A mentira, instrumento da política

Chegou há poucos dias um vídeo à minha caixa de correio eletrónico, no qual o Presidente Lula declarava que mentia, que era obrigado a mentir, porque a política o exigia.

Entretanto, na sua visita à China, o Presidente do Brasil criticou severamente os EUA e a U.E. na questão ucraniana, acusando-os de criarem condições para o recrudescimento da guerra. Repetiu afirmações que o creditaram como um dos líderes apoiantes da Rússia. Talvez por isso acaba de ser convidado a visitar a Rússia. Agora decidiu fazer uma cambalhota, afirmando que era contrário à invasão da Ucrânia pela Rússia. Ou seja, na China fez um discurso anti Ocidente; na União Europeia, muda de agulha e segue o rumo dominante, condenando a invasão da Ucrânia.
Em que ficamos?
Por mim, concluo que Lula é um homem de muitas palavras e de poucas – ou nenhumas – convicções. Ou seja, gosta de estar de bem com Deus e com o Diabo. Mente com a facilidade com que é capaz de beber um copo de água quando tem sede. Ao menos, o nosso Partido Comunista tem uma posição sobre a invasão e a guerra na Ucrânia que não muda conforme as circunstâncias. É uniforme e sempre ultramontana. Lula, esse, é um catavento. Mente porque, segundo ele, a Política assim lho exige. Poderá ser efetivamente assim, mas faz-me lembrar as pessoas de mau caráter, mentirosas e oportunistas, vogando ao sabor das conveniências, para seu proveito e para proveito das causas que, conjunturalmente, defendam. Não é gente fiável, embora possa ser genuíno mesmo quando mente e não perder a simpatia pessoal mesmo quando se desdiz de um dia para o outro.
Claro que o Brasil está acima de tudo isto; limito-me a lamentar que, depois de um Presidente populista, impreparado, inculto, mentiroso e arrogante, defensor de ideias de extrema-direita, tenha sucedido um outro, populista, impreparado, inculto, mentiroso, mas acessível e simpático, adepto de ideias de esquerda ou de extrema-esquerda. O atual vale mais do que o antecessor enquanto pessoa: não por ser mais verdadeiro, mas por ser um mentiroso mais autêntico e por defender causas mais simpáticas, revelando uma humanidade que Bolsonaro nunca teve nem terá…É também de reconhecer, com Marina Costa Lobo (PÚBLICO,19.04,2023) que:” Fazendo face ao liberalismo protagonizado por Bolsonaro, Lula – que não é um líder sem mácula, tendo inclusivamente sido preso por ligações a esquemas de corrupção – efetivamente representou nestas eleições brasileiras a defesa da democracia liberal”.
Mas, se é verdade que o Brasil está muito para além das fragilidades políticas e culturais dos Presidentes que elegeu, tem de se lamentar o imbróglio, a barafunda e a baralhada criadas em redor da presença do seu Presidente na A.R. em cerimónia que antecede a sessão solene de celebração do 25 de abril. Que lástima! Que incompetência! Que deplorável trapalhada, esta da nossa inteira responsabilidade. Não sei se será apenas do nosso infeliz Ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho. A mim palpita-me que há aqui um dedinho do nosso irrequieto P.R. Marcelo, de quem, naturalmente, o convite partiu. Marcelo, com o seu imbatível irrequietismo revela mais uma vez que não é capaz de ficar parado, nem permite que um facto político desta dimensão e simbolismo lhe passe completamente à margem. Marcelo é Marcelo, o Doutor Rebelo de Sousa, O “Nuno Sousa” (usado como petit nom) das crónicas no EXPRESSO logo após a vitória do 25 de abril. Cheio de qualidades intelectuais e de grande qualidade humana em circunstâncias de maior sensibilidade, condoendo-se com o sofrimento dos doentes e dos sem-abrigo, mas incorrigivelmente buliçoso e traquina. Capaz de, no dia 25 de abril, tirar da cartola uma tirada inesperada e irreverente, típica de MRS… Pago p’ra ver!
Mas, atenção, não se confundam estas particularidades do temperamento “juvenil” do nosso P.R. com os vícios e as moléstias de caráter de líderes mentirosos, complacentes com a fraude ou até corruptos. Graças a Deus, o nosso Presidente é um homem de bem, divertido, porventura em excesso, “nas tintas” para a gravitas, mas é também um solitário, de irrepreensível conduta quanto aos valores fundamentais: honradez e postura moral. Assim fosse mais corajoso para cortar pela raiz os males de muitos que o rodeiam no Executivo. Mas, como diz o seu “admirador” J.M. Júdice, “O Homem é assim! Não gosta que não gostem dele…!”. Penso mesmo que a razão por que tudo fará para evitar a ascensão de Pedro Passos Coelho à liderança do PSD deriva do facto de ver nele um “rival” antipático: sério, exigente e pessimista, irredutível com a trafulhice, incapaz de sobrevalorizar a sua ação (antes pelo contrário), mas muito assertivo e severo na condenação dos bulícios e traquinices presidenciais (não foi P.P.C. que disse – ou deu a entender – que o Doutor Rebelo de Sousa era um catavento?).
Mas uma tal exigência para com o líder da oposição, torna-o de facto no grande aliado do 1º Ministro, o que é reconhecido nas próprias hostes socialistas, bastando atentar na inefável tolice do ex-Secretário de Estado das Infraestruturas, Nuno Mendes plantada num email dirigido à ex-CEO da TAP, Christine Ourmières, num grotesco episódio de contornos terceiro-mundistas, sem ofensa para os políticos e gestores do Terceiro Mundo.
Pensando bem, no entanto, e tentando aquilatar da quantidade de consciência e de intenção manhosa que cabem nestes já tão familiares exercícios de mentira – política ou de circunstância – faz-me lembrar muito aquele tipo de afirmações ou sugestões que impingimos às crianças pequenas para as acalmar ou desimaginar de qualquer coisa inconveniente . Um pouco na linha do dito popular, tão acertado: ”Com papas e bolos se enganam os tolos”. Não caberão nele, para as ”papas”, o 0% do IVA ou os aumentos das pensões ou a inflação a baixar(?) e, para os “bolos”, aquela de se pretender reagendar umas eleições europeias (marcadas para toda a União Europeia para 9 de junho de 2024) afim de se salvaguardarem os feriados de junho com as possíveis “pontes”, especialmente favoráveis a umas feriazinhas “intercalares” para os cidadãos do concelho de Lisboa? Como cantava o malogrado Jorge Paião: “Viva o Santo António / Viva o S. João /Viva o 10 de Junho e a Restauração/Viva até S.Bento, se nos arranjar/ Mais um feriado para festejar”! E ainda nesta toada, com um pequenino entorse, ouvir também, na memória da voz do grande Zeca : “O que faz falta é convencer a malta!” E já agora e para fechar, um conselho de outro grande – António Aleixo – que a todos aproveite e nos conforte:
P’rá mentira ser segura
E atingir profundidade
Tem de trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.
Lisboa, 19-04-2023

 

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