“Vou estar muito activo, mesmo muito activo, para trabalhar para a justiça territorial, para a coesão comum”

Entrevista: Álvaro Amaro

Álvaro dos Santos Amaro, deputado do Parlamento Europeu desde as eleições europeias de 2019, renunciou ao cargo a 28 de Abril de 2023. Deixou o Parlamento Europeu, onde foi membro da Comissão da Agricultura e do Desenvolvimento Rural, esta quarta-feira, dia 7 de Junho. Com uma carreira política invejável, também foi Secretário de Estado da Agricultura, Deputado à Assembleia da República, Presidente da Câmara Municipal de Gouveia e também da Câmara Municipal da Guarda.
A promoção dos vinhos das regiões da Beira Interior, Dão e Bairrada, foi uma das últimas iniciativas que organizou enquanto deputado do parlamento Europeu.
Álvaro Amaro: Qual o balanço que faz da sua passagem pelo Parlamento Europeu? O que leva de positivo e também de negativo?

A GUARDA: Negativo, acho que não consigo apontar-lhe nada, porque é uma experiência riquíssima, mesmo para quem chegou cá com uma vida cheia em termos políticos. Ainda assim, e segundo aquele velho princípio em português, aprender até morrer, eu saio daqui muito mais rico em termos de aprendizagem, com uma cultura europeia forte, com a sensação clara, que já tinha, mas agora mais reforçada, da valia desse grande projecto Europeu. Não consigo, por isso dizer-lhe tive isto negativo. Sinceramente é tudo sinal mais como experiência fantástica, como enriquecimento de conhecimento absolutamente fantástico, com o conhecimento de pessoas fantásticas dos vários cantos da Europa, de cada um dos outros países.
E, ao fim destes anos, é natural, como aliás hoje foi manifesto, e esse é o meu grande orgulho, pois esteve aqui o próprio presidente da Comissão que é alemão, o coordenador da Comissão que é italiano, o próprio relator desse relatório, que ainda estamos a finalizar, das indicações geográficas, onde eu julgo, sem vaidade, poder dizer, olhe na defesa dos vinhos e de outros produtos, fizemos um trabalho fantástico.
Na minha saída eu confesso-lhe, que talvez, outra coisa não estarão à espera que eu próprio diga, eu não me estou a elogiar, não é auto elogio, é o reconhecimento de que talvez eu, em quatro anos, não pensasse que pudesse trabalhar tão intensamente e tão afincadamente. E, por isso, posso dizê-lo, de consciência tranquila e de coração aberto, foi o que fiz, e com um orgulho muito grande, porque isso eu senti o reconhecimento.
A GUARDA: Gostava de terminar o mandato como Eurodeputado?
Álvaro Amaro: Bom, sabe, eu só tive, que me lembre, dois momentos assim da minha longa vida política e espero que Deus me dê saúde para continuar com esta minha força e com esta minha actividade. Eu tive duas situações, uma foi quando vim para deputado europeu e interrompi o meu segundo mandato como presidente da Câmara da Guarda. É sabido a minha paixão pela vida autárquica. É sabido a minha honra muito grande de ser autarca e que tive em geral, e neste caso ser presidente de Câmara. Nesse aspecto ainda hoje sinto uma relativa dívida em relação à Guarda, porque saí a bem do segundo mandato.

A GUARDA: Gostava de voltar à câmara da Guarda?
Álvaro Amaro: Eu nunca deixarei de voltar à Guarda. Nunca! É de facto algo que está muito no meu ser. Eu e a Guarda estabelecemos uma relação de uma grande paixão. Os que possam ler isto que lhe estou a acabar de dizer, poderão dizer que isto é politicamente correcto ou que pode ser lágrimas de crocodilo, como se costuma dizer. Podem dizer o que quiserem! Sinceramente estou a ser totalmente honesto. Eu nunca deixarei de pertencer à Guarda, nunca deixarei de ir à Guarda, o resto não vou comentar nada, mas sinto essa minha divida de gratidão para com a Guarda. Essa dívida está compensada pelo trabalho, que penso que os guardenses conhecem, que eu tive e da mobilização que fiz e desta interacção com a sociedade guardense que eu não conhecia bem e por isso estabeleci essa relação.
Bom, mas perante estes desafios, aos sessenta e poucos anos eu achei que a Guarda não levaria a mal que eu tivesse esta experiência. Por isso foi uma interrupção boa, digamos assim. Boa, embora, também aqui e ali, incompreendida, que eu respeito.
Esta é uma interrupção que eu não tinha que fazer, é claro que a outra eu também não tinha que fazer. Eu não fui obrigado a vir para o Parlamento Europeu mas, face a tão honroso convite, acho que a Guarda percebia que eu ia poder adquirir ainda mais conhecimento. Esta interrupção eu não tinha que a fazer. Eu não vou, naturalmente comentar condenações judiciais, sempre disse que respeito a justiça.

A GUARDA: Mas ficou desiludido com a decisão do Tribunal da Guarda?

Álvaro Amaro: Fiquei revoltado, é muito mais que desiludido. Uma revolta interior muito grande que é de uma brutal injustiça. Eu não comento o Direito, eu não sou de Direito, mas é uma narrativa que está na sentença que é verdadeiramente impressionante. Se eu prevariquei foi a prejudicar as legítimas expectativas de uma empresa, há 14 anos, não foi a beneficiar a empresa, valha-me Deus. Mas não conseguimos demonstrar isto na Primeira Estância, vamos esperar, vamos trabalhar. Estamos a trabalhar, e irei ao limite das minhas forças, para poder demonstrar isto que acabei de dizer. Não vamos pormenorizar mais pois é conhecida esta situação, a condenação de prevaricação.
Mas houve uma parte da sentença, que está lá clara, em que o juiz não seguiu o pedido do Ministério Público quanto à perda do mandato. Absolveu-nos. Disse que aquela condenação não tinha perda de mandato, o que significa que eu podia continuar mais um ano o meu mandato. Mas eu nem a isso me agarrei. Mas a minha saída, que é a minha decisão livre e só minha, não fui empurrado por ninguém, não foi a pedido de ninguém – aliás eu acho que até diria que funcionaria ao contrário, quem me conhece. Uma decisão minha, unipessoal, tomada meia dúzia de horas depois de me sentir alvo de uma tremenda injustiça. Mas, infelizmente, hoje estamos nestas circunstâncias, quer dizer, se uma pessoa é acusada injustamente ou se é condenada injustamente, repare, apresentando o recurso, como todos os juristas dizem, a condenação está suspensa, não existe. É como se não existisse sob o ponto de vista jurídico mas, para mim, sob o ponto de vista político existe, de modo que eu tenho de ter o tempo, a paciência e a paz para lutar com todas as forças para demonstrar que é injusto e que mantenho intacta a minha dignidade que foi isso que aprendi com os meus pais, há muitos anos e foi esse o legado que eles me deixaram e é esse que eu quero deixar também aos meus filhos e aos meus netos.

A GUARDA: Voltar ao Parlamento Europeu está fora de questão?

Álvaro Amaro: Já estava. Para ser franco, eu sei que o que vou dizer agora podem os leitores achar que fica bem, mas eu quis viver esta experiência, mas eu sairia, já o tinha dito – eu posso apresentar pessoas que testemunham isso – já o tinha dito que eu sairia em 2024, ou seja, no final do mandato.
Repare, caminhar para a Guarda é uma coisa, caminhar para Bruxelas é bem diferente, bem mais difícil. Por isso, o meu mandato terminaria, naturalmente, em Junho do próximo ano. Eu não voltaria, por isso, para mim, era um assunto resolvido.

A GUARDA: Mas já referiu que continuará a lutar por causas políticas, que continuará a lutar pelo Interior?

Álvaro Amaro: Não, isso nunca abdicarei. Abdicarei no leito da morte, por isso até lá, se Deus me der saúde e força, continuarei a lutar. Uma causa que eu abracei há trinta anos, para não recuar mais no tempo, é o título do meu primeiro livro, que escrevi no ano 2000 – O Combate no Interior – e tendo tido como palcos privilegiados de toda a minha actividade política, naturalmente o ser presidente da Câmara de Gouveia e, com todo o respeito pela terra que me viu nascer, mas presidente da Câmara da Guarda, porque naturalmente, uma capital de distrito, onde muito mais acontece e partir de onde se pode projectar muito mais. E foi isso que eu fiz e acho que os guardenses reconheceram, ou pelo menos eu acho-me reconfortado. Por isso essa minha luta continuará. Agora como é que continua: desta maneira, daquela maneira, doutra maneira? O que posso dizer é que continuará. Ainda na sexta-feira (23 de Junho), tive um almoço com colegas, que a gente não sabe como lhe devemos chamar, do ex-Movimento pelo Interior, que eu próprio criei. Ou seja, enquanto Deus me der saúde, vou estar muito activo, mesmo muito activo, para trabalhar para a justiça territorial, para a coesão comum.
O interior é a minha causa. O interior continua a precisar de mim também, desculpe a vaidade.

A GUARDA: A apresentação dos vinhos da Beira Interior, Bairrada e Dão, aqui no Parlamento Europeu, também é uma a expressão desta sua causa pelo Interior?

Álvaro Amaro: Isto estava programado. Como diz o bom povo português, há despedidas mais tristes mas que pode ficar mais atenuada essa tristeza com a alegria que advém desta iniciativa, promovendo um belíssimo produto, o nosso bom vinho, neste caso da nossa região da Beira Interior, da nossa região do Dão e da Bairrada, ou seja, da minha Região Centro.
Estava programado, não estava programado era a minha saída. Direi que isto e a vossa presença – que também estava programada, muito antes da minha saída, como sabe – atenua bastante a minha tristeza, no momento da saída.

A GUARDA: Apesar de tudo, sai daqui feliz e com o sentimento do dever cumprido?

Álvaro Amaro: Sim, saio daqui feliz! Feliz, orgulhoso pelo trabalho que desenvolvi. Orgulhoso por aquilo que eu também pude, humildemente, ajudar neste grande projecto europeu e daquilo que o projecto europeu também me ensinou. Por isso saio daqui muito mais realizado e como comecei por dizer, saio, nesse aspecto, muito feliz.

A Guarda: Ao longo da nossa conversa deixou clara a sua paixão pela política e pelo interior, afirmando que futuro a Deus pertence. O que tem sonhado para o futuro?

A GUARDA: Eu abracei a Guarda. Já lhe disse que estabeleci com a Guarda uma relação de grande paixão. Quanto ao futuro logo se vê. Na Guarda e a partir da Guarda, eu vou estar atento e activíssimo no combate pelo Interior. Também posso dizer que é um imperativo da minha consciência politica tudo fazer para recuperar a Câmara da Guarda para o PSD.

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