E NÃO SÃO SÓ OS FOGOS…

Estamos a viver dias pavorosos

. Depois de uma pandemia – ainda não debelada (quando o será???) – que nos “cortou” dos nossos contactos sociais, atingiu com gravidade diversa grande parte da população, provocou milhares de mortes e colocou o nosso país num nada honroso 3º lugar entre os países europeus com maiores índices de mortalidade, surgiu a guerra da Ucrânia, com o cortejo de visões do Inferno e as consequências de todos conhecidas para a Europa e, com a crise alimentar, para todo o terceiro mundo.
Faltava a inclemência da Natureza. E essa também chegou. Há já longas semanas vivemos uma seca que já atingiu, em certas regiões, níveis dramáticos, aumentando a aridez e transformando-se numa séria ameaça para um país com milhões de hectares em desertificação…
É certo que há ações humanas que podem e devem ser realizadas metódica e atempadamente para reduzir as consequências dos fenómenos meteorológicos, nestes tempos de dramáticas variações climatéricas. Ou para prevenir fogos florestais e também para limitar as suas consequências. Parece, porém, que a catástrofe de Pedrógão Grande em maio de 2017, bem como a repetição da tragédia de dimensão equivalente em outubro desse ano – não foram de grande préstimo, sem prejuízo de se reconhecer uma melhoria na prontidão da resposta e na dimensão e adequação dos meios e recursos aplicados ao combate. Mas há que reconhecer, porém, que o heroico esforço dos bombeiros e a proliferação dos meios de proteção civil envolvidos no combate, perante o desencadear de calamidades naturais com uma tão diabólica força destrutiva, são tragicamente insuficientes. Por mais cuidados que os cidadãos desenvolvam, por maior que seja o esforço dos responsáveis para organizarem os meios de combate, estes nunca se revelam suficientes. Não raro ficamos dependentes de um golpe de sorte se não mesmo de um milagre.
Não creio – a época trágica que vivemos leva-nos a isso – que possamos comparar estas às catástrofes de origem humana, como as guerras e os crimes hediondos nelas cometidos pela mão de homens enraivecidos e dementes. Para as primeiras, não obstante os progressos da ciência e da técnica, o aperfeiçoamento dos meios materiais utilizados no combate e o conhecimento e condução das intervenções humanas nesse combate, que esforçadamente reduzem os seus trágicos impactos, não podemos deixar de reconhecer a nossa total impotência quanto ao seu advento e implicações. E não há Homem capaz de castigar ou se vingar da Natureza…
Já assim não será para as barbaridades causadas pelos desvarios dos poderosos deste mundo, caso exemplar dos ditadores imperialistas – um Putin, o déspota do Kremlin, em que se pode esperar, desejar, forcejar até para que eles venham um dia a ser chamados a prestar contas perante a justiça dos homens, e a sofrer pessoalmente as penas que essa justiça considere minimamente exemplares.
Não quero, porém, dizer que, em situações de calamidades naturais, o erro e a culpa humanos estejam ausentes e não mereçam censura. Há exemplos de todos conhecidos de responsabilidades a montante e a jusante da eclosão da tragédia natural: desde o incumprimento de regras básicas de cautela e de segurança, à ineficácia e incompetência no combate, até à ineficácia ou ao descaminho de bens, na recuperação do que foi destruído. Isto para não falar da responsabilidade criminal para com os autores do imperdoável crime de “fogo posto”, nos casos que nesta hora são a nossa maior aflição.
E sempre que aqui chegamos nos vem à memória o nosso exemplo nº 1: “o primeiro dia de novembro de 1755 em que Lisboa foi arrasada pelas forças combinadas de um sismo violentíssimo e invulgarmente longo, um maremoto que lançou ondas gigantescas sobre a costa e um mar de incêndio, desaparecendo todo o centro da capital portuguesa (cfr. Rui Tavares, in “O Pequeno Livro do Grande Terramoto de Lisboa”). Espantoso ainda hoje, como, «a primeira catástrofe moderna», em meados do século XVIII, o “Grande Desastre” deu azo a uma organização pioneira da ação política no levantamento de uma estrutura de resposta à catástrofe, constituindo uma antecipação daquilo que hoje designamos por “proteção civil”. E, lisboeta que sou, não posso deixar de salientar que possibilitou o planeamento de uma reconstrução do espaço urbano espantosamente “moderna”, que foi a base do renascimento da cidade. O que é que existia no nosso modesto século XVIII para assim responder à tragédia e não existe hoje, mais de dois séculos e meio depois? Havia visão, havia sentido pleno da responsabilidade e a vontade férrea de lhe dar resposta em tempo e forma memoráveis, havia respeito pela memória futura e desejo de nela inscrever um título indelével, havia quem mandasse enterrar os mortos e tratar dos vivos fosse qual fosse o seu estado, havia a vontade férrea de um Homem, havia o Marquês de Pombal. Hoje há talvez apenas memória dele… Claro que não esquecemos também a sua luva de aço, a sua autocracia “iluminada” (que aliás expiou mais tarde com o exílio) mas todos remaram no bom sentido e Lisboa renasceu. Mas hoje, infelizmente, embora em democracia, conduzidos pela batuta de latex de António Costa, ninguém manda e todos responsabilizam comodamente os antecessores. O tempo passa e as decisões desvaneceram-se em projetos de quem já passou. Basta atentar nos processos de expropriação regidos pelo Ministério de Pedro Nuno Santos (PNS). Vivemos parados, com um pé no ar para se avançar não se sabe para onde, porque o que era, agora já não é, o que se deve não se paga e o que se paga não se paga (pelo menos no montante e no tempo devidos) a quem se deve, o catavento do governo tresvariou e aponta para tudo em redor sem se fixar um momento.
Logo, quanto a (re)construções estruturais, “estamos conversados”… Passam-se os anos e só indecisão, encomenda de estudos e mais estudos para empatar, desculpas deslavadas ou disparatadas. Tudo na(s) nuven(s), à espera que chova…!
Mas podem crer que vai chover – e vai chover picaretas…- porque é imperdoável o desrespeito dos direitos dos cidadãos, de que o Estado dá sobejas provas, como por exemplo no levantamento dos prejuízos e do respetivo ressarcimento atempado no caso de património privado afetado pelas Infraestruturas em construção ou já construídas. Chega a ser obsceno que os cidadãos, em regiões de minifúndio, lá para o interior cada vez mais desertificado e envelhecido, exatamente como para os que por esse mundo além desenham com eles a “arraia miúda” tão falada e louvada pelo PR e pelo PM, sintam quanto afinal e na realidade “real” estão distantes e ignorados no seu viver, no seu ambicionar, no seu mínimo atendimento: maternidades fechadas, urgências encerradas, médicos de família pfff!… aeroportos entupidos, ferrovias desaustinadas ao sabor das ordens de mil e um sindicatos…Senhores Ministros: Alô! Alô!???? Ainda aí estão?
Lisboa, 15 de julho de 2022

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