Agosto de 2023

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Jornal A Guarda

Quando há dias tentava plantar alguns pés de lantanas no jardinzinho da casa da Praia das Maçãs, dei-me conta de que a longa falta de exercício físico, aliada ao aumento de peso, me tornavam excessivo e quase insuportável esse esforço junto à sebe da vedação que dá para a estrada.

O continuado sedentarismo ao longo dos vários meses do “confinamento” produziu efeitos que limitaram a minha mobilidade e, como consequência, o peso aumentou, fui perdendo massa muscular e ganhando relutância a andar e a sair de casa. Com pretextos vários, passei a ficar dias e dias comodamente sentado em casa diante da TV no sofá da minha especial estimação.
A vinda para a Praia ofereceu-me, contudo, condições muito mais favoráveis para me mexer: temperaturas amenas, um jardim para me entreter, uma casa com escadas para subir e descer (exercício ótimo para a revitalização muscular das pernas), mais e maiores estímulos para uma passeata, pelo fresco da tarde à beira-mar. Enfim, recomecei a movimentar-me com mais normalidade.
E aí me pus eu então a jardinar. Mas as pernas traíram-me e eis que me vejo no chão em menos de um credo! Em boa verdade nem sequer caí: deixei-me cair. As pernas fraquejaram e eu tombei na relva, a apanhar com a água da rega que eu tinha aberto e que continuava a correr mesmo ao meu lado. Completamente incapaz de me levantar – as pernas doíam-me terrivelmente – tentei sem êxito rastejar até um ponto onde pudesse ter um apoio a que pudesse agarrar-me para tentar erguer-me. Tudo sem resultado. O fim da tarde aproximava-se, sabia que a minha mulher estava na cozinha, nas traseiras da casa, e a minha filha estava a tomar duche no 1º andar. Porque sou laringectomizado não consigo chamar, muito menos gritar, pelo que não tinha ilusões quando às hipóteses de atrair socorro rápido. Sentia-me todo molhado, já não sabia se da água da rega se do suor da minha atribulação… Não cheguei a desesperar, mas a realidade do momento começava a ser algo preocupante. Porém, passada, ao que me pareceu, uma eternidade, dou-me conta de que a minha filha, estranhando ouvir um tão prolongado ruído da água da rega correndo, vem ao jardim à minha procura (para reclamar…) e vê-me caído junto à sebe. Num fósforo, ouviu a minha explicação sobre o ocorrido, fechou a água e correu a alertar a Mãe e voltaram ambas para me prestarem ajuda. Só que nem as duas juntas tinham força para me levantar do chão. Eu era um peso morto, com as pernas todas torcidas por baixo do corpo, incapazes de se firmarem, crivadas de dores. Mas eis que um carro, que circulava na estrada que corre junto ao passeio da casa, para de repente e, lesto, o condutor sai, perguntando-me se eu preciso de ajuda. Em coro aflito, nós três assentimos, pressurosos. Sai então do veículo um companheiro – soube depois que eram irmãos – chegam-se a mim, olham-me de cima em jeito de avaliação da minha postura, seguram-me por baixo dos braços e, num movimento concertado, levantam-me em peso. Depois, sempre compassadamente, um de cada lado segurando-me os braços, ajudam-me a dar uns passos que aos poucos se tornaram mais firmes e seguros. Na conversa atabalhoada que se seguiu, entre os repetidos e veementes “muito obrigados”, fui informando os meus salvadores de que tinha a certeza que a queda não fora devida a qualquer síncope ou tontura nem súbita falência óssea. Fora puro desequilíbrio em terreno irregular, completamente desamparado e… com demasiados quilos a mais. Sóbrios e eficientes, eles limitaram-se a perguntar para onde me deviam levar. Guiados pela minha Mulher e pela Ana, levaram-me para a sala de estar onde, cuidadosamente, me “despejaram”, são e salvo, no coração seguro do meu sofá de orelhas.
Agradeci do coração a ajuda daqueles homens caridosos, que passaram providencialmente pelo meu jardim e me prestaram socorro. Lembrei-me então de algumas palavras do Papa Francisco pronunciadas dias antes durante a inesquecível Jornada Mundial da Juventude (JMJ).
Foram elas proferidas no seu oitavo discurso/improviso do dia 5 de agosto em que, perante um milhão e meio de peregrinos, Francisco propôs aos jovens uma Igreja “que se põe a caminho para ajudar todos os que caem a levantar-se”, ao mesmo tempo que incentivou todos a caminhar, mesmo que, em alguns passos, possam cair. Em dado momento do seu improviso, o Papa interpelou a audiência de jovens: “Já se cansaram alguma vez? Sim? Não ouço! Pensem no que acontece quando alguém está cansado”(…) “Não tem vontade de fazer nada. Não tem vontade de seguir. Então abandona-se, deixa de caminhar e cai”. E, citando a experiência dos alpinistas, acrescenta um ditado: “No ato de subir a montanha, o que importa não é cair, mas não permanecer caído. Quando vemos algum amigo nosso caído, o que temos de fazer? Levantá-lo! Quando alguém tem de levantar uma pessoa, o que faz? Olha-o de cima. O único momento em que é lícito olhar uma pessoa de cima é para a ajudar a levantar-se. Quantas vezes vemos gente que nos olha por cima de ombro, de cima! É triste”. E repetiu: “A única situação em que é lícito olhar uma pessoa de cima é para a ajudar a levantar-se”.
Grande lição de solidariedade e de humildade, de que são principais destinatários os influentes deste mundo, cegos e surdos às faltas e às falhas do mundo que parecem sobre-voar…!. As palavras do Papa foram um alerta contra o egoísmo e um apelo à caridade e à solidariedade. Para a Igreja, disse Francisco durante a visita que, em 4 de agosto, fez a um bairro carenciado de Lisboa (o Bairro da Serafina), não pode haver “nojo” (nem “medo”, digo eu) da pobreza. Lembrou que o bem se faz no mundo real. No seu improviso, fez a catequese da ação da Igreja junto dos pobres. Já na véspera, no dia 3 de agosto, na Universidade Católica Portuguesa, deixara recados para combater o elitismo e colocar a ciência ao serviço da humanidade. E quem não se recorda do enfático apelo do Papa à inclusão de todos na Igreja, logo na cerimónia de acolhimento da JMJ no Parque Eduardo VII, naquele seu estilo simples, dialogante, humano e direto, segundo o qual “todos, todos, todos” são chamados pelo seu nome?
Na lindíssima Via Sacra do Parque Eduardo VII, a que presidiu no dia seguinte, assegurou, junto dos 800.000 jovens em presença, que vale a pena correr o risco de amar: “Só o amor faz alguém resplandecer!” e pediu-lhes que não tenham medo da dar publicamente o testemunho da sua fé. Já quando presidira à Oração das Vésperas, o Papa, ao referir-se aos abusos sexuais dentro da Igreja, pedira perdão às vítimas e desafiara o clero a abandonar o “imobilismo”, passando à ação “sem medo”. Porque o Amor não é contemplação, é energia, força aglutinadora e criativa na doação e na ternura.
Lisboa, 27 de agosto de 2023
Praia das Maçãs (dia da Senhora da Praia)

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