Vestuários, alfaias e arquiteturas do século XII português no Apocalipse de Lorvão

DOIS DEDOS DE HISTÓRIA

O livro “Apocalipse de Lorvão” é assim designado pelo facto de ter provindo da biblioteca do Mosteiro de São Mamede do Lorvão, estando hoje à guarda da Torre do Tombo, para onde foi trazido por Alexandre Herculano em meados do séc. XIX. Para o efeito teve autorização das freiras do Lorvão, decorria o ano de 1853, após um conturbado período da História de Portugal que havia levado à extinção das Ordens Religiosas em 1834, depois das guerras liberais.
Este manuscrito iluminado, datado de 1189, ainda do início do reinado de D. Sancho I, é uma das raras obras do género da Idade Média portuguesa que chegou até hoje. É considerado um dos primeiros e dos mais magníficos manuscritos iluminados do início da nação portuguesa.
A obra é um comentário ao Livro do Apocalipse, o último livro do Novo Testamento e o seu escriba e iluminador terá sido provavelmente Egeas.
O “Apocalipse de Lorvão” inclui dezenas de ilustrações (iluminuras), de que damos alguns exemplos: revelação de Jesus Cristo; a segunda vinda de Jesus Cristo; o mistério das sete estrelas; mapa-mundi; a mulher sobre a besta; mensagem a Éfeso; colheita e vindima; sete anjos com as sete últimas pragas; seis anjos derramam as suas taças; os espíritos imundos; o sétimo anjo derramou a sua taça pelo ar; o julgamento da grande meretriz; o Juízo Final; a Nova Jerusalém; a água e a árvore da vida; a despedida de João; João regressa a Éfeso.
O iluminador da página que contém a ilustração “A colheita e a vindima”, talvez com ingénua inspiração, quis ali figurar os proféticos versículos da visão de São João: “Mete a tua foice aguda e vindima os cachos da vinha da terra, porque as suas uvas estão maduras; e o anjo meteu a sua foice aguda à terra e vindimou a vinha da terra, e lançou a vindima no grande lagar da Ira de Deus.”
A importância documental das iluminuras do livro é extraordinária. Já o grande historiador Alexandre Herculano (1810 – 1877) referiu nelas se encontrarem muitos espécimes autênticos de trajos, alfaias e arquiteturas do século XII português, o que, entre nós, é extremamente raro.

A ILUMINURA “A COLHEITA
E A VINDIMA”
Vislumbram-se um segador de trigo no meio da seara, um rancho de vindimadores colhendo as uvas de ambarrado, ou enforcado, e uma cena do fabrico do vinho. O segador empunha uma grande foice com que vai cortar o feixe de espigas que separou e segura com a mão. Conseguimos visualizar que está protegido por um género de chapéu de copa oval e de grandes abas, que faz lembrar os sombreiros alentejanos atuais. Tem um saiote largo atado na cintura, que faz grossas pregas até aos joelhos. Possui calçado, como os restantes, com exceção dos homens que pisam as uvas no lagar, mas não se consegue perceber se tem o tronco vestido. De resto, outros trabalhadores da mesma página apresentam-se em tronco nu, como o que calça as uvas no lagar e o que move o engenho, apertando a prensa. Estes não têm chapéu, o que seria desnecessário já que estão a trabalhar dentro da adega, mas apresentam o mesmo saiote curto de pregas.
Na parte superior da iluminura encontramos três vindimadores, cada um com um cesto de forma semiesférica e asa redonda onde vai colocando os cachos que corta com a podoa. O seu vestuário é composto de um fato de corpo justo, gola apertada e mangas compridas. Na cintura têm o pano do saio que, num deles, parece ser inteiriço com a parte que cobre o tronco. Este trajo, de aspeto largo e flutuante, era feito em lã grosseira, fabricado muitas vezes nas casas dos próprios lavradores, o que se pode inferir, seria usado pela maioria da população rural portuguesa do tempo da Reconquista. Não é de estranhar, por isso, que os trajos reflitam ainda a influência árabe, o que também ocorreria com as classes superiores de Portugal.
A imagem também tem interesse para o estudo da arquitetura, como se pode ver nas sete arcadas românicas, e para o estudo das tintas e pigmentos utilizados.

INTERPRETAÇÃO SIMBÓLICA
DA ILUMINURA
A ilustração de que acima demos destaque simboliza Jesus Cristo, o juiz, com a coroa da vitória que, de foice em punho, se prepara para ceifar a seara seca, seca porque envenenada pelo pecado, árida e estéril, boa para alimentar o fogo. Nas Escrituras, o Juízo de Deus é comparado à ceifa e à vindima. A ceifa é o símbolo da destruição total da humanidade desobediente a Deus, cortada pela foice da sua justiça. Um anjo aparece com uma foice, ou podoa, na mão, e corta das latadas os cachos também eles envenenados pela rebeldia humana e lança-os no lagar da ira de Deus, onde são pisados e espremidos.

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