Porque há outras fomes a satisfazer

JEJUAR


Nunca será demais recordar as realidades humanas mais simples. Delas vivemos no dia-a-dia e, de tão presentes, já nem despertam a nossa atenção. Esta é uma delas: o homem, que é definido de muitas maneiras, é-o também por ser um animal de cultura. É produto e produtor de cultura, todos o sabemos. Isto quererá dizer muitas coisas, mas diz também que mesmo as necessidades mais básicas da nossa realidade biológica são satisfeitas culturalmente. Seja o caso da alimentação. Alimentamo-nos de cultura. E, no comer, se movimenta toda uma cultura económica - a mais visível -, mas também a cultura estética, a política, a moral, a espiritual, a religiosa.
Comemos natural e culturalmente. A prová-lo aí estão as cozinhas das nossas casas apetrechadas com sofisticadas estruturas tecnológicas conjugadas com salas de jantar onde o mobiliário, simples ou de estilo, guarda utensílios, pobres ou ricos, com que levamos os alimentos à boca; aí está a multiplicidade de restaurantes, simples e de massas ou de sofisticadas estrelas Michelin, para dar satisfação à nossa fome e à nossa sede de degustação, de negócios ou de convivência. Aí estão os periódicos, genéricos ou da especialidade, a ensinar-nos a combinar os sabores da natureza para serem servidos à mesa, requintada ou modesta. Aí estão as semanas gastronómicas que enxameiam o país e aí estão os concursos televisivos, simples, como simples são «as receitas lá de casa», ou soberbamente requintados com os juízos de abalizados chefes de renome internacional. A prová-lo aí está a necessidade de dietas, até dietas da moda, e o conveniente tratamento da obesidade, a manifestar-se cada vez mais cedo, fruto, quantas vezes, de uma boca pouco aculturada a outras fomes. Fiquemos por aqui, para não termos de chegar à cultura de tecnologias informáticas a indicarem-nos não só o que podemos comer, mas também o modo e a forma como o devemos fazer.
A todo o momento, e por todos os meios, somos assediados pela cultura da comida, rápida, umas vezes, suavemente demorada, outras, e quantas vezes bem empratada como obra de arte. Pode, assim, faltar o autodomínio e ir ficando atrofiada a cultura do espírito que sempre e em tudo deveria acompanhar as outras manifestações culturais. Se é que a cultura, a verdadeira, não será sempre cultura do espírito!
Mas vamos ao dizer dos antigos filósofos. E não é preciso consultar os mais afamados como Sócrates, Platão ou Aristóteles. Vamos a gente de menor porte, talvez.
Poderíamos visitar Pitágoras e os Pitagóricos (Séc. VI a.C.), essa notável comunidade matemática e religiosa, e relembrar as suas regras de jejum e abstinência. Mas sirva antes de exemplo, para o efeito, alguém que passa por ser um filósofo materialista: Epicuro (Séc. IV a.C.). Para este filósofo o prazer é o verdadeiro bem e é o prazer que nos indica o que convém e o que repugna à nossa natureza e assim alcançar a felicidade. Mais do que nalguma satisfação positiva, o prazer consiste na ausência de dor no corpo e na carência de perturbação na alma. Realiza-se, eminentemente, na serenidade do espírito, e, embora Epicuro lhe junte a saúde do corpo, insiste principalmente no prazer intelectual, até porque as dores corporais são mais suportáveis quando mediadas pelos prazeres da mente. Na prática há que considerar se um prazer passageiro não arrastará no futuro uma dor maior e se uma dor momentânea não virá a frutificar num maior prazer.
Balizado nestes princípios gerais, Epicuro defende a necessidade do jejum. Por um lado por uma questão de prudência: importa habituar o corpo a carências porque nunca saberemos se não viremos a sofrer com a falta total ou parcial de alimentos. Creio que não será de todo ocioso, mesmo no mundo ocidental da abundância consumista, pensar na validade desta razão na actualidade. Mas Epicuro sugere ainda outra razão. Trata-se de uma espécie de experiencialismo prático: jejuando, podemos avaliar a dor e o prazer daí decorrentes e, desta forma, aumentar a autoconsciência e alargar o conhecimento de si mesmo.
Quem negará a importância do autoconhecimento? Mas o jejum poderá ser uma via a ter em conta para tal? Não sei onde e quando ouvi ou li que o templo, o jogo e a mesa são os lugares onde melhor se pode conhecer uma pessoa. Poderão o templo, o jogo e a mesa ser também excelentes lugares para se obter a sabedoria de si mesmo? Não jogamos só com as mãos e pés, como não comemos só com o estômago e para o estômago. No campo do jogo como à mesa nos manifestamos, porque agimos como a pessoa que somos e para tudo o que, em essência, nós somos. O jejum, levado a efeito por decisão pessoal, pode tornar-se um modo de cada um se encontrar a si mesmo, e um meio de descobrir a dimensão espiritual própria e a dimensão religiosa de toda a criação, esse templo natural que nos convida a rezar e de onde retiramos a matéria com que satisfazemos a fome do corpo.
Num dos últimos números da revista do Expresso, Tolentino de Mendonça escreve: «O jejum é readquirir a liberdade de dizer “não”, para conseguir dizer um “sim” que o seja verdadeiramente… pois ajuda-nos a relativizar a tirania desse ponto cinzento em que enclausuramos o quotidiano.»
E o Papa Francisco, na mensagem para a Quaresma 2018, escreve: «… o jejum tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos não possuem sequer o mínimo necessário, provando dia a dia as mordeduras da fome. Por outro, expressa a condição do nosso espírito, faminto de bondade e sedento da vida de Deus. O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao próximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o único que sacia a nossa fome.»
Regresso ao ponto de partida. Comemos e bebemos culturalmente. Comemos e bebemos com tudo o que somos. Comemos e bebemos corporal e espiritualmente. Não só na Quaresma, para o cristão. Sempre, todos, comemos e bebemos como espíritos incarnados que somos.
Jejuar poderá ser expressão de necessidades da nossa fragilidade; mas jejuar será também um poderoso meio de revitalização das virtualidades do espírito humano. Porque, para além da fome física, há outras fomes a satisfazer: fome emocional, social, intelectual, espiritual e de religação ao Abraço de Deus. Aqui, no lugarejo da terra onde vivemos. E lá nas lonjuras onde tantos se alimentam da própria fome ou nela encontram a morte.
Guarda, 8 de Março de 2018

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