Pontos de Vista

A memorável apresentação aos portugueses da “Final 8” da Champions em Lisboa deixou-me um travo misto de prazer e de desgosto. Houve pompa e circunstância no anúncio: as altas figuras do Estado honraram-no com a sua subida presença em Belém, ao som de charanga e fanfarra, e triunfais toques de trombeta; depois foi a “dança” dos cumprimentos entre todos os presentes, “mascarados” como convinha – Presidente da República, de exuberante mestre de cerimónias, Presidente da Assembleia da República, Primeiro ministro, ministros da Economia, Educação e Saúde, Secretário de Estado dos Desportos, Presidente da Federação Portuguesa de Futebol – numa coreografia de hilariante parolice, de fazer rir os cidadãos  pacatos que amam a “bola” pelo que ela é e faz sonhar sem estes artifícios para basbaques. É que, com o devido respeito, foi verdadeiramente impagável o voltejar dos cumprimentos de toda aquela gente importante à cotovelada, os olhos franzidos sorrindo por cima das máscaras, dando a entender um certo ar comprometido, fazia lembrar uma daquelas danças de fim de festa em que já todos trocam o passo e ninguém acerta. Assim um “baile de tolos”, com idosos a fazerem de miúdos e outros, mais jovens, armados em salvadores do turismo e da economia da Pátria. Todos, porém, de ego impante e mui senhores da figura que estavam a fazer!Ou não se tratasse, como foi acentuado, de uma grande vitória de Portugal, escolhido, no dizer do nosso P.R., “pelos seus méritos e pela transparência no combate à pandemia, sem forjar números”. Como o Presidente Marcelo (MRS) salientou, Portugal é agora recompensado pela “situação notável que se verifica no Serviço Nacional de Saúde (SNS) em termos de internamento e de internamentos em cuidados intensivos e pela forma como prossegue o combate à COVID-19, sem forjar números e mantendo a transparência”.Como foi triunfalmente salientado, Lisboa ganhou a corrida a Frankfurt e Moscovo, pelo que vai organizar a “Final Eight”, com sete jogos entre 12 e 23 de agosto. Daí que o PR, num arrebatamento de entusiasmado patriotismo, tenha sublinhado que a “Champions” em Lisboa é “magnífica notícia: não tem preço!”, sendo “um caso único e irrepetível”. Para não destoar nem ficar atrás, António Costa afirmou enfaticamente que tal decisão da UEFA é “um prémio merecido aos profissionais de saúde”. Embora a declaração tenha sido interpretada algo malevolamente, num sentido que vai além da intenção do declarante, não pode deixar de se reconhecer que o primeiro ministro não foi feliz. Diz-me quem ouviu a transmissão direta que, logo no momento, a afirmação sugeria o torrão de açúcar que se dá ao cavalo que se porta bem numa prova hípica. Foi verdadeiramente uma “animalada” como dizem os nossos vizinhos espanhóis. Aliás, a onda de críticas que se lhe seguiu é bem a prova disso, embora se possa sempre relevar a boa intenção…Mas, mais grave é o facto de as mais altas figuras do Estado terem “embandeirado em arco” numa festiva celebração do sucesso do nosso combate ao vírus e do êxito do SNS.Porque tudo isto se passou no dia 17 de junho (isto é, há menos de 15 dias da data em que escrevo estas linhas) num momento em que já há muito eram conhecidos os resultados que revelavam o agravamento da situação da pandemia em Lisboa e Vale do Tejo e se multiplicavam as críticas à falta de um planeamento adequado por parte das autoridades sanitárias e ao Ministério da Saúde. Ou seja, os foguetes foram lançados fora de tempo, quando os resultados já eram preocupantes. Cá dentro e lá fora.  A prová-lo o facto de países da União Europeia colocarem Portugal na lista negra dos visitantes, a par da Inglaterra que não está nada brilhante, como se sabe.Quando já eram conhecidos os surtos crescentes que semeavam a preocupação no País, nomeadamente na Grande Lisboa, quando alguns transportes públicos circulavam em sobrelotação, quando alguns hospitais atingiam o ponto de saturação ou, mesmo, de rotura e não se divisava uma adequada coordenação das necessidades e dos meios hospitalares, quando os  passageiros dos aviões não eram convenientemente rastreados à chegada ao nosso país, quando as queixas do Bastonário da Ordem dos Médicos e de responsáveis das Associações de Saúde se multiplicavam criticando a falta de auscultação dos médicos de saúde pública e dos técnicos de saúde no terreno, é nessa ocasião que é tomada a  decisão ao mais alto nível do Estado, de soltar o fogo de artifício para celebrar a grande vitória do País e de Lisboa, na organização da “Final-oito” da Champions. Estamos a brincar!!!! Por seu lado, o Ministro Pedro Nuno Santos, no seu estilo impetuoso e muitas vezes intempestivo, veio à Assembleia da República vociferar, afirmando que os comboios só acidentalmente terão circulado em sobrelotação. Pois, Senhor Ministro, mas para o contágio, isso é o suficiente! Resolvam os problemas dos transportes públicos - dos comboios e dos autocarros circulando com excesso de utentes -, resolvam os problemas dos lares de idosos que continuam a ser cemitérios de velhos, resolvam os problemas da eficácia do rastreamento dos contagiados e dos seus contactos. Ouçam os especialistas mais qualificados e experientes. Entendam-se! Ponham em funcionamento a app (aplicação a descarregar nos telemóveis) que permite esse rastreamento, bem como o estabelecimento de contactos expeditos com quem conviveu ou se cruzou com os contagiados. Num contexto de pandemia, ou seja, de emergência de saúde pública, com cerca de 300 a 400 novos infetados por dia, e asseguradas as garantias de voluntariado e anonimato, não se justificam excessos burocráticos, nem a invocação de eventuais riscos de violação da privacidade por parte da Comissão Nacional de Proteção de Dados.Todos estes problemas já deveriam ter sido objeto das medidas adequadas. Assim se teriam evitado, porventura, os números de contágios crescentes que não podem deixar de afligir os residentes de risco na Grande Lisboa. Depois de uma primeira fase bem sucedida, estamos a sofrer um período de ressaca que poderá ter consequências na própria “grande vitória” que levou Lisboa a ser escolhida para ser a sede da Final Eight.Quando uma figura importante do PS como Fernando Medina, Presidente da C. M. de Lisboa, criticou, com veemência e com factos, as autoridades de saúde e o próprio Ministério da tutela, quando o 1º Ministro se insurgiu contra as evasivas da Ministra da Saúde e de especialistas presentes, numa das célebres reuniões do INFARMED, quando o Governo aparece partido a meio, com Pedro Nuno Santos e Duarte Cordeiro, a tomar partido pela Ministra Marta Temido contra Fernando Medina – não estamos a “desconfinar” – estamos a “desconfiar”.Lisboa, 1 de julho de 2020