“Vir de Lisboa a Figueira de Castelo Rodrigo é um luxo, só pode vir quem tiver rendimentos altos para isso”

Entrevista: Carlos Manuel Martins Condesso – Presidente da Câmara Municipal de Figueira de castelo Rodrigo

A GUARDA: Qual o balanço que faz deste ano e meio à frente da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo?
Carlos Condesso: É um grande orgulho para mim, como pessoa nascida e criada aqui no núcleo histórico de Figueira de Castelo Rodrigo, estar a exercer as funções de presidente da Câmara, porque me dá gosto trabalhar pela minha terra, pelo meu concelho e pelas minhas gentes. Eu sou um deles, sou um cidadão de Figueira, e sou um cidadão figueirense, agora com responsabilidades acrescidas, o que me dá um gosto enorme. Sou um figueirense que sente e ama a sua terra.
Passou um ano e meio, e um ano e meio, em política, para realização é muito pouco. Quero dizer que encontrei uma Câmara mal organizada a nível do quadro técnico que não era ajustado áquilo que são as reais necessidades da gestão autárquica, pois hoje a gestão autárquica é muito exigente. Fomos reorganizando os serviços para que eles produzissem melhor trabalho para aquilo que é o progresso e o desenvolvimento de Figueira.
No início do mandato nós mandámos fazer uma auditoria financeira, não como forma de perseguição mas como uma radiografia para sabermos com o que é que podíamos contar. Essa auditoria financeira, para além de nos dizer que alguns dos procedimentos internos não eram os procedimentos correctos, também veio dar-nos a conhecer que a dívida da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo, quando tomámos posse, era de 6 milhões e 417 mil euros e com os compromissos futuros, a dívida era de nove milhões cento e treze mil e quatrocentos e quarenta e um euros, o que nos dificultou, logo no início, o arranque do mandato.
Com uma gestão criteriosa, com uma gestão dos recursos financeiros e com a ajuda dos técnicos desta Câmara, hoje, claro que temos dívida, mas está controlada e a estamos a pagar a tempo e horas aos nossos fornecedores. Hoje a economia local sabe e conta que vendendo um bem, um produto ou um serviço à Câmara sabe que recebe a tempo e horas. Isso é muito importante para dinamizar a economia local. Estamos a viver momentos difíceis devido à guerra, devido à ofensiva militar que a Rússia fez à Ucrânia, provocando um aumento de preços. A inflação está com valores muito altos e nós fazemos esse esforço de pagar a tempo e horas. Somos de boas contas. Não há nenhum fornecedor que se possa queixar que a Câmara Municipal demora mais de um mês a pagar. Em muitos casos chegamos a pagar em quinze dias aos fornecedores locais, isto para dinamizar a economia local.
A GUARDA: Casa arrumada, agora é preciso lançar mãos à obra?

Carlos Condesso: Quando tomámos posse, logo na primeira reunião que tive com o executivo municipal e com o Gabinete de Apoio, vimos que só tínhamos duas opções: ou nos queixávamos do passado, coisa que eu não gosto e não quero, ou arregaçávamos mangas e lançávamos mão à obra, e foi aquilo que fizemos. Logo no primeiro dia deitámos mãos à obra e começamos logo a trabalhar.
Eu tinha uma facilidade. Eu conhecia bem esta casa. Conhecia os funcionários desta casa. Eu já tinha estado nesta casa. Já tenho 23 anos de administração local, grande parte deles passados nesta casa. Eu não cheguei a presidente pelo telhado, percorri todos os patamares, desde funcionário, a adjunto, a chefe de gabinete, a vereador com pelouros, a vereador sem pelouros na oposição e a Presidente. Eu conheço bem esta casa o que me permitiu começar a trabalhar de imediato com a minha equipa que tem correspondido aquilo que eram as minhas expectativas vindo eles de outros ramos de actividades. O meu Vice-presidente era gerente bancário, a minha vereadora era professora na Escola Secundária de Figueira de Castelo Rodrigo. Estão-se a adaptar, estão a trabalhar, e temos uma equipa competente.
O que eu disse é que não perdemos tempo. Começamos logo a fazer as obras que estavam paradas há muito tempo. Obras que teimavam em não arrancar. Por exemplo, tínhamos as piscinas municipais fechadas há quatro anos e nós, em pouco mais de meio ano, fizemos as obras e abrimos as piscinas à população. Trata-se de um equipamento público em que foi investido muito dinheiro e estava desactivado. Nós precisávamos das piscinas, porque as pessoas de Figueira de Castelo Rodrigo também precisam de ter qualidade de vida.
Foi um gosto enorme reabrir novamente as piscinas porque traz qualidade de vida a toda a população, nomeadamente à população mais idosa que precisa de hidroginástica.
Felizmente temos uma grande ocupação das piscinas municipais, quer pelos alunos das escolas, quer a nível de natação livre, mas também dos nossos seniores que ocupam muitas horas.
Para além da piscina municipal, também havia uma obra que teimava em não abrir. Uma obra pensada pelo professor Braga da Cruz, nosso conterrâneo, que é o Centro Interpretativo da Batalha de Castelo Rodrigo, que estava há mais de oito anos para abrir. Quando nós chegámos, estava com problemas de infiltrações. A obra não estava terminada, faltavam os conteúdos, e nós, no primeiro feriado municipal, no dia 7 de Julho, inaugurámos e devolvemos este Centro Interpretativo da Batalha de Castelo Rodrigo à população. Está a ter um sucesso impressionante pois é ali que se conhece a história do concelho. Já passaram mias de três mil visitantes por aquele Centro Interpretativo, o que é muito positivo. Vamos fazer o repto às comunidades escolares para visitarem este Centro.
Mas também havia outras obras que teimavam em não avançar como é o caso do restaurante do Parque Desportivo e Lazer de Castelo Rodrigo, destruído por um temporal. Não podíamos estar três anos com os turistas a passar ali, junto à Aldeia Histórica e a ver aquela vergonha. Se nós temos uma das melhores aldeias turísticas do mundo reconhecidas pela Organização Mundial de Turismo, então tínhamos de recuperar aquele património. Hoje, quem passar vê que já tem a cobertura faltando agora reabilitar a parte interior, porque aquilo estava votado ao abandono.
A governação anterior, não me vou referir muito a ela, mas era uma governação de desleixo, uma governação de muita política da promessa e de não concretização. Era uma política que fazia mais propaganda do que olhava para aquilo que era o desenvolvimento do concelho. E iludiu muitas pessoas.
A principal prioridade do anterior executivo era prometer empregos e mais empregos que não conseguia dar às pessoas.

A GUARDA: Para além destes equipamentos municipais também tentou atrair investidores?

Carlos Condesso: Uma das nossas prioridades era dinamizar a economia, fixar gente e conseguir trazer postos de trabalho para Figueira. Estamos num território de baixa densidade onde o principal problema, não é só de Figueira é também do País, é o problema demográfico. Para fixar gente nestes territórios da Raia, nestes territórios do interior só através da captação de investimento e da criação de postos de trabalho. E uma das nossas primeiras preocupações foi tentar arranjar um investidor que reabrisse os Lacticínios da Marofa que era a maior empresa do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Tivemos a felicidade de ter um empresário, do distrito da Guarda, com muita experiência nesta área, que fez esse investimento de mais de quatro milhões de euros, incluindo a compra, que vai colocar novamente os Lacticínios a funcionar. Quero deixar aqui o meu público reconhecimento a esse empresário do concelho de Seia, por ter investido no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo.

A GUARDA: Podemos dizer que há um grande número de obras em curso ou em projecto?
Carlos Condesso: Para além do que já referi, também temos a decorrer as obras no canil Municipal porque já estava desadequado. Estamos a dar conforto aos animais.
Vamos fazer também alguma reabilitação urbana. Com uma candidatura que nos foi aprovada vamos começar com as obras de ajardinamento de algumas zonas que não estavam ajardinadas em Castelo Rodrigo.
Mas também temos em curso um projecto de que já ouço falar desde criança. Nós temos três rios e temos duas albufeiras e não temos uma praia fluvial. Já temos o projecto pronto da praia fluvial para a barragem de Santa Maria de Aguiar. Essa é uma prioridade que temos. Sabemos que vamos ter algumas dificuldades porque é uma zona do parque do Douro Internacional. Já apresentámos o projecto e vamos, a curto prazo, lançar os procedimentos para iniciar a obra, assim as entidades também deixem, quer o ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas), quer a APA (Agência Portuguesa do Ambiente). Muitas vezes essas instituições tolhem-nos aquilo que é o desenvolvimento. Têm de ser parte do desenvolvimento e não do tolhimento.
Figueira merece ter uma praia fluvial e nós já temos o projecto concluído.
Vamos também lançar o regadio. Já temos os procedimentos todos lançados como já temos o projecto em elaboração.
Também vamos fazer uma pedovia de Figueira de Castelo Rodrigo ao Convento de Santa Maria de Aguiar. Como há muitas pessoas a caminhar nessa zona, vamos criar ali uma pedovia para haver mais segurança. Vai ser uma obra muito importante.
Vamos abrir a incubadora de empresas, um pavilhão que tem seis espaços. Estamos a terminar as obras, falta-nos apenas a electrificação. Vamos lançar o concurso para os empresários de Figueira que queiram concorrer a esses espaços.
Estamos a finalizar o Ecoparque de Castelo Rodrigo. É uma obra que estava parada no tempo. Vamos ficar ali com um espaço para caravanas, para estacionamento. Será um Ecoparque com carregadores eléctricos para os automóveis.
Estamos a lançar o concurso para substituir a iluminação cénica de Castelo Rodrigo e da Ponte Sarmento Rodrigues, em Barca d’Alva.
Estamos também a estudar a reformulação do miradouro natural da serra da Marofa para lhe dar uma nova modernidade. Fizemos a limpeza do Cristo Rei da Marofa que estava completamente ao abandono. Até nestas pequenas coisas se nota a diferença de gestão. Estamos também a recuperar e a restaurar o mítico Chafariz dos Pretos, que está aqui bem no centro, num largo de Figueira de Castelo Rodrigo. Mais um mês e esta obra está concluída.
Estamos, aos poucos, a criar aqui uma nova dinâmica no concelho para que quem está se fixe e para cativar novos residentes. Para cativar, acima de tudo, novos investimentos pois só assim se consegue avançar e ter um concelho desenvolvido.
Vamos continuar com as actividades, com as Festas da Vila, no verão. Temos uma tradição muito antiga que é a Festa das Idades. Aqueles que nascemos no mesmo ano juntamo-nos no mesmo grupo. Vamos continuar com a marca que eu trouxe para Figueira de Castelo Rodrigo, a “Figueira Terra Natal” que atrai milhares de pessoas. Vamos realizar a recriação da batalha de Castelo Rodrigo que é um acontecimento simbólico. Acontece no dia 7 de Julho, dia em que celebramos o Feriado Municipal.
Também vamos continuar a apostar e a investir em cuidados de saúde à população.
Temos um concelho muito mais moderno, mais desenvolvido. Foi para isso que eu me candidatei, para fazer avançar Figueira de Castelo Rodrigo.

 

A GUARDA: Mas há outros investimentos na zona do Parque Industrial?

Carlos Condesso: Esse investimento é dos mais importantes que volta a abrir os Lacticínios, vai criar postos de trabalho, vai criar riqueza nos nossos produtores de leite, vai ajudar os nossos agricultores, e vai lançar novamente a marca Serra da Marofa para o País e para o Mundo o que reforça também a marca Figueira de Castelo Rodrigo.
Também vai ser feito, mesmo ao lado dos Lacticínios da Marofa, um investimento da CARM para instalar os armazéns dos vinhos ligados à Beira Interior, porque a CARM tem Douro e Beira Interior. Vai ser construída uma loja diferenciadora onde serão colocados à venda os melhores produtos da CARM. Vai trazer mais dinâmica aquela zona industrial e certamente vai criar mais postos de trabalho e mais riqueza.
Há pouco tempo foi aumentada a área e instalado novo equipamento numa empresa de transformação de granito. Este investimento vem também enriquecer a economia do nosso concelho.
Quero lembrar aqui que só ainda passou pouco mais de um ano e, normalmente, os executivos quando entram de novo, os primeiros dois anos são para conhecer a casa, para arrumar a casa. Nós começámos logo a produzir, começamos logo a trazer desenvolvimento ao concelho. E uma coisa muito importante: nós começamos logo a aumentar a auto estima colectiva dos figueirenses. Os cidadãos começaram a participar naquilo que é a governação da Câmara, estamos a ouvi-los e a proporcionar-lhes momentos de convívio e de lazer.

A GUARDA: O sector agrícola também tem peso na economia do concelho?

Carlos Condesso: Temos um regulamento de apoio ao sector agrícola. Quando cheguei à Câmara aquilo com que me deparei foi com dívidas de mais de três anos aos agricultores. Através do regulamento que temos apoiamos o sector agrícola ao nível das alfais; apoiamos a plantação de árvores, entre as quais a amendoeira; apoiamos a criação de marcas; apoiamos as empresas na aquisição de mobiliário, de equipamentos.
Esse regulamento continua em vigor e nós continuamos a apoiar os nossos empresários mas agora pagando-lhes a tempo e horas.
A candidatura que entra é analisada com celeridade, com o pagamento do valor correspondente. No passado estavam mais de três anos à espera desse dinheiro.
O sector agrícola é, para nós, muito importante. A primeira coisa que fizemos foi começar a trabalhar no regadio através da barragem de Santa Maria de Aguiar. Deparámo-nos com uma situação que nos surpreendeu muito, ou seja, a barragem de Santa Maria de Aguiar não pode ser candidatada porque não está legalizada. Oficialmente a barragem não existe. Foi construída logo após o 25 de Abril mas nunca ninguém a legalizou.
A nossa prioridade foi lançar o concurso para o projecto tendo em vista a legalização da barragem e o projecto para fazer obras na barragem devido à existência de fendas. Ou seja, a barragem para além de ser necessário proceder á legalização também precisa de obras.
Neste momento temos a equipa de projectistas no tereno a fazer os levantamentos necessários para depois se lançar o projecto para as obras na barragem de Santa Maria de Aguiar.
Temos também a garantia da DRAP Centro do Ministério da Agricultura que, assim que se termine o projecto e se lance o concurso para a obra, haverá financiamento garantido para a realização da obra e posteriormente para o regadio.
Já devia ter sido uma obra feita há décadas mas não foi. Nós estamos a começa-la, estamos a fazê-la, estamos a dar os passos para que o regadio possa ser uma realidade a médio prazo, nunca a curto prazo porque é preciso fazer obras na barragem. Estamos também a contar com o Ministério da Agricultura para nos financiar e já nos foi dada a garantia de que o regadio de Figueira é uma prioridade.
É uma boa notícia para os nossos agricultores que têm sempre aqui na Câmara Municipal um apoio no que diz respeito ao sector agrícola.

A GUARDA: E o cultivo da amendoeira?

Carlos Condesso: Antes de tudo tenho de referir que foi instalada no concelho uma fábrica de descasque e de transformação de amêndoa que pertence ao Grupo da Biaia que também tem vinhos. Foi comprado um antigo armazém de grandes dimensões em Figueira onde este negócio está a laborar. Agora, Figueira e toda a região tem um sítio onde pode trazer a sua amêndoa para ser descascada para depois ser vendida já como produto final.
Relativamente às amendoeiras estamos a dar dois euros e meio por plantação e cada pé, por cada árvore. É um incentivo para que os nossos agricultores plantem amendoais. Houve um grande problema quando o Ministério da Agricultura só apoiava as monoculturas. As pessoas, na encosta de Barca d’Alva, que era onde havia o maior manto branco, tiveram de optar entre o olival e o amendoal. Tinham as duas culturas no mesmo tereno e como era mais rentável o olival foram arrancando os amendoais. Mas, por todo o concelho, estão a nascer novos amendoais.
Apelo a que os produtores e os nossos agricultores continuem a investir na amendoeira porque para além de ser uma árvore de fruto e trazer rendimento, acaba por nos enriquecer o cartaz turístico da amendoeira em flor.
A GUARDA: Este ano, como decorreu a Festa da Amendoeira em Flor?

Carlos Condesso: A edição deste ano foi um enorme sucesso. Honrámos aquilo que foi pensado há 82 anos pelo então Presidente de Câmara Aníbal Azevedo e pelo senhor Padre Canário que foi o principal impulsionador da Festa da Amendoeira em Flor. Nós quisemos honrar esse legado e realizámos várias actividades em dois fins-de-semana, no último de Fevereiro e no primeiro de Março. Figueira de Castelo Rodrigo conseguiu atrair milhares e milhares de pessoas.
Tivemos uma feira de produtos regionais. Tivemos actividades musicais e desportivas. Aliámos o desporto à natureza.
Foi um grande sucesso e nós medimos isso não só pelas pessoas que estavam numa tenda gigante, quase sempre lotada, mas também porque a hotelaria e a restauração já não tinham capacidade para receber mais gente. No último fim-de-semana não havia dinheiro em nenhuma caixa multibanco, em Figueira de Castelo Rodrigo, o que acaba por ser um bom indicador. É sinal de que houve consumo. Que ficou riqueza no nosso concelho.
A Festa da Amendoeira em Flor consegue, passados 82 anos, cativar muita gente pois temos um território abençoado pela natureza. Temos 508 Km2 de potencialidades turística. Nós temos três rios: temos o Douro onde desembarcam mais de 300 mil turistas por ano; temos as Arribas do Águeda que podem ser contempladas desde Almofala, desde o miradouro de Santo André; temos o rio Côa que tem uma marca forte no país; temos a Grande Rota do Vale do Côa; temos também o nome mítico daquele que é o património mundial das gravuras do Vale do Côa; temos uma das melhores aldeias históricas turística do mundo; temos miradouros naturais de excelência como é o caso do alto da Marofa; temos a primeira Reserva Natural do país, a Faia Brava; temos património edificado; temos o Mosteiro de Santa Maria de Aguiar; temos o Centro da Batalha de Castelo Rodrigo; temos o Museu Judaico; temos o Museu de Interpretação da Torre de Almofala. Temos um enorme potencial turístico.

A GUARDA: Com tantos motivos, o que falta para atrair mais turistas?

Carlos Condesso: O que falta para atrair mais turistas é o Estado também dar uma ajuda. Nós temos cá tudo. Temos os luxos do século XXI: o turismo da natureza, o turismo do sossego, o património natural e edificado.
Figueira de Castelo Rodrigo tem a particularidade de ser Douro e também ser Beiras e Serra da Estrela, mas de Lisboa aqui são 400 km e esse é um dos principais entraves. As portagens acabam por tolher o turismo nesta região do país. Temos as portagens mais caras do País. Isso é um entrave.
Hoje, vir de Lisboa a Figueira de Castelo Rodrigo é um luxo, só pode vir quem tiver rendimentos altos para isso. Uma viagem de Lisboa a Figueira de Castelo Rodrigo com as portagens, combustível, dormida e comida, nunca fica menos de duzentos euros. As famílias hoje pensam duas vezes. Isto tem sido um grande entrave, mas não é só um grande entrave para os turistas, é um grande entrave também para os figueirenses que residem em Lisboa e que hoje já aqui vêm menos. Ao fim do mês têm de fazer contas e eles já não vêm tanto.
Continuamos a lutar pela redução das portagens porque nos têm prejudicado muito. Como alternativa estamo-nos a virar para a vizinha Espanha e quem visitou Figueira de Castelo Rodrigo nestes últimos dias ouviu falar muito espanhol. Temos uma forte ligação, porque somos zona raiana, com a Província de Salamanca, começando aqui pela nossa fronteira de Barca d’Alva, onde temos La Fregeneda, que comemoramos todos os anos a Festa do Almendro, onde eram milhares e milhares de espanhóis.

A GUARDA: Em termos de hotelaria, Figueira de Castelo Rodrigo tem unidades suficientes para receber os turistas?

Carlos Condesso: Figueira de Castelo Rodrigo tem turismos rurais de muita qualidade. Está bem servida a nível de camas para uma classe média alta. Figueira de Castelo Rodrigo precisa, neste momento, face à dinâmica que estamos a criar no concelho, de camas e de estabelecimentos hoteleiros para a gama média baixa. Não temos um hotel que consiga receber uma excursão completa, um autocarro cheio de pessoas.
Quando temos festividades, seja na Festa Amendoeira em Flor, seja na Recriação Histórica da Batalha de Castelo Rodrigo, seja na Figueira Terra Natal, nós temos essa dificuldade. Eu posso-lhe dizer que nestes períodos de muita afluência de turistas todos os concelhos vizinhos também ganharam com os nossos eventos. O que não é mau, pois o que é bom para Figueira também é bom para Almeida, Foz Côa, Freixo de Espada à Cinta, Mêda… é bom para todos os concelhos limítrofes. Mas estamos, efectivamente, já com falta de camas porque o turismo do interior está na moda. A pandemia veio também dar a conhecer as potencialidades que existem no interior do país. Por isso é que eu digo que temos os luxos do século XXI ao nível do turismo. As pessoas podem vir para aqui, mas quando vêm têm de ter tempo, têm de trazer tempo para conseguir disfrutar de tudo o que este concelho tem para oferecer assim como os concelhos limítrofes. Eu não olho só para o meu concelho, para a minha capelinha, eu olho para a região e a região tem muitas potencialidades turísticas. O futuro destes territórios, na minha opinião, só passa por dois sectores, o turismo e a agricultura. É nisso que nós estamos a apostar.

A GUARDA: Como está o processo da Linha de caminho-de-ferro até Barca d’Alva?

Carlos Condesso: Relativamente à linha do Pocinho e Barca d’Alva, estamos fartos de ser enganados. Já andamos a ser enganados há muitos anos. Os autarcas de Figueira e de Vila Nova de Foz Côa, que somos os principais interessados, porque a linha vem do Pocinho até Barca d’Alva, embora a linha ao reabrir vai ser uma mais-valia para todos os concelhos da região, estamos fartos de ser enganados.
Já ouvimos os anúncios de abertura várias vezes, por vários governos. Já assistimos à assinatura de protocolos de intenções. O último anúncio que ouvimos foi há cerca de meio ano em que agora, se iria realizar, no primeiro trimestre, o projecto para a obra. O primeiro trimestre está a terminar e nós ainda não conhecemos o projecto. O certo é que os estudos estão feitos. A CCDR do Norte fez o estudo de viabilidade da linha onde é peremptório e diz que a linha é viável. É uma linha que vai trazer riqueza à região e deve ser prioridade para o Governo.
A nível das infra-estruturas de Portugal também já foi feito o levantamento das necessidades e daquilo que é necessário para reabilitar a linha. Ou seja, o Governo já está munido de toda a informação. Só não avança se não tiver vontade política. Aquilo que tem faltado é coragem política aos governantes, a todos os que lá passaram para reabrir esta linha que é de estrema importância para esta região.
A linha pára no Pocinho, está amputada. São 28 quilómetros apenas que falta reabilitar. Não peço que seja reabilitada para transportes de mercadorias. Esta linha tem de ser uma linha para servir esta região ao nível do turismo, tem de ser uma linha turística.
Nós conhecemos por essa Europa fora as potencialidades que têm essas linhas turísticas. Toda a gente reconhece o Douro como uma das potencialidades maiores do país e da Europa. Se esta linha acompanha sempre o Douro, do Pocinho até Barca d’Alva, tem beleza paisagística, tem potencialidades a nível do turismo, então porque é que não se reabilita. Porque é que o dinheiro tem de ir todo para a TAP, para o Metro de Lisboa, para a Carris e não se investe nesta linha, que podia trazer muita riqueza. Com essa abertura os negócios iriam fruir, haveriam mais ramos de actividade naquela zona e com isso trazer mais riqueza, fixar gente que é o que nós precisamos no interior.
É uma ambição antiga que temos e há a garantia do Governo que é desta que vai, pois assim foi anunciado. Estamos à espera que se conclua o projecto e estamos na espectativa de que não nos enganem mais uma vez. Já fomos enganados tempo demais. Falta aqui vontade política e coragem política para reabrir esta linha tão importante para toda a região.

A GUARDA: E na saúde, Figueira de Castelo Rodrigo está bem servida?

Carlos Condesso: Em termos de saúde se não fosse a Câmara Municipal a fazer um investimento num seguro de saúde e a ter uma parceria com a Fundação Álvaro de Carvalho, que presta cuidados de saúde no interior do País, nós estávamos entregues a nós próprios. Já reivindiquei médicos para o Centro de Saúde e, neste momento, temos apenas três médicos para cinco mil pessoas e os três estão na idade da reforma. Se os três decidirem reformar-se, Figueira fica sem médico. O Governo tem de arranjar uma solução para o interior do país. Eu sei que é um problema de todo o país. Há falta de médicos em todo o país, mas tem de dar prioridade onde a população é mais idosa, onde a população precisa de cuidados de saúde. Nós estamos a substituir-nos ao governo.
Nós temos este seguro de saúde que já vem do passado e agora foi reforçado com mais serviços.
O seguro de saúde custa-nos mais de 250 mil euros por ano, mas é um seguro de saúde gratuito para toda a população. Nós temos consultas gratuitas. Temos três médicos a dar consultas à população. Temos também gratuitamente a realização de exames de diagnóstico. Temos um complemento áquilo que é o serviço nacional de saúde. Fizemos uma articulação que não havia entre os profissionais do Centro de Saúde e o seguro de saúde. O que é que acontecia até nós tomarmos posse? As pessoas estavam a duplicar os custos com o dinheiro público. Iam fazer exames com o seguro de saúde e pediam os mesmos exames no Centro de Saúde. Faziam análises no Centro de Saúde e depois pediam análises no Cartão de Saúde. Hoje temos os profissionais do Centro de Saúde e do Cartão Municipal de Saúde não de costas voltadas mas a articularem os serviços de saúde dos figueirenses.
Temos um seguro de saúde capaz de dar respostas à população mas temos depois um Serviço Nacional de Saúde que está frágil e que precisa de ser reforçado a nível de médicos, de enfermeiros e de auxiliares.
Só o distrito da Guarda tem 15 mil cidadãos sem médico de família e Figueira carece dessa necessidade. Já reuni com o Conselho de Administração da ULS Guarda precisamente a pedir encarecidamente que faça um esforço acrescido para arranjar mais médicos. A Câmara Municipal dá alojamento aos médicos que venham para Figueira.
Temas essa carência mas temos o complemento do seguro de saúde.
Temos um protocolo assinado com a Fundação Álvaro de Carvalho, que tem como presidente Álvaro de Carvalho que é natural de Figueira de Castelo Rodrigo. Protocolámos com essa Fundação cuidados de saúde à população, nomeadamente, naquilo que diz respeito à operação às cataratas. Ao longo de um ano foram operadas mais de 100 pessoas às cataratas. Demos mais qualidade de vida a mais de cem cidadãos do concelho de Figueira porque o nosso hospital de referência, o Hospital Distrital, não dá resposta às populações, quer para as consultas, quer para as cirurgias.
Através do protocolo que assinámos a Fundação paga metade e a Câmara Municipal paga a outra metade do total da operação às cataratas.
Esta parceria com a Fundação Álvaro de Carvalho não tem só a ver com a operação às cataratas. No dia 18 de Março vamos ter uma formação muito importante para as funcionárias dos lares, com fisiatras trazidos pela Fundação Álvaro de Carvalho para darem formação aos funcionários do lar para saberem manusear os idosos. Há muitos problemas e muitas lesões que acontecem devido à falta de conhecimentos e de formação. Também vêm alguns médicos de várias especialidades para darem consultas gratuitas à população de pessoas que o Centro de Saúde identifica.
Quero dar o meu público reconhecimento a este conterrâneo que tem ajudado tanto Figueira que é o Dr. Álvaro de Carvalho.
A GUARDA: A saúde também implica desporto. Quais as prioridades da autarquia em relação ao desporto.

Carlos Condesso: A nossa prioridade no desporto é a formação dos jovens.
Temos as Piscinas Municipais onde os jovens praticam. Temos dado um apoio ao Ginásio Clube Figueirense que é o único clube que promove actividade desportiva, nomeadamente o futebol. Através de um protocolo assinado connosco, estão a dar formação aos mais jovens, nomeadamente no futebol. Mas a nível do desporto era preciso fazer mais e eu já lancei o repto para haver andebol, basquetebol…
O que impera mais no concelho é o futebol mas tem de se alargar mais para outras modalidades e foi esse o repto que lancei ao Ginásio Clube Figueirense.
A GUARDA: Está preocupado com o despovoamento?

Carlos Condesso: Muito. O principal problema do país é o problema demográfico. É um problema de coesão territorial mas acima de tudo um problema demográfico. Não é só um problema deste concelho e desta região, é um problema do país e até da Europa. Mas nós temos de olhar é para o nosso torrão natal, para o nosso concelho.
Estou muito preocupado. Cheguei à Câmara na altura em que tínhamos tido há pouco tempo conhecimento dos censos. O concelho de Figueira perdeu mais de 17% em dez anos. Foi o segundo concelho do distrito da Guarda que perdeu população. Isto quer dizer que as políticas que estavam a ser implementadas no concelho pelo anterior executivo eram erradas. Para inverter esta situação ninguém tem uma varinha mágica. Só com trabalho, com políticas certas que dinamizem a economia local, que atraiam investimento, só assim é que se pode cativar gente e fixar gente no território. Ninguém se fixa no território se não houver postos de trabalho.
O problema demográfico é um problema do país e que tem de ser enfrentado, de uma vez por todas, pelo Governo. Nós para fixarmos gente, temos de ter benefícios fiscais. Temos de ter algumas regalias. Temos a vizinha Espanha aqui ao lado e é impossível conseguirmos concorrer com os nossos vizinhos espanhóis que estão aqui a dez quilómetros. Nós não temos gás natural e uma botija de gás em Espanha custa menos dezanove euros. A maior parte do ano, o preço dos combustíveis tem uma grande diferença. Como é que sobrevivem estes comerciantes? Como é que se podem fixar cá as pessoas quando os produtos do outro lado são muito mais baratos e têm o IVA muito mais barato. O governo vai criando condições para os cidadãos terem os produtos mais baratos devido à inflação. E nós do nosso governo, aqui no interior, o que é que temos? É abandonos, é enceramentos, é virarem-nos as costas. Aquilo que tem acontecido é que as câmaras se estão a substituir ao Governo. Quero aqui frisar o presente envenenado que o Governo dos deu na área da educação. É uma vergonha. O Governo apenas nos transferiu aquilo que lhe dava muito trabalho e lhe dava despesa. E aquilo que está a acontecer é que as câmaras agora estão a ficar endividadas porque o envelope financeiro não chega sequer para pagar o gás para o aquecimento das escolas quanto mais para pagar as restantes obrigações que nós temos, que nos foram impostas por lei.
Eu sou a favor da descentralização, mas uma descentralização séria onde o dinheiro cubra as despesas. Esse não é o caso e o Governo tem virado as costas ao interior, tem abandonado o interior.
Falam muito, enchem a boca a falar de coesão territorial, de coesão social, mas a coesão territorial apenas se vê em Lisboa e no Porto e o resto é paisagem. Mas se querem fazer isto então que digam. Que digam que querem apostar nas grandes cidades e não querem apostar no interior. Qualquer dia, o interior a perder população como está a perder acaba por ficar um grande cemitério de saudades.
Nós temos grande parte da população idosa, com mais de 60 ou 65 anos e os jovens acabam por ir à procura de outras oportunidades. Assim o interior vai esvaziando.
Mas nós estamos cá para tentar contrariar esta situação e é isso que temos feito. Já houve negócios que abriram porque acreditaram, porque os puxámos para cá, porque vêem um concelho dinâmico, um concelho com vida, um concelho que cativa as pessoas e que quer fixar aqui gente.

A GUARDA: Sente-se bem na função de presidente de Câmara?

Carlos Condesso: Olhe, sinto-me bem, sinto-me realizado. Eu não tinha o foco de ser presidente de Figueira de Castelo Rodrigo, mas o ver o meu concelho a definhar, ver o meu concelho a andar para trás, deu-me muito mais força para me candidatar à Câmara e para trabalhar pela minha gente, pela gente que me viu nascer, pela gente que foi criada comigo. Eu sou um deles, só que tenho agora esta responsabilidade. Sabia que podia dar um contributo importante para o desenvolvimento deste concelho e aqui estou eu a dar o meu melhor, o melhor que sei e posso, sempre com a proximidade das pessoas. Felizmente o trabalho que temos feito temos tido um feedback muito positivo por parte da população. Obviamente que não agradamos a todos, Deus que era Deus também não agradou a todos. Mas nós trabalhamos para todos independentemente das opções políticas e dos partidos políticos que cada um tenha. Eu assumi a responsabilidade de trabalhar para todos e quero incluir todos na governação do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo.
O feedback que temos tido é muito positivo pois, hoje, temos um concelho mais desenvolvido, temos um concelho mais activo, temos um concelho mais dinâmico, temos um concelho com mais investimento. A curto prazo, vamos atrair mais pessoas para este território e este concelho vai deixar uma marca na região. Figueira podia ser muito mais do que aquilo que era e nós já estamos a fazer com que Figueira fosse mais do que aquilo que era. Mas Figueira ainda pode ser muito mais e é para isso que nós trabalhamos.

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