Alguns aspetos da Universidade de Coimbra no século XIX

Viagens ao reino de Clio

Era natural que a Universidade de Coimbra, mercê dos privilégios que tinha, se mantivesse numa atitude contrária ao aparecimento de outras universidades. Por outro lado, julgava-se que, para a dimensão de Portugal, uma universidade seria suficiente, até pela quantidade de população existente à época.
Neste século foram muitos e variados os conflitos que se verificaram o seio da velha academia de Coimbra. Existiam várias sociedades secretas, ou semissecretas, organizadas na cidade e que eram compostas por estudantes, mas também por professores. Por norma tinham hábitos conspiradores, por vezes ligados às lojas maçónicas ou às “choças” carbonárias.
Por outro lado, é importante notar que as memórias dos estudantes, algumas delas publicadas, nos dão um importante conhecimento do quotidiano académico coimbrão. Por exemplo, em 1840, Guilherme de Castilho publicou a obra “O estudante de Coimbra ou relâmpago da história portuguesa, desde 1826 até 1838”, considerada a primeira obra sobre a temática e que nos dá uma visão alargada da boémia e da vida estudantil da época.
Referimos também a importância do jornalismo com o aparecimento do “Minerva patriótica”, em 1808, “O observador”, em 1847 e “A ordem”, em 1878. Cabe aqui especial destaque para “O instituto”, que se começou a publicar em 1852 e que, oficialmente, ainda hoje existe e que é considerada a mais antiga revista científica editada em Portugal.
No século XIX, a Sala dos Actos Grandes, ou Sala dos Capelos, é um espaço nobre da universidade onde se realizam os seus atos mais solenes. Integra a cátedra reitoral, o púlpito onde são proferidas as “Orações da sapiência”, os cadeirais dos lentes e os quadros dos reis de Portugal. Tudo isto lhe confere uma atmosfera mítica e que reforça, por oposição, alguns atos revolucionários que também ali tiveram lugar, embora à revelia do poder universitário. Pode dar-se como exemplo, os “outeiros” noturnos que se verificaram em novembro de 1820, como apoio à vitória liberal, o êxodo dos estudantes quando se procedia à distribuição solene dos prémios e as contestatárias “Orações da sapiência”, proferidas nos tempos que antecederam a instauração da República em Portugal.
Nesta época destaca-se o Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra, D. Sebastião Correia de Sá e Meneses (1766 – 1849), conde de Terena. Trata-se, na realidade, do primeiro reitor leigo e o primeiro a exercer o cargo depois da instalação definitiva do liberalismo. Finalmente, salienta-se que não era universitário, mas um nobre da confiança do governo liberal. Deste modo, a tradição e o centralismo mantinham-se numa universidade liberal, a par do seu processo de lenta secularização.
Em 1882, Rafael Bordalo Pinheiro haveria de, entre as centenas que fez, dedicar uma caricatura à Universidade de Coimbra. Esta era representada por uma velha e feia senhora, cuja saia é a borla do lente, enfeitada com um folho onde se lê a palavra “Foro”, representado o tão odiado foro académico, que na realidade, já não existia embora os seus princípios sobrevivessem na polícia disciplinar. A propósito desta caricatura, o escritor Ramalho Ortigão, falou do seu “cheiro sepulcral” e do seu ar “desembargatório e padresco”, concluindo que “Apesar, porém de todos esses sintomas de senilidade caduca, a Universidade conserva-se fecunda e prolífica, não cessando jamais de criar bacharéis na mesma abundância maravilhosa com que o Mondego cria lampreias. Depois da haverem bebido todo o leite da sabedoria que a Universidade lhes propicia, os bacharéis acabam por via de regra estoirando de fome ou indo à sua própria custa aprender outro ofício menos estéril que o de bacharelar”.
No século XIX, a Universidade de Coimbra era também composta por colégios, numa organização colegial imperfeita. Significa isto que os colégios não constituíam centros de ensino fundamental, como em algumas universidades espanholas e inglesas.
Com a extinção das Ordens Religiosas em 1834, os edifícios dos colégios foram ocupados por instituições públicas. A Universidade tomou posse de alguns destes edifícios. Citemos como exemplo o Colégio de São Paulo Eremita, situado na Rua Larga, mas demolido durante o período do estado Novo, que acolheu o Conselho Superior de Instrução Pública, até este organismo ser transferido para Lisboa, em 1859. A partir daí, passou a depósito de livros dos conventos extintos, instalando-se, mais tarde, o Instituto de Coimbra, fundado em 1852. Em 1912 nele foi instalada a mais antiga Associação Académica portuguesa, fundada em 1887, o que fez permanecer o edifício na memória da cidade durante gerações de conimbricenses e de estudantes.

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