Ainda a Europa

José Augusto Garcia Marques – Juiz Conselheiro do STJ (Jubilado)

1 – Imaginemos que se fazia um referendo junto dos portugueses para se apurar qual o tema recente mais relevante que lhes vem ao espírito quando se fala na “EUROPA” ou nos “europeus”. Já agora – e sem pretender, com esta restrição, estabelecer qualquer linha vermelha –, podíamos limitar o universo dos inquiridos aos homens, incluindo os adolescentes.

Estou convencido que, à data de hoje, teríamos um “empate técnico” entre dois temas, bem diversos entre si: creio que a vitória seria discutida entre o rescaldo e as consequências das eleições de 9 do corrente para o Parlamento europeu, por um lado, e o Campeonato europeu de futebol que começou no dia 14 de junho, por outro. Se o referendo fosse alargado às mulheres, talvez, digo, talvez, o tema mais votado pudesse ser o primeiro, de contornos e conteúdo políticos. Mas, limitando o campo dos “eleitores” aos homens e juntando-lhe os adolescentes do mesmo género, admito que, hoje em dia, o futebol levasse a dianteira.

2 – Assim sendo, digamos uma palavra sobre os dois temas. Escrevo estas linhas enquanto a televisão nos traz imagens do jogo entre a Itália e a Albânia, tendo sido já disputados os encontros da Alemanha (contra a Escócia), da Suíça versus Hungria e da Espanha contra a Croácia. E, entre os jogos que segui, foi evidente a superioridade das equipas do país anfitrião e a dos nossos vizinhos espanhóis. São, ou melhor, confirmam ser, grandes candidatos à vitória final.

Em Portugal, a expetativa e as esperanças são grandes, como habitualmente acontece em situações similares. No caso vertente acresce que a seleção constitui uma muito boa equipa, tem jogadores que estão entre os melhores da Europa, um guarda-redes que oferece confiança e jogadores, principalmente do meio campo para a frente, que fazem inveja à maior parte dos adversários. Na minha perspetiva, o “calcanhar de Aquiles” está na defesa. Pepe, que foi um excecional defesa central, está com mais de 40 anos, ou seja, tem idade dificilmente compatível com a competição ao mais alto nível, num torneio muito concentrado e exigente. As lesões incomodam-no com uma frequência e gravidade muito superiores ao que acontecia há alguns anos atrás. O próprio Cristiano Ronaldo, que continua a ser a grande referência do ataque e de toda a equipa já não é, com as suas 39 primaveras, o que foi há seis ou oito anos. Continua a ser um atleta de elite, um super-competidor, capaz de desfazer uma defesa e de marcar golos de exceção. Mas – e o contrário é que seria uma anormalidade – já não pode manter um ritmo e uma intensidade de jogo próprios de um jovem ou de um jogador com trinta e poucos anos. Mas, ainda assim, é uma felicidade poder dispor, ainda que mais intermitentemente, de um “génio da bola”, que alia uma admirável tenacidade e vontade de vencer, uma robustez atlética e uma saúde física a um conjunto de raros predicados técnicos. Mas, por exemplo, a velocidade já é muito inferior à de antigamente. Recorde-se que CR7 joga, a este altíssimo nível, há mais de vinte anos. Até por isso, porque Cristiano não poderá por certo efetuar, na totalidade, os jogos do torneio, é necessário garantir que os pontas de lança Diogo Jota e Gonçalo Ramos estejam aptos a substituí-lo, quando necessário.

Temos depois três ou quatro futebolistas de quase exceção. É o caso de Bruno Fernandes, de Bernardo Silva e de João Neves (e ainda, porventura, de Vitinha). E há outros dois jogadores que todos gostaríamos de ver explodir neste Europeu, correspondendo ao enorme potencial que se lhes reconhece. São João Félix e Rafael Leão. Qualquer deles deixa os espetadores portugueses quase sempre com “água na boca”. Mas, ou por razões de temperamento ou por naturais limitações de consistência em jogos sucessivos, falta-lhes alguma coisa. Mas ainda são novos e, se Félix é um predestinado do ponto de vista técnico, Leão é um fenómeno físico, com uma capacidade e potência de arranque absolutamente rara. Há ainda motivos para depositar esperanças nas qualidades diferentes de Francisco Conceição, com a sua velocidade e imprevisibilidade. É um abre-latas ou um espalha-brasas, como Roberto Martinez o qualificou, que pode fazer a diferença … em certos momentos de alguns jogos.

Quanto aos restantes jogadores que não mencionei, designadamente, João Cancelo, Diogo Dalot, António Silva, Gonçalo Inácio, Nuno Mendes, Danilo, João Palhinha e Ruben Semedo, são bons futebolistas. O problema que me preocupa é a sua atuação em conjunto. Formarão um todo eficaz, um bloco consistente? É nesse aspeto que receio que haja fissuras ou – pior ainda – que algumas das outras seleções disponham de argumentos superiores. Foi o que me pareceu ver nas formações da Alemanha e da Espanha. Mas lembremo-nos de que temos hoje uma equipa superior à que, em 2016, acabou por vencer o Europeu. O futebol é um jogo e a boa sorte, v.g., no sorteio dos adversários nas fases a eliminar – ou seja, nos oitavos, nos quartos e nas meias-finais -, desempenha um papel essencial. Mas, na minha opinião, sendo candidatos, não somos favoritos para a vitória do EURO2024.

3 – Passemos agora a uma breve reflexão sobre o rescaldo das eleições para o Parlamento europeu. Comecemos por algumas observações a nível interno e passemos por fim a uma súmula do ponto de vista europeia. Breves notas: (a) apesar de continuar muito alta, a abstenção diminuiu em relação às eleições de 2019; (b) o grande derrotado destas eleições foi o partido “Chega”, tendo em atenção a dimensão do trambolhão em relação às eleições legislativas de 9 de março. Para isso terá contribuído a falta de fiabilidade, os ziguezagues e as aproximações com o PS, em diversas votações na A.R.; (c) o inesperado vencedor foi a IL, que ficou a dever a Cotrim de Figueiredo um resultado notável, com dois deputados eleitos, tendo ficado apenas algumas décimas abaixo do Chega; (d) o partido mais votado foi o PS, com mais um por cento do que a AD (32,09% contra 31,12%). Foi, para todos os efeitos, uma vitória, até porque elegeu mais um deputado do que a formação rival (8 contra 7); (e) Em termos de resultados “Esquerda vs. Direita”, esta ganhou com um total de 49,98% (IL: 9,07%; CH: 9,79%; AD 31,17%) contra 44,21% para a Esquerda (Livre: 3,75%; PCP-PEV: 4,12%; PS: 32,09%).

Na realidade nada de substancial mudou, a não ser no discurso do PS que, na noite eleitoral, logo surgiu excessivamente triunfalista. No entanto, continuo a pensar que, se houver – mais uma vez – eleições legislativas antecipadas, será penalizado o partido que lhes der causa. Tenha-se presente a lição das eleições de 1987, em que Cavaco Silva prognosticou uma vitória com maioria absoluta do PSD, o que veio a acontecer. A nível europeu, em alguns países a subida da direita radical provocou autênticos terramotos políticos. Forças da direita radical venceram na Áustria, Bélgica e França. Aqui, a vitória do partido de Marine Le Pen – o RN – levou Emmanuel Macron a dissolver o Parlamento e a marcar eleições para 30 de junho com a França a enfrentar uma voraz incógnita. E com ela, o Mundo suspenso sobre um mar de ânsia.

Lisboa, 16 de junho de 2024

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