Entrevista: António Manuel de Oliveira Bogas, 1.º Oficial General da Guarda Nacional Republicana


António Manuel de Oliveira Bogas, natural do Sabugal, é o 1º Oficial General da Guarda Nacional Republicana.No dia 15 de Junho de 2021, recebeu a Espada de Oficial General, numa cerimónia que assinalou um momento histórico para a Guarda Nacional Republicana, sendo o culminar de um processo iniciado em 1991, com a formação dos oficiais da Guarda, na Academia Militar. A entrevista é conduzida, para o jornal A GUARDA, por José Carlos Lages, responsável pela página do Capeia Arraiana. 
A GUARDA: Tinha consciência de que seria possível chegar a Oficial General da Guarda Nacional Republicana?
António Bogas: Sou o mais antigo, estou em primeiro lugar desde que saí da Academia Militar. Neste momento não tenho ninguém à minha frente no ‘quadro’. Mas neste meu percurso possivelmente se não tivesse a determinação, dedicação, espírito de bem servir, o sentido de dever… e competência, não teria sido fácil.Mas também é verdade que somos fruto das circunstâncias e como gosto de dizer aos meus filhos a sorte custa muito a conquistar. E não escondo que estava no sítio certo no momento certo. O meu curso foi todo promovido em 2012 a Tenente-Coronel mas só eu e outro camarada é que fomos promovidos em 2016 a Coronel. Os de ‘armas’ não conseguiram. Nós somos do quadro da Administração Militar e não tínhamos ninguém à nossa frente. Agora não escondo que quando acabámos a Academia Militar todos tínhamos esse objectivo. Nunca vivi obcecado com isso mas quando cheguei ao posto de Tenente-Coronel comecei a pensar que podia lá chegar.
A GUARDA: Mas há, também, o reconhecimento dos pares, dos superiores?
António Bogas: Há coisas de que me orgulho. O reconhecimento dos subordinados e dos pares. A questão de sermos comandados por Generais do Exército em comissão de serviço na Guarda não invalida que haja uma identidade própria. A minha escolha da GNR no final do primeiro ano da Academia Militar resulta da análise que fiz no momento e percebi que seria o primeiro curso de oficiais da Guarda para elementos oriundos da Academia. Na Guarda teria mais perspectivas do que no Exército e o progresso da minha carreira veio confirmar que estive certo. Todos os camaradas do Exército do meu curso ainda são Tenentes-coronéis.
A GUARDA: E como são recordadas as origens?
António Bogas: O meu avô paterno era da Aldeia da Senhora da Póvoa e a minha mãe é de Pedrógão de São Pedro, Penamacor. Os meus pais quando casaram foram viver para o Sabugal. O meu pai emigrou para a Alemanha e a minha mãe foi lá passar uma temporada. Naquele tempo, na cidade de Colónia, havia uma comunidade muito grande de sabugalenses, os Bogas, os Cunhas… Entretanto a minha mãe engravidou e aos cinco meses de gravidez o meu pai achou que eu devia nascer em Portugal.A minha mãe ficou comigo e a minha irmã no Sabugal até eu ter cinco anos. Depois foi ter com o meu pai e nós ficámos no Sabugal. A minha irmã com 12 anos fez o lugar de segunda mãe. E foi aí que fomos para casa do Quim Roquete, pai da Júlia Bogas, e estivemos lá até a minha irmã casar com 18 anos. Fui viver com ela cerca de um ano e meio. No Sabugal estudei até ao 9.º ano e depois fui para a Guarda, para a Escola Secundária da Sé, até ao 11.º ano. Mas não me habituei à cidade…Os meus pais regressam de vez da Alemanha em Maio de 1984. Tinha na altura 18 anos e não estava habituado a estar com os meus pais fora das férias. Estudava e pertencia aos Bombeiros Voluntários do Sabugal. Recordo que eu e o Vítor Nogueira fomos escolhidos para ir ao Porto tirar o curso de tripulante de ambulância. Eramos os mais novos dos distritos de Viseu e Guarda e eu fiquei em primeiro no curso. Nesse ano decidi concorrer à Força Aérea para cabo especialista de Mecânico Material Aéreo. Fui um dos sete apurados entre 70 candidatos. Deram-me logo a guia para ir para Tancos. Na altura já namorava a minha mulher e comecei a pensar que não a podia deixar no Sabugal porque ela era muito bonita e ainda ma podiam roubar… E resolvi telefonar a desistir.
A GUARDA: Recordações da infância e juventude no Sabugal?
António Bogas: É esta a história de um rapaz que nasceu nas terras raianas do Sabugal, filho da emigração, que cresceu sem os pais e que aprendeu a sobreviver sem a mão paterna. Olho para a minha irmã e ela é uma segunda mãe. Foi quem me protegeu com 12 anos e tinha eu cinco. Aprendi muito cedo a dureza da vida. Era filho de emigrantes e tinha algum desafogo financeiro mas sempre vivi com humildade.Desse tempo recordo principalmente os amigos. Fiz parte da «elite bardina» da minha juventude. Na altura o Carlos Carriço (que está na Câmara) era o líder, o Zé Passarinho, o Hélio… Cresci na vila junto ao Castelo, dos cinco aos 10 anos, em casa dos pais da Júlia. Num raio de 50 metros eramos três: Eu, o Zé Luís Costa e o Carlos Eduardo. Os outros dois já faleceram. O Costa no dia em que fez 24 anos e o Carlos Eduardo em Janeiro de 2012. Os meus pais sempre viveram junto à tasca do Robalo. Agora a minha mãe vive ao pé do senhor Manuel Alfaiate, junto às escolas. Ainda o outro dia disse ao meu cunhado Chapeira que mais importante que as estrelas que ostento nos ombros são as estrelas que brilham todas as noites no céu e me têm protegido. O meu pai, os meus amigos de infância, os meus três camaradas e os outros familiares… E eu acredito nisso.Foi uma infância dorida porque não vivi com os meus pais emigrados na Alemanha mas tive uma adolescência espectacular. Namorei a rapariga mais bonita do Sabugal, a minha mulher Anabela. Tenho muito orgulho na Raia. Não pertenço a nenhuma agremiação e sou desprendido de valores que outros consideram fundamentais. Gosto de dizer o que sinto e penso. Não gosto de estar refém de nada nem de ninguém. Sou um irreverente consciente. Nunca pedi favores em termos de carreira. E é isso que me enche de orgulho para quem nasceu no Sabugal, filho de pais emigrantes, dum pai humilde que fez a quarta classe em adulto para tirar a carta de condução, enfim… sou um filho da emigração. Não vou esconder que sinto orgulho no que conquistei.E uma das coisas que mais me agrada é chegar ao Sabugal e aqueles senhores de oitenta anos agarrarem-se a mim e chamarem-me Olímpio como se chamava o meu pai. É o Sabugal no seu melhor! Eu vou continuar a ir ao Tó de Ruivós a beber umas minis porque nada se alterou na minha vida pessoal. No Sabugal gosto quando me reconhecem pelo Tó Mané Bogas.Antes, diziam-me que tinha um feitio difícil mas agora gosto de dizer que tenho um feitio especial. Sou frontal e há quem não goste de frontalidade que, por vezes, confundem com indelicadeza. Gosto do diálogo, gosto de ouvir mas quem decide sou eu. Por vezes, confunde-se a exigência com o mau feitio. Não aceito passar à porta de armas e que o indivíduo não se levante. Se me conhecem devem levantar-se, se não me conhecem têm de perguntar quem sou. É assim que está instituído no regulamento é assim que tem de ser feito.
A GUARDA: Quando tem início o seu percurso militar?
António Bogas: Entrei a 19 de Janeiro de 1987 para o serviço militar obrigatório e fiz a recruta na Figueira da Foz, na Escola Prática de Transportes, que curiosamente agora é um quartel da GNR. Ao segundo mês de lá andar vejo um anúncio no bar dos instruendos para concorrer ao Curso de Formação de Sargentos do quadro do Exército. E sem saber ainda o que era a vida militar, estando ainda na recruta e não tendo nenhum familiar fardado nunca me tinha passado pela cabeça ser militar. Mas, mesmo assim, resolvi concorrer…Jurei bandeira a 23 de Abril e fui colocado como ‘soldado condutor’ no Batalhão do Serviço de Material no Entroncamento. Os outros saiam à noite ou vinham até Lisboa e eu ficava a estudar para o exame até às nove da noite, hora a que dava o toque de recolher e silêncio e apagavam a luz na camarata.Estou agora a recordar um episódio da viagem ao Porto quando ia fazer as provas para «sargento» à Escola Prática de Transmissões. Saí na estação em Coimbra e um cão, sem mais nem menos, mordeu-me numa perna. Fiz as provas no Porto e entre quase dois mil concorrentes e fiquei aprovado em 12.º lugar. Vivi com intensidade o primeiro ano nas Caldas da Rainha, tendo ficado classificado em quarto lugar. Decidi escolher, com convicção, o serviço de Administração Militar. Não conhecia em pormenor, mas considerei que tinha apetência para aquele serviço. Vim fazer a segunda parte do curso na Escola Prática de Administração Militar (EPAM) no Lumiar, onde é agora uma universidade. Fique classificado em primeiro lugar no 16.º Curso de Formação de Sargentos de Administração e, entretanto, faço o 12.º ano à noite na Escola Secundária da Cidade Universitária. Mais uma vez os outros saiam e eu ficava a estudar.
A GUARDA: Isso de ficar em primeiro lugar começa a ser um hábito?
António Bogas: Parece fácil mas dá muito trabalho… E foi mais um momento em que a vida ‘parece ter decidido’ por mim. Tirei boas notas no 12.º ano e tinha média para entrar em Economia ou Gestão no ISEG ou no ISCTE. Tive dúvidas e concorri também à Academia Militar. No dia em que tinha de ir fazer uma prova de admissão no ISEG fui escalado para uma cerimónia militar e faltei acabando por fazer provas só para a Academia Militar…Entrei e fiquei em quarto da geral no primeiro ano. E no início do segundo ano lectivo em 1992 abre o curso para a GNR pela primeira vez. E eu vejo… duas vagas para «GNR Administração». Os dois primeiros escolhem «Exército» e o terceiro e eu escolhemos «GNR Administração». E a escolha estava feita por convicção! No quinto ano, no final do curso, fiquei em primeiro lugar da GNR. Eramos 23 alunos. Um morreu no último dia de aulas do terceiro ano na Academia a fazer slide. Era o Calado, um grande amigo meu que eu gostaria de recordar hoje. Depois o Raimundo da arma de Cavalaria, já Tenente, faleceu em 1999 e, infelizmente, em Março do ano passado deixou-nos o Lourenço de Moimenta da Beira. Era o segundo comandante da Territorial da Guarda. Eram os três meus grandes amigos que quero recordar nesta conversa.
A GUARDA: E a partir daí foi um percurso com o desempenho de várias funções…
António Bogas: Quando termino o curso sou colocado no Comando-Geral da GNR, no quartel do Carmo, no Conselho Administrativo. Passado ano e meio considerei que devia ir para uma Unidade para ter a experiência de desempenhar funções de administração fora do comando. E fui para adjunto do chefe de contabilidade na maior unidade da GNR, a Brigada Fiscal, dispersa por todo o País. Entretanto tive de fazer um interregno em 1999 na Brigada Territorial n.º 4 no Porto. Passei a chefe da contabilidade com o cargo de financeiro-logístico. Foi gratificante e adquiri grande experiência.Mas em termos pessoais 1999 foi um ano terrível. Em Fevereiro faleceu o Raimundo, em 27 de Março o meu pai e depois entre Abril e Maio as duas avós da minha mulher e, entretanto, fomos os três operados cá em casa.Voltei para a Brigada Fiscal. E fui ao Curso de Promoção a Capitão. No final fui convidado a dar aulas na Academia Militar, onde estive durante dois anos a ensinar contabilidade e logística.
A GUARDA: O que vai mudar na GNR?
António Bogas: Há muita coisa que tem de ser feita. Tenho algumas ideias na cabeça em especial para a minha área. Neste momento é importante dar um sinal para fora mas dar, também, um sinal para dentro. Temos de solidificar a nossa posição, emanciparmo-nos, porque é possível que a Guarda ganhe eficiência. Tem de ser comandada pelos oficiais da Academia Militar mas que sejam da GNR. Chegou o momento. Espero que as mudanças comecem a acontecer. Depende de mim e dos 23 mil militares da Guarda. Depende de todos. A persistência, a determinação, a dedicação conduz-nos a este momento.
A GUARDA: Ao fim de 110 anos é chegado o momento?
António Bogas: É chegado o momento! Fez 110 anos no passado dia 3 de Maio. Ao fim de 30 anos em que os contribuintes portugueses andaram a pagar formação superior específica de base para sermos Oficiais da GNR e sermos os comandantes da Guarda, os Generais do Exército têm de regressar à sua Instituição, manifestando-lhe o devido agradecimento pelos anos que estiveram no leme da GNR.Devo tudo o que sou à Guarda (GNR), aos meus subordinados, a alguns chefes e comandantes que me ensinaram e há uma característica comum desde o pelotão da recruta. Sempre tive comandantes muito exigentes e quero recordar aqui alguns: o Aspirantes Gomes na recruta; o Segundo-sargento Margalho, comandante de pelotão do Curso de Formação de Sargentos; o Álvares e o Dias, dois Tenentes na formação militar na Academia. O seu modo de ser moldou-me o feitio para ser exigente.
A GUARDA: E agora General Bogas?
António Bogas: Espero passar a ter mais tempo para a família e espero que na Guarda o cargo me permita mais tempo para pensar e planear, ao invés de executar. Infelizmente há um paradigma na Guarda em que os militares vão subindo nos postos mas continuam a não ter tempo para pensar, escutar e planear. Quero mudar esse paradigma. Ser um general que pense, que planeie, que organize e não tanto um general para executar que é aquilo que eu tenho visto ao longo do meu percurso. A GNR precisa de quem pense «à GNR» e que a sinta por dentro e isso não tem acontecido. Pensar a curto, a médio e a longo prazo.A GUARDA: E para a malta do Sabugal?
António Bogas: Destaco a humildade das pessoas daquelas terras. Vivemos e contentamo-nos com pouco e foi dessa humildade que nasceu esta ambição pessoal de crescer cada vez mais e dizer que podem continuar a contar com o Tó Mané Bogas e que quero manter-me fiel a mim próprio e à minhas raízes.E uma palavra final para a minha família. A minha mãe, a minha irmã e as minhas sobrinhas em paralelo com a minha mulher e os meus filhos é tudo o que tenho de mais importante.