A MORTE DA RAINHA

A Rainha morreu! Para muitos não há outra, nunca houve outra.

Aos 96 anos, a soberana do Reino Unido, e mais do que isso, da Commonwealth, cumpriu mais de 70 anos de fiel e constante serviço à sua pátria e, por extensão do mérito e do exemplo, a todo o mundo. Morreu a trabalhar, dois dias depois de ter dado posse à primeira-ministra Liz Truss, na sua muito estimada propriedade escocesa de Balmoral. Gesto do maior simbolismo que teve o significado de dar concretização à palavra dada, quando, jovem princesa de vinte e muito poucos anos, jurou dedicar toda a sua vida, fosse curta ou longa, ao serviço do seu povo. Goste-se ou não da falecida Rainha, a verdade é que o exemplo que deu gerou em seu redor uma simpatia e, até, uma admiração muito generalizada por todo o mundo. Sucede-lhe o seu filho mais velho, como Rei Carlos III, que passa a ser Chefe de Estado de 14 países além do Reino Unido.
Isabel II não nasceu destinada a ser rainha, mas sim uma simples princesa, sobrinha de Rei. Filha mais velha do segundo filho do Rei Jorge V, foi a abdicação de Eduardo VIII (para, no que foi o romance do século, casar com a americana, duas vezes divorciada, Wallis Simpson), que permitiu a subida ao trono do seu Pai, que adotou o nome real de Jorge VI.
A guerra marcou a adolescência da Princesa, obrigando-a, bem como a sua irmã mais nova, Margarida, a viver em isolamento e a cumprir as suas obrigações militares – era motorista de veículos pesados e mecânica de viaturas automóveis -, em vez de bailes e festas. Aliás, a sua primeira aparição nos meios de comunicação ocorreu no começo da II Guerra: um discurso na rádio para crianças que estavam em perigo ou separadas dos seus pais.
Vítima de um cancro pulmonar, o rei foi operado no Palácio de Buckingham, onde foi instalado um Hospital de campanha pelo cirurgião Sir Clement Price-Thomas. Morreu com 56 anos, quando Isabel se encontrava em visita oficial no Quénia, acompanhada pelo marido, o Príncipe Filipe de Mountbatten, com quem casara em novembro de 1947, e que a acompanharia dedicadamente durante 73 anos, até à sua morte, em abril de 2021.
Com rara felicidade, a natureza dotou-a de qualidades naturais de discrição, prudência, constância e bom senso. Clara Ferreira Alves (CFA) escreveu, a propósito: “Todos reconhecemos que a Rainha Elizabeth II teve o valor intrínseco da sua presença serena, constante e simbólica, alguém que atravessou o século sem perda de razão ou maneiras, observando o desconcerto do mundo e cruzando chefes de Estado e primeiros-ministros, observando a guerra e a paz, massacres e relâmpagos de glória”. David Hare, dramaturgo e confesso republicano, opina: “o grande mérito de Elizabeth II foi nunca ter sido um agente de mudança e ter deliberadamente ignorado a idade pós-colonial e a mudança do mundo” – cfr. “A Rainha Morta”, de CFA, in “a Revista do Expresso”, de 16 de setembro, pág. 3. Talvez seja uma expressão exagerada para apreciar a serenidade desta soberana de boa parte do mundo perante as convulsões que afligiam os seus domínios, mas que não deixou de ser salutar e estratégica nos momentos históricos mais controvertidos.
A educação de Isabel em tempo de guerra incutiu-lhe um sentimento do dever que se tornou evidente ao longo da sua vida. Já depois dos 90 anos ainda cumpria quase 300 compromissos por ano, inaugurando hospitais e organizando festas no jardim. Nesse tempo, devido à sua longevidade e à recusa em dar entrevistas, era, ao mesmo tempo, famosa e desconhecida. Cultivou, com a sua discrição, o seu sorriso sereno, a sua inexcedível compostura, feita de saber estar e de boas maneiras, com uma permanente reserva perante a comunicação social, uma imagem respeitada mas algo misteriosa, ignorando-se por exemplo as suas posições sobre temas de atualidade, como é o caso do “Brexit”, ou acerca das opiniões que nutria sobre a personalidade e os comportamentos dos 14 primeiros-ministros com quem trabalhou ou de muitas altas individualidades do mundo político e social com quem privou.
Por estes dias, tenho pensado no valor histórico (e também comercial) que teria o livro das suas memórias. Mas, estou certo, a Rainha, com o seu sentido de Estado, seria incapaz de pensar, sequer, na concretização de um tal empreendimento. Isso não significa que não possa ter deixado diários e apontamentos que muitos gostariam de conhecer e divulgar. Todavia, a Família Real e a Segurança do Reino Unido nunca permitirão que isso venha a acontecer. Isabel II construiu um código de conduta que cumpriu com escrúpulo: não manifestar sentimentos políticos ou simpatias ideológicas, abster-se de intervir nos principais debates sociais, em suma, manter-se discreta. Exceção feita, talvez, para o comportamento que traçou para si própria e seus próximos, aquando da morte da princesa Diana, que a arrastou para terrenos controvertidos e semeados de paixão, dada precisamente a personalidade extrovertida e de certo modo “romanceada” da jovem ex-nora.
As homenagens prestadas à Rainha ao longo destes onze dias foram a demonstração plena da admiração, estima e devoção que a grande maioria dos cidadãos do Reino Unido lhe dedicavam. Quilómetros de filas de pessoas que, ao longo de muitas e muitas horas, aguardavam a oportunidade de prestar um último preito da sua gratidão, constituíram um espetáculo inesquecível e, penso eu, irrepetível. Representou, ao mesmo tempo, a prova da grande capacidade de organização daquele povo singular: reservado mas caloroso, firme, por vezes distante, mas grato e entusiasta. Amantes da tradição e respeitadores dos rituais ancestrais, sem sombra de timidez, seguros da cor, beleza e exemplo que proporcionam aos seus súbditos e exibem ao mundo, os britânicos constituem um povo único, mesmo nos seus defeitos e excessos.
O funeral da Rainha foi desde sempre pensado para ser uma manifestação de fausto e pompa. E foi surpreendente descobrir que nelas também entrou, soberanamente, um silêncio só comparável à majestade do momento, palpável onde quer que se estivesse. Depois de cinco dias em câmara ardente nas Casas do Parlamento, por onde passaram centenas de milhares de pessoas, que chegaram a ter de esperar mais de 24 horas para prestarem uma última homenagem à Rainha, a viagem até Windsor foi cumprida ao segundo, com os sinos do Big Ben a assinalarem a passagem de cada minuto – no total foram 96 badaladas, uma por cada ano de vida. Na Capela de São Jorge, na presença dos seus mais próximos, foi comovente e dramático o momento em que, despojado já da coroa, do ceptro e do globo que configuravam o seu poder quase universal, o caixão de Isabel foi baixando lentamente à cripta real, ao encontro dos seus mortos mais queridos. O som duma gaita de foles, cortou o silêncio até ir morrer ao longe, saído do templo.
God save the King!, cantou-se então. O Futuro está aí!
Lisboa, 20 de setembro de 2022

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