Amor e Justiça

Abril acontecera havia já alguns meses, quase um ano, e sentia-se transparecer uma pretensa conquista abusiva do poder e uma atmosfera política pouco democrática.

Foi num café da cidade da Guarda, o clássico, mas já desaparecido há muito, Monteneve, num encontro de colegas em que se iam juntando à mesma mesa no início da tarde, depois do almoço. Não me lembro a que propósito, mas, no meio da conversa sobre o momento político, veio à colação a ideia de solidariedade. E eu, com naturalidade, introduzi naquele espontâneo debate a caridade cristã. Um colega que se passeava pelo então MDP/CDE, muito alinhado, à altura, com o PCP, saiu-se-me com esta tirada que nunca esqueci:
– Eu não faço caridade, faço justiça.
A conversa prolongou-se por mais algum tempo com mútuas interpelações. Já de saída, aquele colega voltou à ideia, de modo ainda mais acintoso, dirigindo-se-me assim:
– Eu luto pela justiça e não quero nada com a caridadezinha.
E ia ele já a dar um passo em frente, como quem pretende sair-se com a última sentença, mas ainda pude responder:
– Lute lá pela justiça. Eu também lutarei. Mas lembre-se que, enquanto o tempo passa e a justiça não é feita, há gente a viver na miséria e a morrer de fome que importa servir com caridade.
Aquele colega olhou para mim como que a procurar uma interpelação, mas fui eu que continuei dizendo:
– Não há justiça sem caridade, como não há caridade sem justiça.
Curiosamente, passado algum tempo, fui convidado por estudantes de uma residência da cidade para um debate sobre a situação política do momento. Recordo-me de ter utilizado, a certa altura, a conhecida expressão jurídica latina «Suum cuique tribuere» (“Dar a cada um o que é dele”). A frase parecia dar uma boa definição de justiça, mas gerou-se, então, uma participação mais entusiástica quando lancei para o grupo a pergunta: «Como definir o que é “dele”?»
Vieram-me à memória estes dois momentos por ocasião do falecimento de Bento XVI, quando encontrei, sem indicação da fonte, a seguinte frase atribuída o falecido papa Bento: «O amor supera a justiça. Justiça é dar ao outro o que é dele. Amor é dar ao outro o que é meu.» A frase não é literal, como vim a constatar depois. Constitui uma adaptação sintética de um riquíssimo parágrafo da encíclica “Caritas in veritate” (n.º 6) de Bento XVI de 2009, documento que, por razões conhecidas umas, e outras inconfessáveis, rapidamente ficou esquecido, como esquecidas ficaram as encíclicas que a precederam: “Deus caritas est – Deus é amor” (2005), “Spe salvi – Salvos na esperança” (2007).
O amor será uma das palavras mais banalizadas e maltratadas na linguagem dos nossos dias. Fala-se de «fazer amor» como se o amor fosse um objecto a fazer. Como se faz um almoço ou como se faz uma viagem de turismo. Já a palavra “fazer”, aplicada ao amor, constitui uma deformação da intelecção do amor. E, particularmente, da vivência do autêntico amor.
Assim, vivendo nós numa sociedade em que a palavra “amor” tanto se banalizou e de que tanto se tem abusado, a muitos aquela frase poderá parecer sem sentido ou, então, poderá ser vista como conjunto de palavras meramente piedosas e sem efeito prático. Mas não são, não. E Bento XVI bem o lembra logo no início daquela encíclica: «A caridade na verdade, … é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. O amor – “caritas” – é a força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz.» (n.º 1).
A força do espírito e a energia espiritual são bem mais reais do que a energia física, como o evidencia, a quem quer ver, a multidão inumerável de quantos, por imperativo ético ou religioso, tudo dão de si em muitas instituições de solidariedade humana, em muitos cantos do mundo onde impera a maior miséria que envergonha o nosso orgulhoso desenvolvimento. Fazem justiça possível, muitas vezes em condições inimagináveis e perigo da própria vida, com amor e dom total de si. Totalmente e sem esperarem outra recompensa senão a alegria de fazerem o Bem, dando ao “outro” um pouco do que é “dele”: atenção, proximidade e dignidade.
É bem de ver. Há as forças e energias físicas que os cientistas matematizam, mas há outra força mais operante que não é matematizável: a força do espírito, a energia do Amor. Porque um Amor assim, de pura gratuidade, existe. Está aí a alimentar a Terra. Talvez, mesmo, na terra que pisamos dia-a-dia.
«Justiça é dar ao outro o que é dele.» Mas como se determina o que é “dele”? A pergunta terá hoje sentido, como sentido teve naquele encontro de estudantes em que eu a lancei para o debate.
«Amor é dar ao outro o que é meu.» Mas como determinar o que é “meu”? Somos tentados a dizer que esta é uma pergunta inócua, pois cada um de nós saberá bem o que é seu. Assim vamos julgando. Mas não sei se é assim tão claro.
Regressemos, então, à citada encíclica papal “Caritas in veritate”. Cada sociedade, lembra Bento XVI, possui o seu sistema de justiça. Mas, tendo presente, talvez, as imperfeições destes sistemas humanos de justiça, que poderão situar-se muito afastados do ideal de justiça, acrescenta: «”A caridade supera a justiça”, porque amar é dar, oferecer ao outro do que é «meu»; mas nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é “dele”, o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir.»
O que é “dele” é «o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir.» Colocada a questão nestes termos, a justiça ganha uma dimensão não só ético-política, mas metafísica. O “ser” traduz-se numa dignidade intrínseca da realidade humana que ganha significado superior se pensarmos que o Homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Então o “ser” humano encontra-se abraçado pelo Amor de Deus.
Em cada comarca do país existe, em lugar central, um edifício devidamente assinalado que dificilmente passará despercebido. É a “Domvs Ivstitiae” ou, traduzindo a latinidade, o “Palácio da Justiça”. “Palácio”, dizemos, como se a Justiça fosse uma Dama da mais elevada nobreza na terra dos homens a merecer o maior respeito. E não sem razão. Mas verdade é que o autêntico “Palácio da Justiça” é a alma do “justo”, como reiteradamente aparece na Bíblia ao contrapor o “justo” ao “impio”. Nesta perspectiva, a justiça englobará todas as virtudes humanas.
E assim regressamos ao riquíssimo parágrafo da Encíclica de Bento XVI acima referido, de onde retiro ainda estas palavras: «Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles. A justiça não só não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo ou paralelo à caridade, mas é «inseparável da caridade», é-lhe intrínseca.» Se «a caridade exige justiça», ela «supera a justiça e completa-a com a lógica do dom e do perdão.».
Se «amar é dar, oferecer ao outro do que é “meu”» renova-se a pergunta: o que é “meu”? É – todos o admitirão facilmente – o que eventualmente eu “possuo”, mas também – e isto já nem todos admitirão – o que eu “sou”. Encontramo-nos, por um lado, no domínio do “ter” e, por outro, no domínio profundo “ser”. Como o “ser” e o “ter” se alimentam ou se destroem em nós, isso é o segredo de vida pessoal. Isso é o modo como cada um conjuga a caridade, o amor, com a justiça, sabendo, no entanto, que, no limite ideal, a caridade é justiça e justiça é caridade. Será outro modo de falar dos pronomes possessivos: o “dele” e o “meu”.
Encontramo-nos em época quaresmal. E ouvimos falar de renúncia. Renunciar por caridade não é renúncia, é oferenda. É dom de elevação da comunidade de Humanos na Verdade, na Beleza e na Bondade do “Ser”. Metafísica? Seja. Mas verdade é – assim o creio – que todas as formas de justiça que vamos encontrando por aí, tenham elas o nome que tiverem – comutativa, distributiva, legal, social -, vão entroncar, em última instância, na metafísica do Ser Humano.
Guarda, 1 de Março de 2023

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