Jardinosofia e teojardinologia

Chega a Primavera e, com ela, a natureza veste-se de jardim com flores empurradas para o Sol pela fecundidade da terra. Jardinemos, então, com perfumada alegria.

Será este um título estranho para uma cronicazinha modesta. Talvez haja até leitores para quem as duas palavras do título possam ser uma novidade. Serão até neologismos que não se encontrarão nos dicionários. Mas bastará decompor cada uma para se chegar facilmente aos seus significados.
Entendamo-nos, então, desde já, e, à boa maneira clássica, definamos os termos. Inspirados no filósofo de Pamplona, Santiago Beruete (n. 1961), autor de um livro com este título, chamemos jardinosofia – que não simples jardinagem – à sabedoria humana – que não um simples saber – com origem no jardim e em tudo o que o constitui, jardinagem incluída. Chamemos teojardinologia à reflexão sobre Deus enquanto Deus se “mostra” e o Homem O “prova” ou O “vivencia” na jardinagem e na contemplação extáctica do milagre da beleza num jardim. Estranho, não? Palavras complicadas para uma realidade simples, poderá exclamar o leitor. Mas será a realidade assim tão simples?
Li ou ouvi em tempo passado e indeterminado – e a imagem ficou-me bem gravada na memória – que S. Francisco de Assis, extasiado com as suas rosas, chegaria a dizer-lhes: «Calai-vos, não me faleis mais de Deus.» Era o grito da finitude humana que parece não suportar a infinitude de Deus “provado” na beleza colorida e perfumada das rosas. É o limite do humano transformado em oração mediada pelo jardim rosado. Bem se vê, aquele grito do Santo de Assis é uma bela oração de êxtase a Deus.
Haverá, pois, uma “sofia”, uma sabedoria, que pode emergir a partir da actividade da jardinagem e da contemplação da beleza de um jardim. Seria tal ao que se chamou acima uma jardinosofia e de que encontramos indícios em vários filósofos. Uma sabedoria que, como acontecera com S. Francisco de Assis, se transforma numa teojardinologia, numa “prova” experiencial de Deus mediada pelo jardim. Não um simples “saber”, como tantos outros saberes, mas um saber saboreado ou um sabor bem sabido. Seria o “sabor” humano de Deus. A “prova” de Deus seria o cume e expressão da excelência e sublimidade do verbo “provar”. Mas evitemos equívocos. Dizemos “prova”, que não “demonstração”, como se de um teorema matemático se tratasse.
No meu curso de Filosofia encontrei muitas “Provas da existência de Deus”. Desde as intuídas pelos filósofos pré-socráticos, até aos filósofos racionalistas da modernidade contemporânea, a par, como é sabido, de filosofias ateias. Eram assim chamadas as “vias” ou os “caminhos” encontrados pelos filósofos para chegarem ao conhecimento de Deus com o recurso exclusivo à inteligência racional humana. Inteligência racional senciente, na expressão do filósofo espanhol X. Zubiri (1898-1983). Do outro lado situava-se a via da revelação e da fé.
A distinção ficou-me para sempre e foi com agrado que li, e muito reli, a encíclica do Papa João Paulo II intitulada “Fides et Ratio” (Fé e razão), de 1998, que abre com esta belíssima metáfora: «A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade.» Quando uma das asas se encontra ferida, é o espírito humano que se encontra doente e cai como pássaro ferido numa das asas vitais, ou de um avião que fora atingido numa das asas mecânicas.
A razão é o meio filosófico para chegar a Deus e a revelação e a fé são o caminho da religião e da teologia sagrada. E assim se chega à distinção entre o “Deus dos filósofos”, Deus abstracto concebido pelos limitados conceitos do pensamento humano, e o “Deus da fé”, o Deus pessoal a que reza o crente, como Francisco de Assis no jardim de rosas.
Como se conjugam o “Deus dos filósofos” e o “Deus da fé” é problema que ultrapassa de todo o objectivo desta crónica. Mas fique a ideia muito simples: o crente, que quer aprofundar a fé, procurará inteligir Deus com o recurso às suas faculdades superiores e o filósofo chegará – ou poderá chegar – ao momento da necessidade de um salto de confiança para além daquilo que alcança com o recurso exclusivo à razão humana. E a dicotomia supera-se numa síntese superior: fé mais esclarecida e razão com maior sentido da realidade. O espírito humano, aqui chegado, bem pode voar e planar como a ave no azul do céu que contempla do alto o colorido dos jardins da Terra. Salto de confiança, bem difícil de dar, como todos vamos sabendo, e que nem todos conseguem dar. Mistérios da existência humana e da sua liberdade.
Há pensamentos expressos que contrastam com o pensamento de quem lê, mas há também pensamentos expressos aqui e ali que se encaixam, na perfeição, com o pensamento e sentir do leitor. Filho de incansáveis agricultores, cresci no campo a ver os meus falecidos pais a trabalhar a terra com amor. E eu, a olhar para as transformações da natureza, cedo aprendi a saborear a sua beleza, o seu colorido e as flores silvestres ou os giestais amarelos e brancos. Ou a beleza da agricultura florida de amarelo nos nabais do Inverno e de branco e cor-de-rosa dos batatais no Verão. Em casa não havia jardim, mas o campo obsequiava-me com indescritíveis maravilhas.
E assim voltamos ao jardim, à jardinosofia e à teojardinologia. Socorri-me destes dois neologismos inspirado num filósofo da actualidade que vem de longe, lá do Oriente distante, nascido em Seul (1959), na Coreia do Sul, mas com formação e docência na Alemanha. Byung-Chul Han é o seu nome. As suas obras vão estando traduzidas para português e tenho particularmente presente aqui aquela que publicou com o seguinte e significativo: “Louvor da Terra – Uma Viagem ao Jardim”. Um conjunto de «preces», «confissões» e mesmo «declarações de amor à terra e à natureza», que o autor desejaria pudesse constituir-se como «Canção da Terra».
Bem se poderá compreender. Estamos perante um livro que se situa entre a poesia e a filosofia. Um lugar onde a poesia e a filosofia se cruzam em encontros de beleza que se constituem como «hinos, cânticos que louvam a Terra» – e a terra – fruto de três anos de prática diária de jardinagem num jardim a que o autor chamou “Bi-Won” ou “Jardim secreto”.
A citação é um pouco longa, mas aqui a deixo para meu deleite, porque aprecio voltar a ler estas palavras, e para deleite também de quem me lê, como sou tentado a imaginar. São palavras que aparecem no prólogo onde o autor faz a história do livro. «O trabalho de jardinagem foi para mim uma meditação silenciosa, um demorar-me no silêncio. Era um trabalho que fazia com que o tempo parasse e se tornasse fragrante. Quanto mais tempo trabalhava no jardim, mais respeito sentia pela terra e pela sua inebriante beleza. Tenho desde então a convicção profunda de que a terra é uma criação divina. O jardim transmitiu-me essa convicção e, mais ainda, fez-me compreender uma coisa que para mim se transformou numa certeza e assumiu um carácter de evidência. “Evidência” significa originalmente ver. Vi.» E, logo a seguir, este filósofo coreano acrescenta estas curiosas e admiráveis palavras: «A evolução biológica não existe. Tudo se deve a uma “revolução divina”. Tive essa “experiência”. A biologia é, em última instância, uma “teologia, um ensino sobre Deus.» Misticismo oriental? Talvez. E então? Não é verdade que «Todos os caminhos vão dar a Roma»?
Com Byung-Chul Han encontramo-nos para além da biologia científica e da evolução biológica, mas, «em última instância» a biologia é «um ensino sobre Deus», uma «teologia». «Em última instância», no limite final da biologia, como no limite de toda a realidade e saber sobre ela, entramos noutra dimensão. A da «experiência» da «criação divina» ou da «revolução divina». É a dimensão em que o “ver” explode em «evidência» e Deus se torna, por isso, evidente por uma espécie de intuição ou de pura visão. «Vi», escreve o autor.
Da jardinagem nasceria uma sabedoria própria, a jardinosofia. Desta poderá emergir uma teojardinologia, ou seja, a palavra de Deus invisível transmutada em jardim visível, jardim de «ver». Ou Deus a «evidenciar-se» num jardim. O jardim será um «lugar de redenção» e a jardinagem, como escreve o filósofo coreano, não será trabalho, mas «uma meditação, um demorar-se no silêncio» agradecido em adoração e prece.
Uma singela flor poderá ser esse jardim. Um jardim de verdade, de beleza e de bondade que se mostra também na leveza colorida de uma simples flor campestre. Como a de um lírio que ofusca o manto damasco purpúreo de Salomão.
Guarda, 15 de Março de 2023

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