A expansão da NATO

As medidas tomadas pela cimeira da Aliança Atlântica,

que se realizou em Madrid representam pesadas derrotas políticas para a Rússia. “Cortesia” de Putin?, perguntava Teresa de Sousa no seu artigo publicado no “Público” de 28 de junho.
O que o ditador do Kremlin, celebrado por muitos comentadores e “pensadores” políticos cá do burgo, que o elevaram à qualidade de estratega cheio de visão, conseguiu afinal foi reforçar a NATO, contribuir para o seu alargamento com a integração da Suécia e da Finlândia – os dois países escandinavos que, perante a agressão da Rússia à Ucrânia, decidiram reverter a sua política de neutralidade e candidatar-se à NATO – e unir o Ocidente. Além disso, o seu percurso estratégico, a par das atrocidades militares que patrocinou, foi essencial para isolar os seus apoiantes internos que, atingidos por cegueira ideológica incurável, justificavam ou defenderam a Rússia na guerra sangrenta que desencadeou com a invasão da Ucrânia.
Permita-se-me um breve parêntesis, para fazer uma simples reflexão sobre a NATO e o seu papel internacional. Compreendo que os marxistas convictos sejam adversários assumidos e tenazes da Organização. Afinal, todos conhecem o alinhamento da “Organização do Tratado do Atlântico Norte” (OTAN, no acrónimo em português) na defesa intransigente dos valores democráticos, fiel ao objetivo de garantir a liberdade e segurança dos seus membros através de meios políticos e militares.
Do ponto de vista político, a NATO promove valores democráticos entre os seus membros, patrocina a consulta e a cooperação em matérias relacionadas com a defesa e segurança com vista a resolver problemas, desenvolver confiança e, a longo prazo, evitar conflitos. No domínio militar, a NATO privilegia a resolução pacífica de litígios. No caso de os esforços diplomáticos falharem, a NATO conta com poder militar para realizar operações de gestão de crises. Estas são realizadas no âmbito da cláusula de defesa coletiva do tratado de fundação da NATO (artigo 5º do Tratado de Washington) ou no âmbito do mandato das Nações Unidas (ONU), individualmente ou em cooperação com outros países e organizações internacionais.
Ou seja, se compreendo e aceito a antipatia e, até, o ódio à NATO por parte dos comunistas – ou não fossem os EUA o grande motor da Organização -, já não compreendo a má vontade que lhe é votada por democratas, respeitadores dos direitos humanos e do modus vivendi ocidental.
Surpreender-se-ão alguns: mas o grande propósito de Putin não era justamente o de impedir o “perigo” que a NATO constituía para a Rússia, afastando-a das suas fronteiras e enfraquecendo-a? Pois era… Mas o “génio” do Kremlin conseguiu, com extremo sucesso, exatamente o oposto…! Ou seja: “Putin conseguiu fazer renascer o Ocidente quando o seu grande objetivo era enfraquecê-lo”.
É certo que, militarmente, a superioridade russa tem registado algumas vitórias no Leste e no Sul da Ucrânia, num cortejo fatal de vítimas e de destruição. Mas do que agora estou a falar é da vertente política. Aí a derrota russa é indiscutível! A irresponsabilidade criminosa do líder russo provocou o que julgo ser irrecuperável por muito tempo a vir: o isolamento da Rússia perante o Ocidente e, também, face a muitos países do Terceiro Mundo, que vão tomando consciência das responsabilidades da Rússia na devastação dos campos de cultura da Ucrânia, como pelo furto de cereais, pelo bloqueio dos portos que impede a sua exportação. É a “guerra da fome” para seres inocentes de paragens distantes, frágeis entre os mais frágeis do planeta!
Na cimeira de Madrid, há dias terminada, conseguiu-se aprovação do novo conceito estratégico da NATO que reforçou de um modo exponencial os “efetivos em prontidão”, que passaram de cerca de 40.000 para 300.000. E aceitou-se a adesão da Suécia e da Finlândia, depois de ultrapassadas as objeções da Turquia.
Como António Barreto escreveu, “a Rússia, o ditador Vladimir Putin, o Governo, a classe dirigente e as Forças Armadas são atualmente os piores inimigos da liberdade e da democracia, da Europa e do Ocidente. O Governo russo não quer que os exemplos de democracia e liberdade contagiem o seu povo” – cfr. “O pior inimigo”, PÚBLICO, 25 de junho, pág. 3. São intoleráveis para a consciência das pessoas normais, respeitadoras dos direitos humanos, as atrocidades cometidas pelos russos na Ucrânia: violações, torturas e assassínios de pessoas indefesas, o bombardeamento indiscriminado de edifícios residenciais, fábricas, teatros e centros comerciais, escolas e hospitais …. razia total! Guerra é guerra, mas também tem regras, que vêm sendo deliberadamente violadas. Todos assistimos, incrédulos e impotentes aos horrores que as TVs transmitem incessantemente. A Morte cai-nos positivamente no prato! A Rússia não poderia ter revelado com maior clareza e à escala universal, a sua verdadeira face. E pior! – como escreveu António Barreto, no acima referido artigo, “a Rússia ameaça a paz europeia e mundial. É um risco mortal para os seus vizinhos. É um perigo para toda a Europa. Reintroduziu a violência e a guerra nas relações internacionais”.
Bem se compreende assim que, em Madrid, a NATO tenha qualificado a Rússia como a maior ameaça à segurança no mundo.
A reunião magna de Madrid é a última das três cimeiras que têm a guerra da Ucrânia como fundamento de fator determinante. No Conselho Europeu de 23 e 24 de junho, a União Europeia atribuiu à Ucrânia o estatuto de país candidato à adesão, numa resposta firme que é uma demonstração de unidade e de determinação. Na cimeira do G7, na Baviera, foi ainda exuberante a manifestação de solidariedade das democracias mais ricas do mundo para com os países em desenvolvimento nas tristes perspetivas que se avizinham em sua consequência.
Última hora – Em Portugal, à sombra da nossa paz ribeirinha, fomos servidos pela inesperada, inacreditável, inadmissível trapalhada criada pelo ministro Pedro Nuno Santos (PNS): antecipando-se a tudo e a todos, fez publicar em Diário da República um despacho a anunciar a decisão definitiva sobre a localização e o faseamento para o projeto de construção … do novo Aeroporto de Lisboa!?. “Cadê” o aval do Primeiro Ministro e do Governo? Onde fica o Presidente da República? Papel de embrulho para todos? António Costa participava na cimeira da NATO. Fez, de lá, um ultimato público a P.N.S. no sentido de revogar imediatamente o despacho. Chegado a Lisboa, recebeu o ministro “enxovalhado”, o qual, numa declaração dessa tarde, surpreendentemente, esqueceu a humilhação, não se deu por achado e declarou manter-se no governo. Em conferência de imprensa, foi pedindo desculpa aos colegas de Governo, ao Primeiro-Ministro e até ao Presidente da República, pela “falta relevante”(?!!!) que assumia na totalidade. Talvez farto de guerra(s), António Costa considerou o erro corrigido, o caso encerrado e o Ministro…FICA! O PR respondeu “à chove-não-molha” como ele tão bem sabe. E os brasileiros vão incluir uma cópia deste episódio numa telenovela … E esta, hem?
Lisboa, 1 de julho de 2022

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