O INSULTO

Pontos de Vista

Sou sportinguista há mais de 70 anos, ferrenho seguidor das narrativas desportivas em geral e clubistas em particular nos seus estilos “expressivos” e no seu arreganho, mas nunca imaginei que alguma vez se atingisse o nível (para baixo e não para cima, entenda-se…) a que se chegou na “era Bruno de Carvalho”! E não estou a confundir liberdade de expressão com o abuso dela, desenvoltura com grosseria, frontalidade com insolência, desassombro com boçalidade, espontaneidade com desbocamento em doses cavalares. O que se passa de facto é que o “inmérito” Presidente usa e abusa dos segundos termos. De “labrego”, “idiota” e “aldabrão” para um dirigente de um clube adversário, até “Bardamerda para todos aqueles que não são do Sporting Clube de Portugal” a rematar o seu discurso de “vitória”, Bruno de Carvalho tem sido um verdadeiro compêndio do INSULTO.
Ora está cientificamente identificado pelos cientistas do comportamento um tipo de disfunção, conhecida pela sigla IED (Intermittent Explosive Disorder), que o mesmo é dizer, em português, transtorno explosivo intermitente. Quem padece deste tipo de perturbação tende a agir reiteradamente, perante qualquer contrariedade, por impulsos destemperados e acções desproporcionadas de raiva, que ora se exteriorizam em gestos obscenos, ora em investidas físicas sobre quem esteja mais à mão (o gato, a mulher, um empregado), ora se manifestam, mais vulgarmente, em agressões verbais.
O insulto é, precisamente, uma ofensa verbal que visa desqualificar, humilhar ou ultrajar outro indivíduo ou grupo social que, esclarecerei o leitor, se trata de uma prática milenar, universal, transversal a classes sociais, a géneros e a gerações. É o argumento de quem não tem argumentos! Insultar é uma prática social e, como tal, encerra um conteúdo cultural. Tudo depende da ocasião, do contexto e das convenções sociais. “Fascista!” pode ter sido um qualificativo lisonjeiro na Roma de Mussolini, mas gritado, a plenos pulmões, em 1976, na Cooperativa Agrícola Estrela Vermelha, não era nada que desse gosto ouvir.
E nem as crianças (Senhor!) estão imunizadas. João Miguel Tavares, pai de quatro filhos, desabafa: ”É sempre um choque quando os pais descobrem a vastidão do léxico à disposição dos filhos, aí a partir dos sete, oito anos de idade. A escola, nesse aspecto, é um lugar de grandes virtudes, mas ao avesso. Antes de lá meterem os pés, eles podem ter um vocabulário mais impoluto do que as praias da Polinésia Francesa. Mas assim que têm oportunidade de contactar com o vasto vocabulário não-autorizado que circula pelas escolas portuguesas, subitamente adquirem o vernáculo de uma peixeira da lota de Matosinhos.” (“Manual de Sobrevivência Para Pais e Maridos”). Coisas do fruto proibido, está-se a ver…!
Na própria “casa da democracia”, como o “Diário das Cortes”, e mais tarde o “Diário das Sessões”, comprovam, o vernáculo pode ser ouvido, volta e meia, no venerando e vetusto hemiciclo de São Bento, com gritos e insultos.
No dobrar do século, as querelas parlamentares são de tal modo encarniçadas que alguns deputados, se desdobram em insultos, ameaças de bengalada e, uma vez por outra, se entregam a duelos de tabefe e a situação pouco se alterou durante a agitada I República. Artur Leitão (pai), feroz deputado da Nação, ao ver entrar um colega da sua particular antipatia, declarou em alta voz:” O senhor deputado X acaba de chegar e eu vou chegar-lhe!” Ao que se seguiu uma sessão de valente bengalada. Após 1974, o regime democrático oferece vários exemplos de desbocada exaltação parlamentar. “Escarro moral” brilhou como um dos mimos escutados numa troca de insultos entre deputados, em 1980. “Bandalho” e “palhaço” também fizeram fortuna… Em 2014, em sessão plenária, um deputado dirigiu-se a outro nestes termos: “O senhor deputado vá chamar palhaço ao seu pai!”. No âmbito ainda do relacionamento entre personalidades políticas, Manuel Maria Carrilho, mais “poético”, classificaria Marcelo Rebelo de Sousa como “pura gelatina política” e foi, por seu turno, apodado por António Barreto de “ministro rasca”, “sonso”, “suburbano” e “pavão de província”…!
E assim regressando ao início desta crónica, é de tal ordem o chorrilho de insultos na boca de milhares de alucinados trogloditas que os estádios de futebol onde pu(lu)lam, deixaram de constituir local recomendável para … mulheres e crianças – tal como nos barcos em vias de naufragar…!
Há quarenta anos bem contados, Fernando Assis Pacheco escrevia assim: “Eu às vezes ainda me dou à maçada de perder meia tarde de domingo com um jogo de futebol.[…] Sento-me na bancada, acendo um cigarro e vejo calmamente os 90 minutos de chuto na bola, divertindo-me imenso com a paranóia ambiente. No meu tempo dizíamos “fora o árbitro” e a boca escaldava com tanta enormidade; hoje, um estudioso poderia aproveitar os sábados e os domingos de bola para se pôr à la page com o calão mais recente e sofisticado, e sobrar-lhe-ia tempo para admirar como o português, esse brando de costumes, enriquece a língua por dá cá aquela finta…” (“Tenho cinco minutos para contar uma história”).
Também em algumas assembleias gerais dos clubes o ambiente é de cortar à faca, com já inflamados tribunos a regarem o fogo com gasolina.
Não se conte com as televisões para alterar este estado de coisas, amenizar o clima de crispação e promover o fair play. Na guerra das audiências vale tudo para grudar os espectadores ao ecrã: é a baixeza, o chinfrim, a peixeirada, o circo a arder! Regride-se ao homem de Neandertal, ao coliseu dos gladiadores ou aos autos-de-fé da Inquisição, tudo de bancada ou de sofá, mas sempre “gloriosos”! É o que atestam ”shares”, “ratings” e demais índices de consumo audiovisual.  
O progresso, o desenvolvimento e a democracia deveriam abrir caminho a uma sociedade cada vez menos agressiva, menos violenta, mais tolerante, mais inclusiva e respeitadora dos direitos de cada um. Essa sociedade deveria obviamente prescindir do insulto como prática corrente, mas pelo soar da voz dos fãs e dos fanáticos em crescendo, não será tão cedo que lá chegaremos. Pelo que, numa tentativa pessoal para morigerar esta febre malsã, permito-me oferecer aos insultadores militantes um conselho de juiz que ainda sou: deixem em paz, por uns tempos, as mães dos árbitros e variem o repertório de bojardas, que, sempre as mesmas, já cansa! 
Inspirem-se – porque não? – em Gil Vicente: “Tolaço!”, “Beiçudo!”, “Cabeça de grulha!”, “Enxertado em camarão!”, “Antrecosto de carrapato!”, “Neto de cagarrinhosa!”, “Má rabugem te dê!” 
Ou copiem o capitão Haddock, inseparável companheiro de Tintim, presença semanal no saudoso “Cavaleiro Andante”: “Sacripanta!”, “Lepidoptero!”, “Anacoluto!”, “Flibusteiro duma figa!”, “Babuíno!”, “Verme de creme de emplastro!”
Um palavrão destes por dia, desopila o fígado, esvazia a raiva e sempre parece menos “abrutalhado”…
Com um quarto de “águinha das pedras”, nem sabem o bem que vos fazia!

Lisboa, 22 de Abril de 2018

Notícias Relacionadas