A adaptação do turismo a novas realidades

Se houve sempre vontade de arejar e de tomar ares para sair da monótona terra que pisamos todos os dias, os comportamentos dos viajantes não seguiram o mesmo caminho. Não só os destinos foram mudando, como também os meios de transporte evoluíram.

Lembro-me de ter trabalhado como garçon de café na designada Côte d’Opale no norte de França, Normandia, no fim dos anos sessenta do século passado, e as praias que vão de Boulogne-sur-Mer até ao Havre enchiam-se de turistas provenientes de Paris, pois aquele era um destino que ficava próximo da capital francesa, a uns cem quilómetros, assegurado pelo transporte do caminho de ferro. Quando, por vezes, passo por aquela zona, mais para matar saudades, vejo uma região quase abandonada, com amplas vivendas um pouco deslavadas, algumas ao abandono, que fazem lembrar uma época em que as pessoas acreditavam no potencial turístico da região e que se prolongaria por tempos infindos.
Nessa época, ainda não se percebia que o turismo iria mudar, não só devido aos novos meios de transporte, mas também motivado pelo gosto dos clientes, por sua vez influenciado pelo marketing dos operadores turísticos. As grandes mudanças surgiriam no final dos anos sessenta. Os trabalhadores a quem os patrões foram obrigados, por força da lei, a conceder férias pagas, começaram a tomar gosto de sair de casa e ir à procura de outras paragens. Pouco a pouco, o comboio, grande meio de transporte, foi substituído pelo pequeno automóvel familiar, com as estradas já asfaltadas em quase todo o território.
Nos anos setenta os transportes internacionais multiplicaram-se; surgiram os boeings 747, os comboios com as locomotivas elétricas; as viagens transoceânicas evoluíram em modalidades de cruzeiros. Foi o petróleo barato e abundante que permitiu a democratização do turismo e, em seguida, o designado “turismo de massas”.
Em França, descobriu-se a Côte d’Azur; em Portugal, o Algarve. Houve a avalanche do turismo espanhol que transformou completamente a costa mediterrânea e atlântica. Os turistas deslocaram-se para o norte de África -— Marrocos, Tunísia, com sol e preços que desafiavam toda a concorrência.
Experimentaram-se os lugares paradisíacos da Tailândia, do Vietnam e de outras paragens de sonho do oriente. Todos estes destinos transformaram o habitat tradicional que foi adaptado às exigências de clientes à procura do insólito, do surpreendente.
Com as mudanças climáticas que fazem subir as temperaturas de uma maneira alarmante, os destinos turísticos vão, de novo, modificar-se. Vai pensar-se duas vezes antes de reservar férias para destinos suscetíveis de atingirem temperaturas que ultrapassam os quarenta graus. Toma-se consciência das consequências para a saúde dos malefícios do sol e tende-se evitar férias em praias com areia escaldante. Descobrem-se os benefícios do ar fresco das montanhas e dos países com um clima temperado.
O turismo tende a ser conjuntural e um fenómeno de moda. Os destinos que atualmente têm uma grande afluência, por razões acima expostas, podem tornar-se menos apetecidos e até deixados de ser frequentados, provocando lugares desertos. Os investidores terão de se adaptar e certamente que já estão a fazer os respetivos investimentos e a orientar os desejos dos futuros turistas para outros destinos mais conformes ao bem-estar e ao repouso necessário de quem procura um bom tempo de férias.

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