PARA O ANO É QUE É…!

Pontos de Vista


Sou do SPORTING. Jurado e confesso. Toda a gente que me conhece sabe que assim é. Desde muito pequeno, contra ventos e marés, Roquetes ou Brunos de Carvalho – eles passam e a minha fidelidade fica. Por teimosia? Não: por fé. Pura fé, daquela que não se explica mas como o outro que disse: ”Aguenta, aguenta …!” E eu digo que é fé porque, arrumadinha a ela, constante e até ingénua, vem sempre a esperança. Perdemos? É o destino, a bola é redonda, rola para todos os lados… Empatámos? A azia é grande, mas vá lá, vá lá … podia ter sido pior, e estivemos mesmo, mesmo, à beirinha da vitória e … ainda há muito campeonato para jogar … só nos atrasámos, estivemos sem perder até agora … E estamos em todas as frentes. Ganhámos? Pois claro, estávamos a merecer, fomos a melhor equipa … Foi nos descontos? E isso que tem? A vitória conta na mesma, ou não? O tempo de compensação é para os dois lados … tanto podíamos ser nós a marcar como os outros …E foi “limpinho, limpinho” com vídeo-árbitro e tudo. Não chega para passarmos pr’á frente? Ficámos quase lá, pá! Com mais uns craques que nos cheguem no mercado de Verão, para o ano é que é…! E aqui está, meus caros leitores, a esperança “verde”, que só não é a última a morrer porque nós morremos sempre primeiro, pelo que ela fica eterna. E já agora, seguindo pela “linhagem” das virtudes cardeais, só me falta a caridade, mas essa, reconheço, anda um tanto arredia destas lides. Caridade com os outros, esclareço, porque se, como o outro que diz “a caridade começa por nós”, então aí são longas conversas, discussões, entrevistas e comunicados de auto-consolação, esmiuçamento aturado de causas e soluções, eventual dedo apontado a este ou àquele responsável para se seguir depois, e enfim, o sonhado projecto para o futuro que – sem falha – irá projectar bem alto o lema “Esforço, Dedicação, Devoção e Glória - Eis o Sporting”!
Com toda esta emoção envolvente acho que está tudo bem com o Sporting? Não, não está. Não está mesmo. Nem no futebol português!
Aliás, o ambiente, no reino do futebol, é irrespirável e nenhum clube, de entre os mais celebrados, está inocente. A comunicação social ajuda, e não pouco, a tão insalubre atmosfera. Desde que os jornais desportivos passaram a ter edições diárias que se tornou indispensável, para rechear o dobro de páginas, entreter as massas com casos, chicanas, intrigas, conspirações, pouco ou nada versando o jogo enquanto tal.
Quanto às televisões, cedo descobriram como sai barato preencher horas e horas de programação acicatando rivalidades, espicaçando a hostilidade entre adeptos das diversas equipas, concedendo tempo de antena a comentadores rústicos, impreparados, fanáticos e boçais, sem réstia de fair play. Quem poderia imaginar, há uns anos atrás, concorridas conferências de imprensa concedidas pelos treinadores na véspera de todos os jogos? E quem ousaria pensar que esses importantíssimos!, incontornáveis! eventos teriam assegurada transmissão directa (repito, directa) em todos os canais de televisão?
A tudo isto assistem, inertes e inermes, governantes e deputados, uns e outros resignados à consagração do futebol (ademais, do pior que existe no futebol) como tópico central e quase exclusivo do quotidiano existencial e da convivência cívica dos portugueses.

E o que lhe está a falhar /faltar dava tema para dezenas de crónicas. Mas não é aqui o lugar. Apenas fui buscar este exemplo para enquadrar de forma ligeira – reconheço – mas perceptível – espero – um problema que tem a ver com Fé. Não essa fé de bancada, meramente clubística, que, ainda que arreigada, vive do espectáculo e do espalhafato dos fan[ático]s, mas uma Fé religiosa – neste caso, cristã católica – e as suas implicações na prática sacramental para certos grupos considerados “periféricos”, digamos assim. Falando claro: o acesso ao sacramento da comunhão dos casais não casados religiosamente, por o terem sido anteriormente com outro cônjuge (ditos “recasados”) e a proposta que quanto a eles foi avançada de viverem juntos mas em continência.
Se acima achei que não era este o lugar para discutir os problemas emergentes do futebol, aqui poderei considerar que me falta a competência.
No entanto, mesmo remetido à posição de cidadão comum, de modesto crente que sou, integrando mesmo assim a Igreja de santos e pecadores que nos caminhos do Presente vão procurando o caminho da Paz e da Salvação, acho que, com três quartos de século de vida vivida e colaborador nas páginas dum jornal católico, posso (e devo) dizer o que penso. E o que penso liga-se muito directamente com a convicção de que fé e sexo são dois temas de delicadíssima abordagem. Porque ambos se enraízam profundamente na estrita intimidade de cada ser, que, no campo de vida que preenchem, se vestem de sensibilidade, de consciência, de certificação moral, de orientação da vontade, de atenção genuína ao outro e ao mundo, que obrigam, no seu tratamento, a uma prudência e a uma caridade verdadeiramente cristãs.
Penso também que, se os Tribunais Eclesiásticos aceitam dissolver os casamentos religiosos por não consumação do matrimónio, não será muito curial que, para casamentos civis de fiéis anteriormente casados religiosamente (os “re-casados”), a Igreja aconselhe ou proponha uma “vida em continência”…
Explicando melhor: Se a Igreja considera que a vida plenamente vivida em comunhão conjugal no casamento canónico implica – e muito bem - a parceria sexual (pense-se no carácter sacramental do casamento rato e consumado, condições para a sua indissolubilidade), também o casamento civil dos fiéis recasados, construído na plenitude de um convívio sério e partilhado, deverá, a meu ver, implicar, para ser plenamente vivido, uma normal partilha sexual.
De resto, creio bem que a vivência sexual é, também para a Igreja, inseparável da ideia de casal.
Mas penso ainda que, equiparar uma experiência de tão profunda espiritualidade e abertura de alma, em convívio com o Sagrado, como é a comunhão na Eucaristia, com a natural parceria sexual duma vida vivida em sincera e honesta comunhão, é um pouco exagerado e claramente desfocado. A meu ver, cabe à Igreja assegurar todos os ensinamentos da Fé e o constante acompanhamento espiritual aos seus fiéis, congregando-os, exortando-os, confortando-os, abençoando-os, segundo e conforme os passos da vida. Mas, acolhendo-os na diversidade das suas origens, costumes e intenções, deverá considerá-los no entanto sempre na sua individualidade, respeitando cada um no seu compromisso pessoal, no seu crescimento na fé à sua própria medida. A Igreja tem – como organização humana em plena vigência, tem de ter – as suas regras? Tem, claro. E cada um pode observá-las ou interpretá-las a seu belo prazer? Não, com certeza. Mas, no caso em apreço, parece-me haver, no aconselhamento avançado, uma nítida “invasão de campo” ao pretender imiscuir-se numa matéria que faz parte da estrita intimidade de cada casal. Ele deverá poder decidir, por certo (e desejavelmente) com acompanhamento espiritual adequado, como proceder em consciência e em bem-estar moral. Porque Deus, Esse, conhece cada uma das suas ovelhas.
Lisboa, 28 de Fevereiro de 2018

 

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