Fruto dessa bela colheita de 1953, nascido em Torres Vedras, mas com raízes familiares na Beira Alta

mais propriamente em Longroiva, uma importante povoação, pertencente à Meda mas próxima de Trancoso, no distrito da Guarda - este poeta irrompeu no nosso meio literário com grande determinação. Em apenas três anos deu a público cinco livros, todos com a prestigiada chancela da Editorial Minerva: um em 2017 (Sob este título); dois em 2018 (Antídotos e Excertos Incertos) e dois em 2019 (Ponto Infinito e Branza).
Os quatro primeiros livros formam uma série, a que ele chama quadrologia, e recolhem a poesia escrita entre 1970 e 2017. Todos obedecem a uma mesma linha gráfica, apenas variando a cor da capa - verde, vermelho/acastanhado, azul e amarelo torrado. Todos têm igualmente badanas com informações e poemas, alguns não constando do corpo dos respectivos volumes, assim os aumentando.
O último título, Branza, é que já não respeita a mesma orientação gráfica, talvez por acolher a poesia mais recente do autor, escrita, ou reescrita, nos anos de 2018 e 2019.
A característica que me parece ter maior relevância na óptica do leitor é, no entanto, o facto de as composições não serem datadas. Não sabemos, assim, se na organização dos quatro primeiros volumes terá sido seguida alguma ordem cronológica (a natural ou a inversa) ou se o critério adoptado foi diferente. Que tenha sido uma organização por temas ou assuntos não me parece, já que os mesmos se repetem de uns para outros. Também não creio que tenha sido um critério qualitativo, decrescente, a presidir à organização dos vários conjuntos.
Começarei por dizer algo sobre a variação formal da poesia de José Pascoal para realçar como me parece que o fascínio do soneto - que ele entende com grande maleabilidade, sobretudo no que se refere à dimensão do verso - se tem vindo a perder. Os poemas, como disse, não são muito extensos e a dimensão do soneto, esse chicote de catorze pontas como pretendia Júlio Dantas, é, talvez, das mais elevadas. Já tenho mesmo pensado que uma forma válida de aproximação a esta poesia poderia ser através dos seus sonetos, quase sempre no molde italiano que o consagrou.
Branza representa bem, como disse, a poesia do autor. A começar pela humildade do título - que terá algo a ver com a epígrafe que o introduz: caruma, sama, agulha de pinheiro, em qualquer caso algo de humilde e simples. (Os termos são razoavelmente sinónimos e sama não é gralha, como inicialmente pensara.) E esta poesia parece-me, no geral, não se levar muito a sério, no seu desenfastiado comentário do quotidiano __ que tal é a síntese, certamente discutível, a que me atrevo.
Diálogo com D. Quixote, na página 78, poderá ilustrar o que eu quero dizer: Defino o poema / Como desperdício, / Inocente vício / Sem mote nem lema. // E nenhum problema / Funda seu início: / Alto precipício / Para quem o tema. // Mas não é assim! / __ Brada o cavaleiro / Da fraca figura. // Versos têm um fim… / Geme o caminheiro, / Com voz insegura.
Os temas são naturalmente variados, havendo aqui e ali lugar a experiências formais, através de enumerações: logo na página 8 todos os versos do poema, Dádiva, começam por Deram-me. Ainda que predominem os aspectos do quotidiano, tanto na vivência do campo como da cidade, José Pascoal não foge a referências artísticas, no cinema e sobretudo na literatura: Camilo, na pág. 31, em que todos os versos do poema, Saber perder, começam por Perdi; Maeterlinck, na pág. 56; Shelley, na pág. 66; Camões, na pág. 70; Lorca, na pág. 89; Prévert, na pág. 101; Diógenes, na pág. 152. Há títulos em latim: Via crucis, na pág. 60; Cave canem, na pág. 79; Fiat lux, na pág. 135.
Não resisto a transcrever, ainda, o pequeno poema da pág. 57, Aos poetas vindouros, por ser um pequeno mimo de ironia, e uma homenagem à poesia brasileira: Catulo amava Clódia, / Que amava Clódio, / Que amava Célio, / Que amava Clódia, / Mas Clódia não amava Catulo, / Que não amava Clódio, / Nem Célio, / E, por isso, escrevia / Poesia. E bem lamento de nesta tão prazerosa exemplificação mais me não poder alongar.
A par desta saudação, e para terminar, queria ainda expressar o desejo de que o seu exemplo possa frutificar e expandir-se. Quantos poetas ignorados não haverá por aí? Que eles ponham os olhos em José Pascoal, se atrevam e apareçam. Decerto que todos nós, os que vivemos a poesia, os aguardamos. Bem sabendo que todos, por mais que sejamos, nunca seremos de mais.