2023: “Homens, Sede Homens! (Paulo VI)

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz –
Ter por vida a sepultura

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
…………….
F. Pessoa

Dois vultos assinaláveis do século XX interpelam a humanidade: o papa Paulo VI e Fernando Pessoa. Foi com este desafio, expresso no título, que o papa iniciou a homilia em Fátima, na sua visita a Portugal, na década de 60. Numa concepção idêntica, Fernando Pessoa define o homem como alguém que deve estar em permanente inconformismo, em eterna insatisfação: “ser descontente é ser homem”. A afirmação deste verso, que é um convite à acção, ao sonho, à perseguição do ideal de nobreza, à luta diária, à busca da perfeição, à promoção da paz, que é o que encerra o apelo do chefe da Igreja de então, em que ser homem é ser agente do bem no meio da sociedade. Na mesma concepção de homem, mais uma vez recomenda Fernando Pessoa: “Põe tudo quanto és, no mínimo que fazes”.
Por outro lado, esta afirmação opõe-se à inação implícita nos versos “Triste de quem é feliz”/ Triste de quem… é Contente” com que se iniciam as primeiras duas estrofes deste poema de A Mensagem. O autor tenta despertar o homem para a sua função na terra, considerando-o um “triste”, que, neste contexto, esta palavra tem a conotação de inválido, de indigno, de comodista, de egoísta, de instalado, de refastelado, ocioso… Noutro poema, o mesmo autor apelidá-lo-á de “cadáver adiado”, “besta sadia”, que desde que esteja com a barriga composta, por nada mais luta.
Os homens serão dignos desse nome, se colocarem todas as suas capacidades ao serviço da humanidade, nos diferentes domínios, conforme os talentos de que são portadores, procurando que o hoje corrija o ontem, na busca da almejada perfeição – deve ser este o ideal humano, que obrigatoriamente fará de nós eternos insatisfeitos, porque somos, por natureza, limitados. E ainda bem! Mas, no final, depois do esforço, da luta, vêm “os beijos merecidos da verdade”(F. Pessoa) que Camões também sintetiza em dois belíssimos versos: “Caminho da virtude, alto e fragoso/Mas, no fim, suave, alegre e deleitoso”.
Como seria belo o mundo implícito nas palavras destes Homens e, em vez da horrorosa guerra, com que somos brindados diariamente, teríamos a benfazeja paz e os homens seriam, realmente Homens.
Portanto, homens, sede Homens!

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