Cabelo branco é saudade Da juventude perdida Ás vezes não são da idade São dos desgostos da vida…

São as alegrias da vida

Ora bem, “Voz do Povo, voz de Deus”, mas eu hoje estou do contra e resolvi “virar o bico ao prego” e, apesar dos meus cabelos brancos, falar dos “gostos da vida”. Que os tive, Deus seja louvado, como acho que, muitos ou poucos, todos nós tivemos. E o que temos, isso sim, quando os lembramos, é saudade, mas as mais das vezes não uma saudade triste, mas uma saudade jovem, alegre e até divertida. Porque muito desses momentos se reportam aos nossos dias mais recuados, de quando éramos garotos e tudo era uma novidade e uma festa, e a sua memória traz agarrados os retratos daqueles nossos chegados que já partiram, mas que na presente circunstância são uma imagem consoladora de momentos de convívio que nos fazem felizes porque ainda os recordamos na sua espontaneidade, no seu calor humano, na sua alegria gostosa que o tempo poupou.
E então vamos lá a essa viagem afortunada:
1ª Paragem: “O Dia da Lenha”. Todos os anos, lá para os finais da década de 40, ainda eu teria menos de 10 anos, já a primavera ia adiantada quando um carro de bois atravessava a cidade carregando um grande tronco de pinheiro da serra. O seu destino era a nossa casa, situada à Dorna, e quem o conduzia era o Senhor Manuel “caseiro” (a Guarda ainda hoje se chamam “caseiros” aos arrendatários das quintas), auxiliado por um filho adulto (ou quase) – o Tomé – ou um ajudante. Chiando pesadamente, o carro apontava ao pátio da casa para onde, o portão escancarado convidava a entrar. E a essa hora já eu e os meus amigos Fausto e Fernando, dois gémeos que só eu distinguia, e que por tal, em casa, designávamos comumente por “Titas”, espiávamos a chegada e, escarranchados no muro, assistíamos às operações. Era uma entrada arriscada, feita em marcha atrás, numa manobra cautelosa que observávamos extasiados, com o mesmo deleite de curiosidade amplamente satisfeita com que acompanharíamos as fases seguintes do trabalho. E era assim: depositado o tronco no lajedo (e seguindo o carro de bois de volta ao seu ponto de partida) era laboriosamente dividido em vários troços a serrote manual (ainda vinham longe as motosserras…) e depois estes, também à força de braços, colocados num cepo, desfeitos a machado em “cavacas”, todas muito direitinhas, como se fossem gémeas elas também… E nisto se passava a manhã toda, eles suando e nós, encavalitados, roendo maçãs até à hora do almoço. Nessa altura, o Senhor Manuel interrompia as operações e com ele e o filho Tomé, mais os “Titas”, íamos “às sopas”. E que sopas, senhores! Na cozinha, a nossa Maria da Luz (que saudades verdadeiras me vêm hoje dos seus amigos olhos azuis cor da água…) aprimorara-se e premiava-nos com um caldo verde (daqueles verdadeiros de batatas sãs e couves macias da nossa horta) e uma feijoada das ricas, com todos os ingredientes “à maneira”. E para regar “as sopas”, para o Senhor Manuel e acompanhante uns copinhos de vinho tinto, para animar a alma e dar força ao braço! A finalizar – e aí é que a malta miúda se animava! – vinha a sobremesa: o consagradíssimo leite creme da Maria da Luz que fico de água na boca só de o lembrar. Depois deste festim, vinha a arrumação da lenha (era o combustível doméstico para o inverno próximo) nos esconsos por debaixo da varanda no exterior das traseiras, mas, sinceramente, tal passo já não me interessava por aí além e ia-me pelo quintal acima com os “Titas”, atrás do feitiço da bola…
2ª Paragem: o “Dia da Barrela” Parecer-vos-á por certo demasiado caseiro, talvez até demasiado fora dos temas e matérias da educação masculina, mas creiam que, no tempo da minha meninice, não era tal. E eu lembro-o porque me parece das práticas mais longínquas do nosso atual quotidiano. Continuo evocando o viver da Guarda nos anos 40 do século passado, que, no particular da gestão doméstica estava a anos luz da que hoje praticamos. E um dos capítulos mais laboriosos era precisamente a higiene caseira, muito particularmente a lavagem da roupa. Não havia máquinas de lavar e muito menos de secar a roupa e na Guarda, no inverno, estender roupa molhada no exterior era garantido ir encontrá-la pouco tempo depois, inteiriçada, completamente congelada. Que fazer então? Muito simples: lava-se a roupa de corpo e a de maior necessidade e secava-se dentro de casa, quantas vezes à braseira, posta sobre uma grade em forma de “chapéu” que se lhe punha por cima, e a roupa de cama e outra de menos uso, guardava-se à espera da primavera em grandes cestas de vime (onde podia caber uma pessoa) e, quando o tempo aquecia, nos alvores da primavera, lavava-se então – e era a técnica da “barrela”. Para se garantir que gordura e nódoas (ainda por cima em roupas armazenadas durante muitas semanas) eram eliminadas e a roupa recuperava a sua brancura de bom-tom e esmero, arranjavam-se uma celhas altas e largas, onde se mergulhavam as (avantajadas) peças de roupa em água e sabão (azul e branco) a alta temperatura e , com um pau que mais parecia uma enorme colher de sopa, mexia-se e remexia-se, empurrava-se e espremia-se a roupa até se ter a certeza que ela absorvia toda a “saponária”. Pois era precisamente essa “cerimónia” que me encantava, porque maravilhava-me ver a minha mãe a remexer vigorosamente o caldeirão enquanto no ar húmido se evolava o cheiro a sabão que, não sendo precisamente um perfume dos mais requintados, não deixava de conferir à cena um certo ar de bruxaria… E a minha mãe ficava tão estafada que, no resto desse dia eu podia pedir, fazer, dizer o que quisesse que ela estava por tudo. Caso para dizer: “Abençoada colher-de-pau!”
3ª Paragem: “Dia das Compotas e dos Enchidos”. Têm razão, vou na leva da colher-de-pau! Mas isso deve-se aos inicialmente referidos “cabelos brancos”. É que eu sou dum tempo em que a casa, o “templo doméstico” era a sede e a fábrica do muito que alimentava os quotidianos de todos nós e por isso, para consumir no imediato ou para guardar para um qualquer mais tarde, quase tudo se fazia em casa. E assim, as frutas que não duravam até ao inverno guardavam-se em compota, as “sobras” ou peças menores do porco que se matava pelo inverno, conservavam-se nos “enchidos”. E como também as crianças andavam por casa até muito mais tarde do que hoje, acompanhavam de perto todas estas operações de transformação com a vantagem de beneficiarem em primeira mão de muitas delícias que o eram ainda mais refinadas nesses primeiros momentos (ou momentos intermédios). E era o dia da marmelada, nas múltiplas fases que me impacientavam porque não me deixavam andar por perto por causa de não me queimar ou na massa fervente dos marmelos ou na calda da geleia. Mesmo assim raro era o ano em que não espetava o dedo na marmelada ainda fresca vertida naquelas lindas tigelas de loiça que a minha mãe desencantava de dentro do louceiro da cozinha. Os enchidos, esses, eram outra coisa e uma das habilidades mais requintadas da minha mãe (especialmente as farinheiras) que eu só lograva saborear já no prato, depois de uns tempos de apuramento ou de fumeiro. Estes são “gostos” velhinhos mas ajudam-me a bem esquecer muitos desgostos novinhos!
Lisboa, 18 de junho de 2023

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