: “E não me perguntem quem sou, que aí posso responder como o Romeiro: NINGUÉM!” Entre um ministro impetuoso, senhor de uma grande tendência para faltar à verdade, um homem de rompantes que ninguém entende como continua a ser ministro, e um Secretário de Estado invisível e sem voz, que omite qualquer resposta num cenário que aparentemente a reclamava e até exigia, não sei o que é pior: se o NADA, se o NINGUÉM.
Em face das mentiras e das incoerências das versões relatadas por pessoas que, como é evidente, não primam por um apurado respeito pela verdade, somos levados a pensar que as coisas poderão não ser tão simples e claras como foram relatadas na CPI. Se assim não fosse, qual a razão da fuga à resposta, do mistério repetido (e, repito, ridículo, naquele contexto) do Secretário de Estado Mendonça Mendes? Se a verdade fosse aquela que resulta das palavras, embora tiradas a ferro, do ministro Galamba, por que motivo o 1º ministro atiraria todas as responsabilidades pelos contactos com os Serviços de Informações para cima da Chefe de Gabinete do ministro das Infra-Estruturas? É certo que a referida funcionária se assumiu como a pessoa conhecedora dos truques e dos labirintos, dos “santos” e “senhas” do Gabinete… Mas foi o próprio ministro Galamba que informou a CPI que o conselho para ativar os SIRP proveio do Gabinete do 1º Ministro, mais concretamente, do secretário de Estado Mendonça Mendes!
Leia-se o artigo do EXPRESSO de 26 de maio, onde se dá conta de que “ninguém confirma telefonema misterioso entre o ministro (Galamba) e o secretário de Estado-adjunto do PM”. Lá se pode ler que, “com o Governo a cerrar fileiras sobre a nebulosa dos telefonemas de Galamba (segundo a socialista Isabel Moreira, o ministro foi uma espécie de «helicóptero a espalhar problemas»), o PS fez o mesmo. Os socialistas chumbaram todas as audições pedidas pela oposição sobre este tema e travaram o envio de toda a documentação solicitada sobre o mesmo assunto, alegando que extravasava o objeto da comissão de inquérito («tutela política á gestão da TAP»)” – cfr. pág.7.
Assim sendo – e estando todos nós fartos de mentiras, especulações e truques para a sobrevivência do Governo, custe o que custar – resta-nos pensar que as respostas poderão não ser tão lineares como pareciam. Isso explicaria a relutância de Mendonça Mendes e a sua bizarra posição de nada dizer – nem sim, nem sopas.
E isso explica também a fúria com que o aparelho do PS, a começar pelo Presidente da sua bancada parlamentar, assessorado pelos spin doctors ao serviço do Governo, saltaram com odiosa sofreguidão sobre o ex-Presidente da República Cavaco Silva, também ele muito contundente, acusando-o de espírito de retaliação, ao que o “grande Sócrates”, do alto das suas façanhas sem igual, disse que o antigo PR “está mais velhaco e vingativo” – cfr. EXPRESSO, de 26 de maio, pág.10.
Esquecem, porém, dois pormenores que não são de somenos. Em primeiro lugar, Cavaco Silva é um Catedrático de Economia, com provas de doutoramento prestadas numa conceituada Universidade britânica, ao contrário de tantos políticos, licenciados de aviário, em escolas “amigas”. Em segundo lugar, Cavaco Silva foi, até hoje, o político português com mais marcantes maiorias absolutas da nossa democracia. Foi duas vezes Presidente da República, eleito à 1ª volta com mais de 50% dos votos e por duas vezes eleito 1º ministro com maiorias absolutas que nada tiveram de “poucochinho”.
Pode não se gostar de Cavaco Silva. Eu próprio não sou um apreciador do seu estilo. Mas não se aponte a sua idade e postura como um óbice. Não deixa de ser um político inesquecivelmente vitorioso nas lides eleitorais em democracia. E é ainda uma voz forte com toda a legitimidade para se fazer ouvir. É esse um direito legítimo que lhe assiste, conquistado ao longo de muitos anos de luta política e em pé de justíssima igualdade com Mário Soares que não se – nem ninguém – calou! E há momentos em que expor-se nas palavras é um dever urgente de cidadania erguendo-se contra a cobardia, o servilismo ou a manha dos silêncios cúmplices.
Lisboa, 2 de junho de 2023

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