Crónica de um regionalismo

Veja bem o leitor. Chamaram-me burrileiro. Assim, com todas as letras.

Uma dezena: tantas como os dedos da mão com que segurava o telefone, acrescidos dos cinco dedos da outra que ia gesticulando ao vento como que a espantar melga impertinente. Não foi um qualquer alguém que assim me chamou. Foi um amigo. Não um amigo qualquer, mas um grande amigo, um dos primeiros alunos dos meus primeiros anos de vida docente e que sempre primou pela admiração e estima que me manifesta. Não haja confusões. Não me chamou burriqueiro, esse ser humano que guarda, trata ou aluga burros. Diriam alguns mauzões que poderia ser este o atributo de um qualquer professor. Mas não, chamou-me antes burrileiro. E fiquei a saber: não sou burriqueiro, sou burrileiro.
Tudo aconteceu numa área de serviço, um desses espaços, ditos de descanso, tão incaracterísticos e onde perdemos o sentido da diversidade e riqueza da vida, naquela monotonia de preguiçosa arquitectura estética. Aí, quando aquele adjectivo soou aos meus ouvidos, via telemóvel, repeti bem alto duas ou três vezes a palavra e dei uma gargalhada tal que até os pardais abandonaram os ramos da árvore em que se encontravam empoleirados e foram alojar-se noutro lugar, ali bem perto. Fiquei sem saber se as aves se espantaram com a palavra duas ou três vezes repetida por mim ou com a gargalhada tão sonora que eu dera com aquele objecto tecnológico colado ao ouvido direito. Ou então, talvez tivessem voado para outro lugar a observar melhor a cena e, numa perspectiva mais propícia, olharem mais sossegados para a burrileirice da situação.
- Burrileiro, burrileiro!? – Dizia eu, como num negócio de dois em um: admiração e interrogação.
E, lá das lonjuras do norte, da boca daquele amigo a viver no Minho, mas transmontano por inteiro, de corpo e alma, soava com realce a palavra suspeita:
- Sim, burrileiro. És mesmo um burrileiro! Então…
- Mas… - Interrompi eu, estupefacto com tal adjectivação.
Estava prestes a perguntar se tão estranha palavra se escrevia com «u» ou com «o». Travei a tempo a minha ignorância, pensando na docilidade fiel daquele animal que vai estando em extinção. Assim se diz. E todos sabemos qual é.
Ainda pensei que seria burileiro – só com um “r” -, aquele que trabalha com buril, aquele que burila, ou seja, um burilador. Peguei em figuras de estilo e, num repente como em relâmpago, ainda pensei que um professor é, de algum modo, uma espécie de escultor que trabalha com o maior dos cuidados os seres humanos em desenvolvimento, aprimorando a terra de cada aluno para que no final do percurso educativo saia uma obra de arte, uma escultura humana bela e pronta para, com seu trabalho, contribuir para o aperfeiçoamento do mundo. O meu amigo estaria a chamar-me burileiro, um escultor metafórico. Aquele nome tão estranho ao meu ouvido seria uma espécie de homenagem de um aluno ao seu velho professor. Mas não.
Confuso, como aluno na sala de aula quando a matéria não aparenta clarividência, estava a dispor-me a perguntar se a palavra se escrevia com dois “rr” ou só com um. Suspendi a pergunta, porque o meu amigo, acentuando bem os “rr”, repetiu alto e em bom som:
- Burrileiro, sim, és um burrileiro! Sabes o que isso significa em linguagem transmontana do mais puro quilate?
Com tal acentuação nos “rr”, desisti também da pergunta e confessei que, como beirão, não poderia conhecer a terminologia técnica de um transmontano de gema. E assim fiquei chamado burrileiro, naquela estação de serviço de Viseu. Ficaram por testemunhas aqueles pardais cujo chilreio voltei a ouvir quando me dispus a recolher o telemóvel.
Regressei ao automóvel e, na viagem para norte, fui pensando durante algum tempo como a desertificação das aldeias está a empobrecer também a nossa língua, a língua falada, aqui e ali, com as suas simplificações, mas também com desuso de termos dos nossos regionalismos. A tão badalada desertificação é também desertificação linguística. E logo me veio à memória uma série de palavras profusamente utilizadas na minha aldeia, mas que fui deixando de utilizar e que me foram caindo no esquecimento. Aquele transmontano amigo, a viver no Minho, deu-me uma lição de amor à terra e à língua do seu povo.
Eu seguia a caminho de Braga e telefonei a convidá-lo para um encontro na Trofa, onde reside. No seguimento da conversa, recordou-me a oferta da casa para pernoitar. Foi quando lhe disse que já tinha uma reserva num hotel em Braga que ele me surgiu com o transmontano burrileiro.
- És mesmo burrileiro, mas não sabes que tens aqui uma casa sempre aberta aos amigos?
O encontro de velhos amigos foi no dia seguinte e, para alegria de todos, fiquei mais uma noite no Minho, agora na casa do meu amigo. Não podia desatender tão entusiástico espírito hospitaleiro. E o termo “burrileiro” ficou esclarecido. Um burrileiro, no bom e lídimo português de Meles, é um deixa-andar, desprendido das coisas, mas previdente na sua simplicidade viva e natural.
Regressei à Guarda, mais uma vez sensibilizado com aquela cristalina amizade de um homem bom. Daqueles com quem ficamos sempre melhores e o mundo melhor vai ficando com a sua bondade. Quando nos falamos pelo telefone, começo por saudá-lo chamando-o Santo Ambrósio de Milão, que é como quem diz Santo Ambrósio de Meles, esse recanto de terra abençoada que o viu nascer, ali ao lado de Macedo de Cavaleiros, no distrito de Bragança.
Fica assim o leitor a saber do nome deste meu amigo transmontano a viver numa airosa vivenda, no Minho. No jardim, sempre cuidado a primor, plantou uma oliveira centenária trazida da sua querida Meles. E lá está ela, com origem certificada, bem tratada e cheia de viço, a falar das raízes de quem ali mora e a desejar paz e bem a quem chega.
Obrigado, amigo Ambrósio, pelas lições que dás a este teu velho professor. Contigo, com a tua bondade que transparece do teu olhar e do santo entusismo com que narras histórias de vida e falas das tuas raízes, a Páscoa do Ressuscitado fica mais manifesta e luz com maior esplendor no mundo dos homens. SANTA E FELIZ PÁSCOA.
Guarda, 22 de Março de 2018.

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