E agora?

1 – Não me enganei na minha (arriscada) previsão sobre o resultado das eleições de 10 de março.

Acertei por uma unha, sendo certo que a diferença entre os resultados da AD e do PS foi, em votos, ligeiramente inferior a 1% e, em mandatos, a Aliança Democrática teve apenas mais dois do que o Partido Socialista. É verdade que a confusão criada pela sigla ADN, que levou ao engano cerca de 1,6% de eleitores, que normal e esclarecidamente nunca teriam votado no agrupamento partidário onde depositaram o seu voto, provocou um grave prejuízo eleitoral à AD na ordem do 1% (cerca de 100.000 votos), uma vez que era de todo em todo imprevisível, para não dizer impossível, que o partido ADN viesse a atingir mais do que 0,5%.
Como escreveu Henrique Monteiro, num dos seus textos da penúltima página do EXPRESSO de 15 de março, quando a AD foi inscrita com a sua sigla, “já estava registado um partido de extrema-direita (ou talvez fosse de extrema-qualquer coisa …), com o nome de ADN. A confusão arrastou-se. Em pequenos centros, o ADN passou a ser o quarto partido e a sua votação nacional decuplicou. Por outro lado, a AD, por se chamar AD, não ganhou grande coisa relativamente ao PSD. O único mérito talvez fosse o de reintroduzir o CDS no hemiciclo. Apesar dos esforços de Luís Montenegro, que foram muitos e bons, conseguiu uma vitória tangencial que aconselha prudência e diálogo. Por outro lado, tendo em conta tudo isto e contando com a meteórica subida do Chega, ainda se pode dizer que o resultado nem foi mau”. Significa isto que a coligação entre o PSD, o CDS e o PPM, numa contabilidade isenta de erros ou enganos, poderia ter ficado dois por cento acima do PS, o que lhe teria valido mais cerca de três mandatos, além dos que foram escrutinados. Claro está que esses erros não poderiam ser alegados pela AD, uma vez que o contrário representaria uma espécie de benefício ao infrator, porque não soube prevenir em tempo e com eficácia as consequências da confusão das listas eleitorais.
Apesar de isto ser verdade, é omitido por quase toda a “comentadoria” televisiva que se debruça sobre este tema – e que já cansa. Estou, no momento em que escrevo, quase enjoado, a ouvir, no “Eixo do Mal”, o comentador Daniel de Oliveira, sempre paradigmaticamente falho da mais elementar isenção e destilando o ódio habitual, e o sempre-presente Pedro Marques Lopes, cheio de si, rei do lugar comum e dócil seguidor do Daniel Oliveira. O Pedro Marques Lopes começou a sua intervenção para, ao seu estilo sinuoso, se fingir “apiedado” por todos quantos vierem a aceitar um cargo ministerial no governo de Montenegro. Tomara ele ser ministro ou, mesmo, secretário de Estado. Talvez da Cultura! Mas ainda não chegámos a uma tal indigência…
A minha vontade era mudar de canal ou fechar a televisão. Mas, como tenho um artigo para escrever, vou tentar abstrair das sapientes pérolas que saem daquelas mentes – que tanto gostam de se ouvir. Também é verdade que não confundo os dois citados comentaristas “profissionais” com Clara Ferreira Alves, uma intelectual de primeira água, com ideias, experiências e cultura.
2 – Ora, pronto… O PS foi apeado do poder. Saíram os bons e os maus; mas os bons tornaram-se piores e os maus nada melhoraram. O poder corrompe e o poder prolongado durante muitos anos é ainda mais corrosivo. Quem não se lembra daquele ministro recém-empossado que, uma vez regressado ao seu gabinete ministerial, ligou para o pai e anunciou-lhe, impante: “Pai, já sou ministro!”. Até nem era do PS, mas sim do PSD. A natureza humana é a mesma em todos os partidos, só os indivíduos é que são diferentes uns dos outros. Assim, só desejo aos novos titulares do futuro governo que sejam sensatos, serenos e bem-intencionados, olhos postos no interesse público e mantendo um saudável desprendimento que lhes permita dizer “NÃO”, quando entenderem que chegou a hora de regressarem à vida de cidadãos comuns. Mas, enquanto exercerem funções no Executivo, que o façam com o maior empenho e entusiasmo; com lealdade, isenção, probidade e espírito de servir. Entretanto, os partidos já estão de novo em campanha, agora com os olhos postos nas eleições europeias. À repetição do embate entre AD e PS, junta-se agora um novo aliciante: saber como irá comportar-se o partido “Chega”, grande vencedor das eleições legislativas, num tsunami que arrasou o mapa parlamentar em vigor até 10 de março.
Perante a pequena margem da vitória da AD e fiel à palavra do seu leader (“Não é Não”), dirigida ao partido da extrema direita populista, perguntamo-nos qual vai ser o limite de subida deste partido, que ganhou dois dos quatro mandatos nos círculos da emigração: um no círculo dentro da Europa e o outro no círculo de fora da Europa, varrendo, no caso, da lista de deputados eleitos, o nome do anterior Presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, seu alvo em diversos enfrentamentos agressivos e impróprios. Qual vai ser a correlação de forças no novo Parlamento? Quanto tempo durará o governo que Montenegro vai apresentar ao P.R.? Como vai o novo governo minoritário sobreviver se não conseguir ter a maioria necessária para a aprovação dos orçamentos?
3 – Algumas vozes, tidas como autorizadas têm vindo a responsabilizar o P.R. pelos resultados saídos destas eleições. Desde logo, Miguel Sousa Tavares (MST) que, progressivamente, se tem tornado mais agressivo e parcial, (escrevendo os seus textos como se estivesse empenhado em fazer um ajuste de contas pessoal com o objeto da sua apreciação), destacou-se através de um texto tão violento quanto injusto, ao investir, sem peso nem medida, contra Marcelo Rebelo de Sousa – cfr. “E agora, Sr. Presidente?”, EXPRESSO, de 15 de março, pág. 3. Limito-me a um breve excerto: “Deixemo-nos, pois, de meias-palavras. Marcelo não tem desculpa. Estamos como estamos porque ele assim o quis”. A resposta é dada, nesse número do mesmo semanário, por Henrique Monteiro, na já referida penúltima página do Jornal. Acompanhemos por instantes o que ele escreveu numa pequena nota, que titulou “Antes que me esqueça”: “Há quem considere o Presidente o grande derrotado destas eleições. Não entendo bem a razão (…). O Parlamento foi dissolvido na sequência da demissão de António Costa – nada de novo no país. Novas eleições indicaram que o PS, longe da maioria absoluta que detinha na AR, foi o partido que mais perdeu, tanto em votos como em lugares, como em percentagem. Ou seja, havia uma distorção enorme entre a representação e os representados. É um facto. Coisa diferente é não gostar dos resultados, entender que deviam ser outros ou não se rever neste Parlamento”. Dizer que a culpa de Marcelo é ter destapado a realidade visível de um país cheio de contestação, com problemas graves na saúde, na educação, na justiça, é deslocado. “A culpa de Marcelo, se há alguma, é a de começar a teorizar sobre miniciclos, o que não lhe compete, ou a ouvir partidos antes de os resultados estarem totalmente estabelecidos (…)”. “Frioleiras!” diria eu, porque não há tempo a perder!
Lisboa, 23 de março de 2024

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