Entrevista:  Ana Pinto – autora do livro “Banda Filarmónica de Pinhel – Memórias e Pausas entre Partituras”

“Nas páginas deste livro, o leitor ficará a conhecer hábitos, tradições, acontecimentos e personalidades que ficarão para sempre ligadas à história da Cidade Falcão”

Ana Pinto nasceu na Covilhã , em 1991 e vive em Pinhel, cidade do seu coração, desde essa altura. Em 2002 ingressou na Banda Filarmónica de Pinhel, da qual é executante de clarinete. Estudou Clarinete no Conservatório de Música de São José da Guarda. Deu aulas de Prática Instrumental na Banda Filarmónica de Pínzio, na Sociedade Filarmónica Bendadense e na Academia de Música de Pinhel. Concluiu em 2012 a licenciatura em Turismo e Lazer, pela Escola Superior de Turismo e Hotelaria do Instituto Politécnico da Guarda, e em 2020 o mestrado em Estudos de Cultura, pela Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior.

Actualmente exerce funções de Técnica Superior de Turismo na Câmara Municipal de

Pinhel.

A GUARDA: O que a levou a escrever o livro “Banda Filarmónica de Pinhel – Memórias e Pausas entre Partituras”?

Ana Pinto – O meu interesse na Banda Filarmónica extrapolou, desde sempre, a mera questão musical e artística. Ouvia recorrentemente falar de formações anteriores da Filarmónica, que ia acabando e recomeçando, e a curiosidade em conhecer melhor essa história acompanha-me praticamente desde que me envolvi na vida da colectividade.

Conhecer não só as razões da sua existência e subsistência mas também mapear os actores que lhe permitiram chegar até aos dias de hoje era um desejo antigo.

Por isso, um dia decidi dar esse passo e iniciar uma investigação que pensava pequena mas que se revelou um caminho longo. Afinal, aquilo que ouvia dizer tinha antecedentes muito anteriores e contornos que nunca imaginei que tivessem existido.

A pesquisa, que desenvolvi em inúmeros arquivos, bibliotecas, centros de documentação e fontes diversas, levou-me a descobrir a existência da Filarmónica já no século XIX, algo de que pouco ou nada se falava ou sabia.

Escrever o livro foi, por isso, uma consequência deste trabalho uma vez que não existia qualquer obra sobre o tema e as escassas referências publicadas constam em livros mais abrangentes da história e da vida de Pinhel.

A GUARDA: Quais os “factos históricos de Pinhel até hoje pouco conhecidos” que são apresentados no livro?

Ana Pinto – Desde logo, a história da Banda Filarmónica de Pinhel que pode considerar-se a primeira instituição exclusivamente musical da cidade.

A título de exemplo, e muito concretamente, posso referir-me à construção do coreto da cidade sobre a qual nenhum historiador ou investigador se havia debruçado antes.

Além disto, e uma vez que a existência da Banda de Música se cruza com a vida – e a história – da cidade onde está inserida, o livro aborda outros detalhes das instituições e das pessoas de Pinhel, já que não houve acontecimento de relevo na cidade no qual a Banda Filarmónica, estando em actividade, não se fizesse representar e, em alguns momentos até, reorganizando-se propositadamente para o efeito.

Por outro lado, este livro é um repositório de fotografias e documentos, em alguns casos inéditos, que veem agora pela primeira vez a luz do dia. A par disto, reúne, também, alguns testemunhos pessoais, contados por antigos músicos e/ou dirigentes, que acompanharam a história da Filarmónica ao longo de várias décadas de existência.

A GUARDA: Podemos dizer que a leitura deste livro é viajar no tempo e revisitar Pinhel de outras épocas e saberes?

Ana Pinto – Sim. O facto de a história estar contada de uma forma cronológica permitirá ao leitor fazer uma viagem por uma cidade – e, até, um concelho – de Pinhel que vai mudando ao longo do tempo (e, neste caso, falamos numa história que ultrapassa o século e meio).

A história começa ainda no tempo da monarquia, quando Portugal era governado por um rei, assiste à queda deste regime e à instituição dos valores republicanos, passa pelo difícil período da ditadura que todos conhecemos tão bem com o nome de Estado Novo e que fez, inclusivamente, algumas mossas na vida desta colectividade e termina – ou continua (dado que a Filarmónica ainda existe) – no regime democrático e de plenas liberdades.

Nas páginas deste livro, o leitor ficará a conhecer hábitos, tradições, acontecimentos e personalidades que, por diferentes ordens de razão, ficarão para sempre ligadas à história da Cidade Falcão.

A GUARDA: Qual o público alvo desta publicação?

Ana Pinto – Eu penso que qualquer pessoa, sobretudo se tiver interesse por história local e regional, pode sair enriquecida com a leitura deste livro. Apesar de, por força das circunstâncias, abordar alguns termos técnicos, está escrito de uma forma bastante simples e acessível e procura contextualizar todos os episódios no âmbito da história nacional.

Ainda assim, reconheço que para os músicos (filarmónicos e não só) e investigadores na área da música o livro tenha um interesse particular devido à especificidade do tema.

 A GUARDA: Quando e onde vai decorrer a apresentação do livro?

Ana Pinto – O livro será apresentado no próximo dia 20 de Julho (sábado), às 18.00 horas, no Coreto de Pinhel, situado no Jardim 5 de Outubro.

A Banda Filarmónica de Pinhel, personagem principal da obra, marcará a sua presença e nada melhor que fazê-lo com música. Para abrir a sessão interpretará o seu Hino, da autoria do maestro Gonçalo Pinto, e no final tocará, de forma inédita, a marcha “Elite Pinhelense” (que ilustra a capa do livro), seguramente centenária e de compositor desconhecido.

A apresentação do livro terá como moderadora a minha melhor amiga Mafalda Johannsen e como orador convidado o maestro Bruno Correia.

No final, além de uma sessão de autógrafos, será servido aos presentes um Espumante de Honra, de Pinhel.

A GUARDA: A escolha do Coreto de Pinhel para esta cerimónia tem algum significado especial?

Ana Pinto – Sem dúvida que sim. Os coretos são, por excelência, o palco das bandas de música e foi, precisamente, com essa finalidade que este se construiu em Pinhel. Durante largas décadas, aqui se apresentou com assiduidade não só a banda civil mas também a congénere militar quando em Pinhel esta existia associada aos diversos aquartelamentos estacionados na cidade.

Por esta razão, este parece-me ser o sítio ideal para fazer a apresentação do livro que homenageia, sobretudo, os músicos e a música de Pinhel.

A GUARDA: Pinhel é uma cidade e um concelho com tradição musical?

Ana Pinto – Podemos dizer que sim. Há registos sobre a prática e a aprendizagem musical na cidade desde, pelo menos, o século XVI e que se foram mantendo no tempo.

Primeiro de uma forma mais individualizada, associada a pequenos grupos de música de câmara ou a música religiosa (no Convento das freiras de Santa Clara ou no Seminário instalado no Paço Episcopal) e, mais tarde, em grupo com o aparecimento da Filarmónica e de diversas Bandas Militares. Em tempos, formação civil e formação militar existiram em simultâneo, o que certamente trouxe aspectos muito positivos à cultura e às gentes de Pinhel.

Aliás, será certo que a existência de banda militar na cidade aportou inúmeros benefícios à formação civil já que alguns dos músicos profissionais (militares) integraram a Banda Filarmónica na qualidade de executantes e, em alguns casos, de maestros passando muitos dos seus ensinamentos aos colegas amadores.

Mas não só. Em Pinhel existiu, em inícios do século passado, um grupo de teatro que também tinha uma tuna – o Grupo Dramático Musical Pinhelense – e no Club (o local de reunião das gentes mais abastadas da cidade) faziam-se frequentes bailes e convívios ao som do piano e de outros instrumentos mais clássicos.

Em linha de conta com o que se passava na cidade, também noutros locais do concelho a arte dos sons tinha praticantes. Refiro-me à existência da Filarmónica 1.º de Janeiro, em Alverca da Beira, da Filarmónica de Freixedas (ambas já extintas) e da Banda Filarmónica de Pínzio (ainda em actividade).

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