A lição do Terramoto de Lisboa

O terramoto de Lisboa, no dia de Todos os Santos de 1755, foi um dos desastres naturais mais mortíferos de que há memória.

Foi avaliado entre 8,5 a 9 na escala de Ritcher.
A Lisboa de então era uma autêntica metrópole, a capital de um império que se estendia pelos cinco continentes. Na cidade mais rica do mundo tinham-se ali fixado negociantes da liga hanseática, entre os quais alemães, ávidas de fazer comércio com os produtos exóticos que provinham de um mundo novo e que os exportavam para as suas terras de origem, e que foram afetados nas suas vidas e nos seus bens. Foi por isso, que o Senado da cidade de Hamburgo mandou enviar 4 barcos carregados de mantimentos, de madeira, panos para tendas, telhas, pregos, folhas de chumbo, diversas ferramentas de carpintaria e de construção de casas e um donativo de 100 mil thalers.
O terramoto de 1755 deixou a fé dos portugueses por terra, pois a cidade cristianíssima que tinha espalhado a fé pelo mundo pagão, que nesse dia estava celebrar em todas as igrejas a grande festa de Todos os Santos, ficara quase destruída. Além dos feridos, houve cerca de 50 mil pessoas, num total de 200 mil habitantes. Só no Hospital Real de Todos o Santos, o maior hospital do mundo de então, e que constituía o orgulho da cidade, morreram 500 doentes.
Perante uma tal catástrofe, não faltou quem visse neste acontecimento um castigo ou a fúria divina que colocaria Lisboa ao lado das malditas cidades de Sodoma e Gomorra, dando azo a multiplicação de sermões da parte do clero, que fustigava os costumes licenciosos dignos de uma Babilônia libertina.
O protagonista desta ideologia, que considerava o terramoto como um castigo de Deus, foi o jesuíta, recentemente chegado do Brasil com fama de santo, o padre Gabriel Malagrida que pôs a circular um panfleto intitulado Juízo da Verdadeira Causa do Terramoto, fazendo crer que Deus estava verdadeiramente irado pelos pecados de todo o Reino e muito particularmente de Lisboa.
Este terrível evento teve um enorme impacto nos pensadores daquela época, muitos dos quais estavam a começar a ver o mundo de uma nova maneira que gerou o designado iluminismo.
Emmanuel Kant publicou alguns textos separados sobre o desastre de Lisboa, tornando-se um dos primeiros pensadores a tentar explicar os terremotos por causas naturais, e não sobrenaturais.
Poucas semanas depois do terremoto, Voltaire, que era crente e não ateu, redigiu o “Poema sobre o Desastre de Lisboa”. Afirmava ele :
Que crime, que falha cometeram aquelas crianças, esmagadas e ensanguentadas no ventre da mãe?
Terá Lisboa, que já não existe, mais vícios do que Londres, do que Paris, afundadas nas delícias?
Lisboa está em pedaços e dança-se em Paris”.
Voltaire questionou a ideia de Deus, tendo-o economizado como sendo o autor dos males naturais, como terramotos, vulcões e outros desastres da natureza. Outros filósofos, como Rousseau, tentam refletir igualmente nesta linha, distinguindo o que é ciência e religião.
Também a publicação da Enciclopédia, a cargo, entre outros, de Diderot e d’Alembert, tentou compreender o mundo à luz da ciência, distanciando-se da crença sobre a teoria retributiva preponderante até essa altura na sociedade cristã da época.
No dia 6 de fevereiro de 2023, semelhante catástrofe abalou a Turquia e a Síria, atingindo indistintamente ricos e pobres, velhos e crianças, crentes e não crentes. Não é o momento de fazer reflexões filosóficas ou teológicas, face a tanto sofrimento e desolação. Também ali não faltarão Malagridas a desviar a população do essencial e a voltá-los uns contra os outros nesta região multicultural que composta de turcos, curdos, azeris, chitas, sunitas que têm necessidade de reconstruir solidamente as suas habitações e de viver em paz. E já que estamos a sonhar, oxalá que ali surgisse um outro Voltaire muçulmano que pudesse iniciar uma verdadeira primavera islâmica.

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